Nova escalada da guerra obriga Fed a imitar BCE e deixar subida de juros para setembro
O banco central dos Estados Unidos vai manter as taxas de juro inalteradas, mas a discussão no 'board' deverá ser intensa num contexto da crise energética provocada pelo conflito no Médio Oriente.
“Não há como escapar à geopolítica.” O título da nota de análise de Matthew Ryan, Head of Market Strategy da Ebury, resume na perfeição o momento que está a marcar as decisões dos principais bancos centrais. O Banco Central Europeu (BCE) manteve na passada quinta-feira inalteradas as taxas de juro, mas prometeu vigilância reforçada num contexto de incerteza elevada e choque energético provocados pela nova escalada de tensões do conflito no Médio Oriente, ou seja, um muito provável aumento do custo do euro em setembro. Esta quarta-feira, a Reserva Federal (Fed) dos EUA deve seguir pelo mesmo caminho, mantendo as taxas de juro inalteradas e os olhos postos numa possível subida na reunião seguinte, caso as tensões da guerra não se dissipem, com o tema da geopolítica a sobrepor-se até a dados económicos positivos.
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Matthew Ryan recordou que os futuros do petróleo Brent dispararam na semana passada, ultrapassando a marca dos 100 dólares por barril pela primeira vez desde maio, num contexto de renovadas hostilidades entre os EUA e o Irão.
“A suspensão dos ataques militares durante o fim de semana trouxe algum alívio, embora os preços continuem elevados, o que está a alimentar não só as expectativas de que a inflação se mantenha elevada por mais tempo, mas também de que os bancos centrais de todo o mundo sejam forçados a responder com um aperto da política monetária”, adiantou o analista da Ebury, uma plataforma de sistemas de pagamento e gestão de risco cambial. “Os futuros não preveem que a Fed tome medidas por enquanto, embora um aumento de 25 pontos base esteja agora totalmente descontado para setembro“, explicou.
Segundo o site CME FedWatch Tool, que monitoriza a negociação dos futuros das taxas de juro, esta quarta-feira a probabilidade de a Fed aumentar as Federal Funds Rates em 25 pb para o intervalo 3,75%-4% eram de 35,5%, tendo subido de 31,5% na véspera com o retomar das hostilidades, nomeadamente ataques aéreos dos Estados Unidos e da Arábia Saudita contra grupos armados apoiados pelo Irão no Iraque.

Há meras duas semanas, essa probabilidade estava nos 10%, num contexto de dados económicos reconfortantes. Philip Marey, senior US strategist no banco de investimento neerlandês Rabobank, recordou que a inflação abrandou para 3,5% em junho em termos homólogos, face a 4,2% em maio e ao consenso dos analistas em 3,8%.
“A inflação de junho, inferior ao esperado, deveria ter reduzido a necessidade de um aumento das taxas nesta reunião, mas o recrudescimento das hostilidades no Médio Oriente poderá reforçar os argumentos a favor de um aumento ainda este ano“, sublinhou.
Segundo a FedWatch Tool, a probabilidade de uma subida de 25 pontos base nas taxas de juro na reunião de 16 de setembro está quarta-feira era de 55,8%, com a chance de uma subida até ao intervalo 4%-4,25% a atingir 24,7%.
Para Marey, é mais provável que o Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) discuta aumentos do que reduções do custo do dólar. “O presidente da Reserva Federal, Kevin Warsh, poderá ter a ‘discussão interna’ que afirmou querer.”, explicou o analista, referindo-se aos comentários do líder na Fed no Fórum BCE em Sintra a 1 de julho.
Discussão, mas pouca comunicação
Se a discussão interna deverá ser acesa, a comunicação externa irá ser mais tímida, tendo em conta que o novo presidente da Fed já explicou que no seu mandato o banco central vai emitir muito menos sinais aos mercados, menos guidance.
Matthew Ryan, da Ebury, recordou que a reunião não incluirá a divulgação do dot plot, o gráfico que representa as avaliações dos membros do comité sobre o percurso futuro das taxas de juro e que Warsh não aprecia. “Na nossa opinião, isso poderá constituir uma fonte discreta de alívio para o Comité, uma vez que definir uma trajetória das taxas durante um conflito em constante evolução seria uma tarefa nada invejável”, referiu.
“A atenção centrar-se-á, em vez disso, nas declarações de Warsh na conferência de imprensa, com uma formulação no sentido de o FOMC estar atento aos riscos de subida da inflação a sinalizar essa intenção sem consolidar as expectativas de subidas futuras“, adiantou Ryan, vincando que a caracterização do aumento do preço do petróleo também poderá ser importante para os mercados, tanto no que diz respeito à forma como enquadra o choque de oferta como à questão de saber se este está a começar, ou se se espera que comece, a traduzir-se em pressões de preços mais generalizadas.
Philip Marey, do Rabobank, tem, no entanto, expectativas mais contidas sobre o que o presidente da Fed poderá transmitir. “A conferência de imprensa de Kevin Warsh poderá ser tão pouco esclarecedora como a sua estreia em junho”, referiu. “No entanto, eventuais votos dissidentes a favor de um aumento poderão dar-nos uma ideia mais clara do sentido de urgência que se faz sentir no Comité.”
Taxa mais baixa do mundo, pede Trump

A provável decisão de manter as taxas de juro inalteradas deverá desiludir Donald Trump, que nomeou Warsh depois de ter diversas vezes criticado o seu antecessor, Jerome Powell, por cortar as Federal Funds Rates de forma demasiado lenta. Esta segunda-feira p presidente dos EUA reiterou o apelo para um corte, afirmando que os EUA deveriam ter a taxa de juro mais baixa do mundo.
“As taxas devem ser reduzidas… Há outros países que pagam taxas de juro mais baixas», afirmou aos jornalistas a bordo do Air Force One. “Devemos ter a taxa de juro mais baixa do mundo”, afirmou Trump.
“O Kevin [Warsh] é fantástico, mas tem um conselho de administração, e os membros do conselho são muito politizados”, disse Trump, acrescentando que sabe o que o presidente da Fed quer fazer.
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