BCE está pronto para subir taxas de juro em setembro
Christine Lagarde sublinhou que a energia mantém a inflação sob pressão e avisou para possíveis efeitos de segunda ronda, o que pode justificar nova subida dos juros na próxima reunião.
- O Banco Central Europeu decidiu manter as taxas de juro inalteradas, com a presidente Christine Lagarde a afirmar que a decisão foi unânime entre os membros do Conselho.
- Lagarde destacou a preocupação com os riscos de impactos de segunda ronda devido aos preços elevados da energia, que podem afetar a inflação e os salários.
- A presidente do BCE alertou ainda para os riscos de crescimento em baixa e a necessidade de ação urgente para fortalecer a economia da área do euro.
O Banco Central Europeu (BCE) decidiu manter inalteradas as taxas de juro diretoras na reunião do Conselho que decorreu entre quarta e quinta-feira em Frankfurt, com a taxa de depósitos a continuar fixada nos 2,25%.
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Christine Lagarde, presidente da instituição, sublinhou em conferência de imprensa que a decisão contou com o apoio de todos os membros do Conselho, ainda que o tema de uma eventual subida tenha chegado a estar em cima da mesa.
“A decisão foi unânime. Houve alguns que perguntaram se deveríamos considerar uma subida” mas “não houve pressão para uma subida de juros do BCE hoje”, afirmou a presidente do BCE, deixando claro que o debate existiu mas não reuniu consenso suficiente para alterar o rumo da política monetária.
Estamos preocupados com o risco de impactos de segunda ronda [quando a subida de preços na energia contamina salários e outros bens], (…) quanto mais tempo os preços da energia se mantiverem elevados, mais provável será termos impactos de segunda ronda.
Sobre a pressão existente sobre os preços, Christine Lagarde procurou transmitir confiança quanto ao médio prazo, mas sem esconder as pressões que persistem no curto prazo. “As expectativas de inflação de médio prazo estão firmemente ancoradas”, garantiu, acrescentando que “a maioria das medidas de expectativas de inflação de longo prazo situa-se em torno dos 2%”.
Ainda assim, a presidente do BCE admitiu que os riscos para a inflação estão inclinados para cima, muito por conta da energia. “A inflação energética deverá manter a inflação bem acima da meta até à primeira metade de 2027”, notando que só depois “a inflação vai então declinar”, apontando ainda para o facto de os choques climáticos e eventos meteorológicos extremos poderem também empurrar os preços dos alimentos para cima.
A questão dos chamados efeitos de segunda ronda – quando a subida de preços na energia contamina salários e outros bens – foi um dos pontos mais escrutinados na conferência de imprensa. “Estamos preocupados com o risco de impactos de segunda ronda”, reconheceu Lagarde, ainda que tenha sido rápida a esclarecer que, por agora, esse cenário não se materializou. “Não estamos a ver quaisquer efeitos de segunda ronda”, disse.
A presidente do BCE notou ainda um abrandamento gradual no crescimento salarial e destacou que o ganho de produtividade laboral está a ajudar a conter o crescimento dos custos unitários do trabalho, sinais que, na sua leitura, sustentam a ideia de uma inflação subjacente contida, “ainda que o efeito total esteja para se manifestar por completo”.
Os fatores do crescimento de médio prazo permanecem intactos (ainda que tenha alertado para que) os riscos para o crescimento estão inclinados para baixo.
O conflito no Médio Oriente dominou grande parte da conferência, numa altura em que o Brent acaba de superar a fasquia dos 100 dólares por barril. “Os desenvolvimentos recentes no Golfo são alarmantes”, reconheceu Lagarde, alertando para a volatilidade da situação: “A situação no Médio Oriente pode inverter-se muito rapidamente”.
A presidente do BCE reconheceu, no entanto, que a queda do Brent depois do memorando de entendimento foi mais rápida do que se esperava, e admitiu que “quanto mais tempo os preços da energia se mantiverem elevados, mais provável será termos impactos de segunda ronda”, deixando o aviso de que “o choque energético pode intensificar-se ainda mais”.
No capítulo do crescimento económico, o discurso de Lagarde equilibrou sinais de resiliência com avisos de cautela, com a presidente do BCE a afirmar que “os fatores do crescimento de médio prazo permanecem intactos”, apontando o reforço das despesas de defesa como suporte à indústria transformadora e destacando que os serviços digitais se mostram robustos, em parte devido à inteligência artificial.
Ainda assim, alertou que “os riscos para o crescimento estão inclinados para baixo” e que os preços mais altos da energia “vão pesar nos rendimentos reais das famílias”, concluindo que é necessária “uma ação urgente para reforçar a economia da área do euro”.
Quanto aos próximos passos, Lagarde optou por não comprometer o BCE com qualquer trajetória futura, sublinhando que “não estamos a dar qualquer orientação futura (forward guidance). Estamos a fornecer orientação de enquadramento (framework guidance)”, justificando assim a pausa com a necessidade de mais informação: “Teremos muitos mais dados disponíveis em setembro”.
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