O que diz um músico sobre o Estado da Nação? E um professor?

Se para a maioria destes profissionais o país está melhor, as críticas multiplicam-se à ação (e inação) do Estado em temas prementes desde o SNS à habitação, passando pela ineficiência da justiça.

Para Carlos, entre o último discurso do Estado da Nação, há um ano, e o próximo, esta sexta-feira, o país “melhorou alguma coisa”, mas não necessariamente em termos económicos. “Melhorou principalmente o aspeto psicológico”, disse ao ECO o professor do Ensino Secundário em Vila Real. “As pessoas estão mais animadas, mesmo não havendo um aumento muito significativo dos vencimentos e, por isso, gastam mais”, conclui.

Não é o único a pensar assim. Entre as oito pessoas de diversas áreas de trabalho que falaram ao ECO, a maioria acredita que o país, em geral, está igual ou melhor do que há um ano. No entanto, nos seus campos profissionais, têm muito a apontar que precisa de ser feito e criticam a inação do Governo.

Diogo é analista numa empresa de consultoria em Lisboa e concorda com uma visão otimista do país: as coisas “estão melhores” do que há um ano, disse ao ECO. “Há mais confiança, as pessoas têm mais euros”, disse o consultor, “e há uma noção de que existe uma estabilidade política controlada” com o atual acordo de incidência parlamentar, acrescenta.

Já Susana, por exemplo, tem uma perceção verticalmente oposta. “As coisas têm piorado bastante. Quando transitámos do Governo de Passos Coelho para esta história da geringonça, houve um pouco o fim da pressão da troika e as coisas começaram a ter motor e arrancar”, explicou a jurista que trabalha em Lisboa para uma consultora. “Desde então, tem-se vindo a desvanecer essa euforia. A economia claramente está claramente a abrandar e há também uma grande diferença na confiança do consumidor, já que as pessoas gastam menos porque estão com medo que possa vir outra troika“.

“Não sei bem o que responder”, diz Sara, médica em Coimbra. “No geral, estamos no mesmo pé que há um ano. Há áreas em que temos crescido, como o turismo, mas há outras em que não só estagnámos como estamos pior, como na saúde e educação”. E acrescenta: “Sinto que algumas medidas são tomadas para atirar areia aos olhos e fazer parecer que está tudo bem, como quando se reintroduziram os feriados todos de uma vez”.

Saúde: “Há medidas que são uma parvoíce”

Nos hospitais, os médicos e enfermeiros têm contestado a falta de pessoal.Freepik

Enquanto médica a fazer a sua especialidade, Sara viu de perto ao longo deste ano algumas situações que lhe desagradaram na organização do Sistema Nacional de Saúde. “Abrem imensas vagas de medicina e enfermagem nas faculdades, mas depois não há como escoar os médicos ou enfermeiros. Supostamente a formação médica garante o ano comum e uma colocação na especialidade, mas este ano cerca de mil ficaram sem poder escolher essa colocação“, afirma.

E a situação dos enfermeiros também é difícil, acrescenta. A Bastonária da Ordem dos Enfermeiros disse recentemente ao ECO que, por falta de pessoal nos serviços, muitos enfermeiros trabalham semanas de até 70 horas. Sara reconhece que os enfermeiros se queixam “com razão” de trabalharem demasiadas horas, mas acredita que a transição para um horário de 35 horas para os enfermeiros dos hospitais EPE, que se concretizou no dia 1 de julho, não resolve essa situação. “Reduzem-lhes o horário para 35 horas semanais, o que não resolve nada porque continua a haver a mesma falta de pessoal”, afirma. “Agora têm de lhes pagar ainda mais horas extraordinárias”.

A jurista Susana também considera que o SNS tem vindo a degradar-se. “No último ano tem acontecido de uma forma escabrosa”, afirma, “tem-se visto que as pessoas estão muito menos satisfeitas, não só as que estão lá a trabalhar, mas também os doentes”.

Em Azeitão, Setúbal, a pensionista Idália está satisfeita com o posto de saúde a que tem acesso, mas lamenta as condições de trabalho dos enfermeiros. A sua carreira foi feita na enfermagem antes de se reformar, e lamenta que não haja uma melhoria nas condições da carreira. “Os enfermeiros foram aconselhados a fazer uma licenciatura, e continuamos a não ser remunerados como pessoas com licenciatura”, afirma. “E os nossos ordenados são uma miséria”.

Habitação: “Vale tudo menos tirar olhos”

Idália tem uma perspetiva negativa da evolução do país no último ano, embora considere que a criação de emprego tem sido positiva. Criticou, no entanto, a precariedade dos novos empregos criados, e não poupou palavras ao falar sobre a habitação.

“O IMI aumentou imenso”, disse a proprietária de habitação em Azeitão. “Até há pouco tempo pagava cerca de 100 euros, e agora pago mais de 500. É cinco vezes mais”, afirmou. E no mercado da habitação, disse ainda, “com a especulação que tem havido, vale tudo menos tirar olhos”.

Até Cláudia, guia turística em Lisboa, se preocupa com os efeitos que o turismo tem tido em áreas como a da habitação. “O país está na moda, e vêm para cá, de férias, tipos muito variados de pessoas”, diz, positivamente. No entanto, a falta de regulamentação de plataformas como o Airbnb está a aumentar os preços da habitação, considera a profissional, e “é um problema” com o Governo deveria lidar. “Em comparação com há quatro anos, diria que estamos melhor. Mas comparado com o ano passado, umas coisas estão melhores e outras piores”, disse, ambivalente.

O músico Bernardo também referiu a habitação como uma das suas principais preocupações ao avaliar o trabalho do atual Governo. “Se, por um lado, um governo de esquerda acalma quaisquer contestações sociais, temos vindo a ver no último ano um crescimento de descontentamento em relação a questões que não dá para continuar a ignorar”, afirma, exemplificando: “como o racismo estrutural bastante evidente no caso atualmente em julgamento da prisão de Alfragide ou de questões como a habitação, que mesmo sendo um problema à escala municipal acaba por ser um palco importantíssimo para questionar o rumo do capitalismo”.

"Parece que continuamos num nível pré-pré-histórico de compreensão da importância da cultura. ”

E no seu campo da cultura e da arte, o músico também se desilude, embora a questão seja mais uma vez em parte nacional, em parte municipal. “Se por um lado parece que continuamos num nível pré-pré-histórico de compreensão da importância da cultura, por outro, opções camarárias como concessionar espaços como o Teatro Maria Matos deixam um vazio gigante de salas de espetáculo de tamanho médio. Isso vai dificultar ainda mais a vida a artistas que queiram aspirar a qualquer tipo de crescimento e reconhecimento fora de moldes mais normativos”.

Educação: Maior injustiça é “para os professores em início de carreira”

Os sindicatos dos professores reivindicam a recuperação dos anos de trabalho durante o congelamento das carreiras.Pixabay

Para Carlos, os professores encontram-se praticamente na mesma posição em que estavam no ano passado. Mesmo que tenham progredido na carreira e subido de escalão, afirma, “o aumento do vencimento é feito em quatro vezes”, pelo que um aumento de 60 ou 70 euros acaba por ser dividido em quatro prestações, uma por trimestre, e ainda é taxado, tornando-o menos relevante.

Até esta semana, a greve dos professores paralisou as reuniões de avaliação. Os sindicatos exigem a recuperação do tempo de serviço que decorreu durante o congelamento das carreiras, algo que o Governo não está preparado para fazer na totalidade. Para Carlos, a posição dos sindicatos parece ser um pouco radical. “As pessoas sentem-se injustiçadas, mas a ideia era equilibrar o topo da carreira da Função Pública com o topo da carreira dos professores”, diz o docente. Os sindicatos “só aceitam os nove anos, quatro meses e dois dias, não aceitam mais nada”, disse. “Mas se calhar têm razão”, acrescenta porém.

Na recuperação das carreiras, “o que eu sinto que é maior injustiça é para os professores em início de carreira, que estiveram 10 ou 20 anos no primeiro e segundo escalão. Muitos deles têm 20 ou 25 anos de trabalho e estão no primeiro e segundo escalão. Deviam começar por aí, e não estão a fazê-lo”, conclui.

César, investigador da Universidade do Minho, disse ao ECO que não reparou numa mudança significativa na condição dos investigadores, num ano em que foram lançadas várias iniciativas do Governo para o emprego científico. “Um contrato de investigação não te dá as mesmas regalias que um contrato de trabalho. Um bolseiro não pode ter outro emprego, não recebe nem subsídio de férias nem de Natal, pode fazer descontos mas são voluntários…” exemplificou.

Em relação à investigação e ao apoio que é dado aos investigadores acho que não mudou nada, e acho que deveriam ser feitas algumas mudanças“, concluiu.

Justiça: “Não se tem visto nenhuma melhoria”

“Na área da justiça estou a achar isto tudo um bocadinho triste”, afirma Susana, jurista. “Continuo a ver as coisas a não se resolverem. Por exemplo, na área fiscal, onde eu mais trabalho, vejo clientes à espera da resolução de problemas há 20 anos”, continua.

Susana considera que a falta de eficiência do sistema judicial e da Autoridade Tributária afeta mesmo a saúde financeira das empresas. “Os ajustamentos fiscais contenciosos com o Estado, com processos cada vez mais lentos, podem mesmo levar uma empresa à falência”, afirma. E os investidores estrangeiros têm tudo isso em conta. “Cada vez mais isto é uma barreira ao investimento que vem de fora”, diz. “Temos muita dificuldade em explicar, muitas vezes, quais é que são as regras e por que é que existem tantas barreiras”.

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