Já abriram as candidaturas às Gigafábricas de IA. Afinal, Comissão quer sete
Afinal serão sete - e não cinco - as Gigafábricas de IA que a Comissão Europeia pretende apoiar. O concurso público tem dois lotes e foi oficialmente lançado esta quinta-feira.
A Comissão Europeia oficializou esta quinta-feira, 30 de julho, as candidaturas à construção e operação de até sete Gigafábricas de inteligência artificial (IA), que pretende financiar em conjunto com os Estados-membros e empresas privadas. A ambição de Bruxelas é, assim, superior às cinco Gigafábricas previstas anteriormente, num empreendimento que vai exigir até dez mil milhões de euros de investimento público de fundos europeus e dos Estados-membros e pelo menos 20 mil milhões de euros de capital privado. Portugal vai participar.
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“O concurso apoiará até sete Gigafábricas de IA, abrangendo duas fases de desenvolvimento consecutivas em dois lotes, com os Estados-membros participantes a oferecerem uma contrapartida ao financiamento da UE. O financiamento público atua como um poderoso catalisador da iniciativa, impulsionando o avultado investimento privado necessário para construir e explorar estas instalações”, aponta a Comissão Europeia num comunicado.
O segundo lote — a que Portugal irá concorrer, confirmou fonte governamental ao ECO — é o mais ambicioso, correspondendo a Gigafábricas de IA de “larga escala”, até um máximo de três projetos. Os projetos vencedores terão, numa primeira fase, de assegurar um mínimo de 40 mil processadores de IA avançados — no mínimo, Nvidia H100 ou equivalentes. Deverão ainda assumir um compromisso vinculativo para alcançar os 100 mil processadores na segunda fase. A primeira fase corresponde a um apoio da UE de até 200 milhões de euros por projeto, acrescidos de 800 milhões de euros na segunda.
Já o primeiro lote corresponde a Gigafábricas de IA de “média escala”, até um máximo de quatro projetos. Neste caso, os projetos vencedores terão de assumir a instalação de 25 mil processadores avançados da mesma gama numa primeira fase, assumindo um compromisso para atingir os 75 mil na segunda fase. O apoio europeu, neste caso, corresponde a até 100 milhões de euros por projeto na primeira fase e 400 milhões na segunda.
O acesso à enorme capacidade de processamento das Gigafábricas de IA é uma necessidade estratégica para a Europa, à medida que o desenvolvimento da IA se acelera. É gratificante ver os Estados-membros, a indústria e a Comissão a unirem esforços para trabalhar nestas instalações, que são fundamentais para a nossa soberania tecnológica.
A Comissão Europeia define uma Gigafábrica de IA como um grande centro de dados que alberga dezenas de milhares de processadores altamente avançados. Infraestruturas deste tipo permitem treinar modelos avançados de IA, mas também podem ser usadas na chamada “inferência” — o uso dos próprios modelos para as suas respetivas finalidades, desde a geração de um simples texto a outras mais complexas, como a procura por novos medicamentos.
Portugal e Espanha juntos na corrida
Este procedimento reveste-se de grande importância para Portugal, na medida em que o país tem estado a preparar nos últimos meses, através do Banco Português de Fomento, uma ambiciosa candidatura para captar uma destas infraestruturas. Essa candidatura será apresentada em conjunto com Espanha, país que era visto como um dos potenciais favoritos, numa parceria “de igual para igual”, com “metade em Portugal e metade em Espanha”, segundo o ministro da Reforma do Estado, Gonçalo Matias.
Ora, a aliança com Espanha, por um lado, e o facto de a Comissão Europeia ter elevado a fasquia de cinco para sete Gigafábricas a cofinanciar, por outro, são fatores que jogam a favor da pretensão portuguesa de albergar, em Sines, pelo menos parte de uma destas infraestruturas. Para tal, o Governo já comprometeu uma verba de 200 milhões de euros para apoiar a construção, a igualar por Bruxelas se a Gigafábrica ibérica vier a vencer, montante que será mais tarde ‘recuperado’ na forma de capacidade de computação, um recurso escasso e cada vez mais procurado atualmente.
Esta quinta-feira, no anúncio da abertura do procedimento, a Comissão Europeia explica que “as Gigafábricas de IA podem ser estabelecidas num único Estado-membro, quer num único local, quer em diversas localizações”, ou “podem incluir projetos transfronteiriços que abranjam vários Estados-membros, através de instalações de computação de IA distribuídas”. No projeto ibérico, do lado português, além de Sines, está prevista “outra localização de redundância”, que poderá ser nas proximidades de Lisboa ou Abrantes. Do lado espanhol, os destinos deverão ser Barcelona e Madrid.
Dos dois lados da fronteira, foram montados consórcios alargados de empresas privadas que também terão de contribuir com capital para o projeto, num regime de Parceria Público-Privada (PPP). A Nvidia também é uma das empresas envolvidas, assegurando o fornecimento dos processadores, que já estavam garantidos, conforme chegou a anunciar o presidente do Banco de Fomento, Gonçalo Regalado.
“As propostas serão submetidas a uma avaliação competitiva para selecionar projetos bem-sucedidos”, avança a Comissão Europeia. Essa seleção estará a cargo da Empresa Comum para a Computação Europeia de Alto Desempenho da UE, mais conhecida por EuroHPC.
A ideia de instalar grandes centros de dados para IA na União Europeia surgiu no ano passado, aquando da apresentação do Plano de Ação Continente IA, e pode bem tornar-se na política pública mais consequente em matéria de reforço da soberania tecnológica europeia. Essa é também a esperança da própria Comissão: “A iniciativa garantirá que a Europa possa desenvolver IA avançada na sua própria infraestrutura, em conformidade com as regras e os valores da UE.”
As Gigafábricas, segundo Bruxelas, também garantirão a incorporação dos valores europeus nesta tecnologia de ponta, uma vez que a IA desenvolvida nestas infraestruturas terá de seguir as normas europeias “em matéria de proteção de dados, segurança e ética”.
A um nível mais macro, resta saber se a UE ainda vai a tempo de entrar a sério na corrida. Os maiores e melhores modelos de IA têm surgido nos EUA e na China. Adicionalmente, esta semana, um estudo da consultora Roland Berger previu que a quota da Europa na capacidade global instalada de centros de dados venha a cair ainda mais, passando dos atuais cerca de 13% para perto de 10% até ao final da década. O próprio concurso, de resto, já foi lançado mais de meio ano depois do originalmente previsto.
(Notícia atualizada às 12h10 com confirmação de que Portugal irá concorrer ao lote 2)
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