Os portugueses são iguais a Luís Neves
A conferência do ministro da Administração Interna é de antologia. Como somos todos iguais, pode continuar governante. Afinal, são apenas informalidades.
Luís Neves é ministro da Administração Interna, tutela forças de segurança e apresentou-se, finalmente, ao fim de três semanas numa conferência de imprensa para responder às suspeitas sobre a sua atuação enquanto diretor nacional da Polícia Judiciária e sobre o evidente conflito de interesses quando misturou decisões públicas e interesses privados. A conferência é de antologia, mas ressalta uma tese que, na verdade, diz mais sobre os portugueses que toleram a sua permanência como ministro do que do próprio. É (também) por isso que temos o país que temos, e que fizemos o que fizemos nos últimos 50 anos.
Em primeiro lugar, já se percebeu a demora nestas explicações. Depois daquele fim de semana em que decidiu dar três entrevista televisivas, todas elas um desastre de comunicação, era necessário que os portugueses se esquecessem do que tinha dito. Passadas três semanas, desmentiu as suas próprias declarações e falou de outras coisas que, convenientemente, tinha omitido.
Do tanque que, afinal, foi construído como uma piscina à sua revelia (não se pode confiar nestes empreiteiros…), dos pagamentos em dinheiro e sem prova de transferência até à não entrega de declarações de rendimento porque desconhecia a lei e à decisão de entregar um atrelado com material apreendido de uma operação anti-droga a uma empresa sem as mínimas qualificações para tal, e sem um documento que a suporte. É tudo tão mau, tão penoso, um nível de exigência que não cumpre os mínimos, e que só tem paralelo na condescendência sem paralelo de tantos comentadores e jornalistas perante estes factos.
“Fiz no interior desta propriedade o que milhões de portugueses fazem legalmente todos os dias nas suas casas”. É esta a afirmação mais importante de uma conferência de Luís Neves que deveria servir para recuperar uma confiança irremediavelmente perdida. O ponto, para o ministro e ex-diretor da PJ não é o que fez, é que todos os portugueses são como Luís Neves, e por isso, necessariamente, proibidos de exgir que se demita. Estaria também a falar do primeiro-ministro (a dúvida é mais do que legítima)? Tudo possível porque passou uma vida “do lado do bem”.
A nomeação de um diretor nacional da PJ foi evidentemente um erro que se revelou mais cedo do que se antecipava. Luís Neves foi anunciado como ministro a 21 de fevereiro, estamos a 30 de julho e, pela terceira vez, Montenegro, tem um ministro politicamente diminuído na Administração Interna, mas, aparentemente, continuará governante.
Temos o país que temos porque somos demasiadas vezes iguais a Luís Neves. Achamos normal o favor, a exceção, a escolha por amizade, o desconhecimento conveniente da regra e a regularização posterior do que devia ter sido feito antes.
A conferência de imprensa foi de antologia por isso mesmo, não pela solidez das explicações, mas pelo retrato cultural que (nos) ofereceu. Luís Neves apresentou-se como um homem sério, com currículo, experiência, coragem e serviços prestados ao Estado. É aliás importante recordar que, aquando da sua nomeação, afastava as críticas da passagem direta da PJ para o Governo porque não andava, ele próprio, a fazer investigações, mas agora, como dá jeito, anuncia que prendeu o que é o pior da sociedade. Tudo isso pode ser verdade, mas é irrelevante para a questão central, porque um ministro não se mantém em funções apenas porque tem passado, mantém-se porque conserva uma autoridade política no presente.
Cada explicação de Luís Neves, vista isoladamente, pode parecer menor, mas o conjunto revela uma cultura política e administrativa muito portuguesa, em que a confiança pessoal ocupa o espaço que devia pertencer ao procedimento e às regras, a relação de proximidade passa a valer como o principal critério, o desconhecimento das leis surge como atenuante e a regularização posterior serve para reparar o que devia ter sido acautelado antes.
É este padrão que torna a conferência de imprensa politicamente tão grave, porque Luís Neves não apareceu apenas a defender-se de casos concretos, apareceu a normalizar uma forma de exercício do poder em que a informalidade deixa de ser exceção e passa a ser linguagem de governo. E isso tem um responsável maior do que Luís Neves, é o próprio primeiro ministro que o permite quando mantém o ministro em funções e que definiu uma tão baixa fasquia de exigência política. Depois, queixem-se de André Ventura e da Comissão de Inquérito.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Os portugueses são iguais a Luís Neves
{{ noCommentsLabel }}