Tráfego no Estreito de Ormuz “improvável” de voltar ao nível pré-guerra até 2027
Fintech Ebury assinala que a perda acumulada no abastecimento mundial de crude com o encerramento da via marítima "tem de ser compensada através da redução dos stocks e da procura”.
Passados quase três meses desde que os Estados Unidos e Israel lançaram os primeiros ataques contra o Irão, o Estreito de Ormuz — por onde passava, até então, cerca de um quinto da produção mundial de petróleo — continua efetivamente intransitável. Perante o que a Agência Internacional de Energia (AIE) já apelidou como “o maior choque energético de sempre”, a Ebury antecipa que, com uma resolução do conflito no curto-médio prazo a ser posta em causa devido ao impasse nas negociações de paz, o fluxo através desta via marítima poderá aproximar-se da normalidade a partir de julho. Contudo, considera improvável um regresso aos níveis pré-guerra até ao próximo ano.
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Há semanas que Washington e Teerão trabalham no sentido de alcançar um acordo-quadro de paz. Ambas as partes trocam propostas, mas as negociações têm tido um progresso lento face a questões fundamentais por resolver, entre as quais o programa nuclear do Irão, o acesso ao Estreito e as sanções dos EUA.
É neste último ponto que, tendo em conta as recentes notícias que davam conta de um possível alívio temporário das restrições norte-americanas ao Irão — que, entretanto, a Casa Branca já veio dizer que não será “à borla”, ou seja, sem qualquer cedência de Teerão, em particular na questão do programa nuclear –, que os economistas da Ebury veem um “motivo de otimismo”.
“O tráfego [marítimo através do Estreito de Ormuz] poderá regressar a níveis mais próximos do ‘normal’ no terceiro trimestre, mas é improvável que se atinjam os níveis pré-guerra até 2027“, visto que “a reabertura total levará tempo, dado o risco de novos ataques militares e os elevados prémios de seguro”, anteveem Matthew Ryan e Enrique Dias-Alvarez, que são, respetivamente, diretor de Estratégia de Mercado e economista-chefe da fintech britânica.
Numa apresentação aos jornalistas acerca das repercussões da guerra no Irão nos mercados, os dois economistas traçam três cenários possíveis: um deflacionário, um estagflacionário e um recessivo.
No primeiro, de paz a longo prazo (isto é, em que é assinado um acordo de paz e Ormuz reabre totalmente no terceiro trimestre) — cuja probabilidade apontam para 35% –, veem o barril de petróleo a negociar num intervalo de 80 a 90 dólares, uma queda gradual do dólar e um potencial limitado quer de inflação elevada, quer de uma eventual descida do PIB.
O cenário mais provável (45%), segundo Matthew Ryan e Enrique Dias-Alvarez, é o de uma guerra de desgaste, em que há uma estagnação das negociações de paz e a reabertura do Estreito de Ormuz é adiada. Neste caso, o petróleo manter-se-á nos 100-130 dólares, haverá uma alta “modesta” do dólar, o crescimento económico irá abrandar e a inflação terá efeitos de segunda ordem.
Por fim, com 20% de probabilidade, a Ebury coloca a hipótese de um ressurgimento total do conflito, com um colapso do cessar-fogo, a retoma das operações militares retomadas e o Estreito de Ormuz intransitável por mais de seis meses. Aqui, o preço do crude subirá acima dos 150 dólares, o foco dos investidores incidirá nos ativos de refúgio, a inflação estará “enraizada” e a economia fica sob risco de recessão.
A perda do abastecimento do Estreito de Ormuz foi parcialmente compensada por produção adicional noutros locais (oleoduto Este-Oeste, Venezuela, EUA, etc.), o que limitou o potencial de subida dos preços do petróleo. Para colmatar o défice, a perda acumulada “tem de ser compensada através da redução dos stocks e da procura. Uma reabertura em junho provavelmente poderá ser gerida principalmente com base nos stocks, mas uma reabertura em setembro exigiria uma redução significativa do consumo“, sublinha o economista-chefe da fintech especializada em pagamentos internacionais e câmbios.

Fed com menos pressão que bancos centrais da Europa
O aumento dos riscos de inflação significa que os cortes nas taxas de juro nas economias desenvolvidas estão agora fora de questão. O RBA (banco central da Austrália) e o Norges Bank deram o pontapé de saída aos ciclos de aperto monetário, mas os analistas preveem que outros se seguirão, incluindo o Banco Central Europeu (BCE) — e já na reunião de junho.
Enquanto importadores de energia, tanto a Zona Euro como o Reino Unido estão mais expostos à crise energética do que os EUA. No caso do BCE, as taxas mantiveram-se inalteradas em abril, mas foi discutido o aumento nessa reunião. Os preços na área da moeda única estão a “afastar-se” do cenário de base (meta de 2%) — a taxa de inflação homóloga acelerou para 3% no mês passado –, pelo que as expectativas de inflação a curto prazo aumentaram.
“O aumento das taxas em junho é agora um dado adquirido“, afirma Matthew Ryan, ressalvando, porém, que “a antecipação de aumentos de 75 pontos base para 2026 é exagerada devido às perspetivas de crescimento fracas”.
Quanto a terras de Sua Majestade, os economistas da Ebury não veem tanta urgência para aumentar as taxas, face à “venda massiva” de Gilts (títulos de dívida emitidos pelo Governo britânico), que “atua como um aperto monetário”. Não obstante, o aumento em julho “é possível”, mas com “margem limitada para mais”, apontam.
Os Estados Unidos, por sua vez, deparam-se com um mercado de trabalho “num estado ideal”: a média de três meses dos Non-Farm Payroll (NFP), indicador que mede a criação de emprego, está em 48 mil — acima da nova taxa de equilíbrio –, e a média de quatro semanas dos pedidos de subsídio de desemprego encontra-se em níveis baixos (204 mil). Por isso, e também porque os EUA são exportadores líquidos de energia, a previsão é de que a Reserva Federal não faça quaisquer reduções das taxas de juro — atualmente na faixa de 3,50% a 3,75% — este ano.
Descida gradual do dólar vs. margem para otimismo no euro
No que se refere ao mercado cambial, a Ebury mantém uma “visão pessimista” em relação ao dólar, devido ao “prémio de caos de Trump”, por contraposição ao “otimismo moderado a longo prazo” relativamente ao euro.
Apesar de estar a perder terreno face à maioria das principais moedas nos últimos tempos, e de uma guerra prolongada no Médio Oriente poder conduzir a uma “descida adicional no curto prazo”, a crise energética e os dados fracos sobre a atividade económica estão a manter a divisa da Zona Euro sob controlo.
O facto de a Europa ser vista como uma alternativa segura e estável aos EUA favorece as perspetivas positivas, assim como o provável estreitamente dos diferenciais de taxas entre ambos, à medida que o BCE aumentar os juros, e o pacote anunciado pelo Governo alemão para estimular a maior economia do euro.
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