Efeitos extraordinários travam lucro do BPI para 239 milhões. Margem financeira encolhe 2%
Apesar da travagem nos resultados, o banco liderado por João Pedro Oliveira e Costa viu o crédito subir 8% e os recursos de clientes aumentarem 3,4 mil milhões de euros no semestre.
O BPI fechou o primeiro semestre de 2026 com um lucro líquido de 239 milhões de euros, uma queda de 13% face ao mesmo período do ano passado, equivalente a menos 35 milhões de euros no resultado do banco.
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A instituição liderada por João Pedro Oliveira e Costa explica esta descida sobretudo por dois efeitos que não se vão repetir: em 2025 tinha beneficiado de um ganho pontual de 18 milhões de euros com a devolução de contribuições pagas ao Adicional de Solidariedade sobre o Setor Bancário, enquanto este ano foi penalizado em 35 milhões pela forma como passou a contabilizar a sua participação no banco moçambicano BCI.
Olhando apenas para a atividade em Portugal, sem contar com os contributos das participações africanas, o BPI gerou 221 milhões de euros de lucro. Menos 8% do que há um ano e uma quebra que se reduz a apenas 1% se se excluir o efeito do Adicional de Solidariedade.
O semestre foi marcado por um crescimento de 8% da carteira total de crédito para 35,1 mil milhões de euros e por um aumento de 8% dos recursos totais.
Ainda assim, o negócio doméstico continua a ser rentável, com a rentabilidade dos capitais próprios tangíveis (o indicador que mede quanto o banco consegue gerar de lucro a partir do capital que os acionistas lhe confiam) a fixar-se em 14,8% nos últimos 12 meses em Portugal. Abaixo dos 16,6% registados no período homólogo, mas ainda assim um valor que a generalidade da banca europeia gostaria de exibir.
Já a margem financeira (diferença entre o que o BPI cobra de juros nos empréstimos e o que paga aos depositantes, e que continua a ser o motor tradicional dos lucros de qualquer banco) recuou 2% para 432 milhões de euros.
O banco justifica esta ligeira contração com uma estabilização das taxas de juro ao longo dos últimos trimestres, notando que o chamado repricing da carteira de crédito, ou seja, a atualização gradual das taxas dos empréstimos já contratados para níveis mais elevados, ainda está a ter um impacto reduzido nas contas.
Em contrapartida, as comissões cobradas aos clientes subiram 8%, acompanhando o crescimento do negócio, e ajudaram a compensar parte da travagem na margem financeira.

Impacto da operação do BPI em Moçambique nas contas do semestre
O banco liderado por João Pedro Oliveira e Costa deu também um passo relevante em Moçambique, ao reclassificar a sua participação de 35,67% no BCI — Banco Comercial e de Investimentos, deixando de a tratar como “empresa associada” reconhecida por equivalência patrimonial para passar a registá-la como “ações ao justo valor através de outro rendimento integral”.
Na prática, o BPI abdica de indicar administradores para o banco moçambicano e deixa de incorporar os seus resultados nas contas, ficando apenas com o encaixe dos dividendos distribuídos.
A alteração contabilística teve um impacto negativo de 35 milhões de euros no resultado do semestre, explicando em boa parte a queda do contributo conjunto das participações africanas (BFA e BCI), que recuou de 33 milhões para 18 milhões de euros face ao período homólogo.
Do lado da solidez financeira, o BPI mantém uma almofada de capital confortável, com um rácio CET1 de 13,9% e um rácio de capital total de 17,2%.
Ainda assim, o CEO do BPI insiste que o objetivo é tornar a exposição “menos volátil” e preparar o terreno para uma futura redução da posição acionista, à semelhança do que aconteceu com o BFA angolano, que culminou no ano passado num IPO do BFA com um encaixe de 103 milhões de euros para o banco português.
João Pedro Oliveira e Costa reafirmou que “as participações em África não são estratégicas” e assumiu vontade de reduzir a posição no BCI, ainda que reconheça não ter discutido o tema com a Caixa Geral de Depósitos, acionista maioritário do banco moçambicano com mais de 60% do capital.
Fora essa operação extraordinária, o semestre foi, de resto, marcado por um crescimento robusto da atividade comercial do banco, que é espelhado por um aumento de 8% da carteira total de crédito para 35,1 mil milhões de euros, impulsionada pelo crédito à habitação, que cresceu 11% para 18 mil milhões, e pelo financiamento às pequenas e médias empresas, que disparou 12% para 7,2 mil milhões.
Os recursos totais confiados pelos clientes ao banco também subiram 8%, para 45,3 mil milhões de euros, com destaque para os fundos de investimento e seguros de capitalização, que cresceram 22%.
Este avanço do negócio fez subir os custos de estrutura recorrentes em 5%, refletindo também o reforço do quadro de pessoal para 4.630 colaboradores, mais 276 do que há um ano, elevando o rácio de eficiência em Portugal para 43%.
Do lado da solidez financeira, o BPI mantém uma almofada de capital confortável, com um rácio CET1 de 13,9% e um rácio de capital total de 17,2%, folgas que superam as exigências mínimas do Banco Central Europeu.
A qualidade da carteira de crédito continua também em níveis historicamente baixos de incumprimento, com um rácio de crédito não produtivo de apenas 1,3% e uma cobertura por imparidades e colaterais de 134%, sinais de que o crescimento acelerado do negócio não está a ser feito à custa de mais risco.
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