Os fabricantes na corrida para pôr a CP a circular a 300 km/h
O prazo de entrega de candidaturas para fornecer 12 comboios de alta velocidade à CP termina este sábado. Saiba quem são os fabricantes que podem entrar na corrida.
A entrada da CP na era da Alta Velocidade dá um passo decisivo este sábado com a entrega das candidaturas de pré-qualificação dos interessados em fornecer os 12 comboios que circularão a velocidades de até 300 km/h na ferrovia nacional, lá para de 2032.
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O concurso prevê uma despesa de até 584 milhões de euros para a aquisição de 12 automotoras, com mais oito de opção, peças sobresselentes e a manutenção integral durante 24 meses. A primeira entrega está prevista para o primeiro trimestre de 2031, com as restantes unidades a serem entregues com uma cadência aproximada de uma por mês, até ao terceiro trimestre de 2032.
Há critério mínimos para participar. Um deles é ter comboios de passageiros com velocidade de pelo menos 300 km/h em exploração comercial no mercado europeu, o que excluirá a suíça Stadler, que no final do ano passado começou a entregar as primeiras novas automotoras para a CP em mais de 20 anos. É ainda exigida experiência de manutenção e assistência técnica de comboios de Alta Velocidade nos últimos dez anos. Regras que favorecem fabricantes ou consórcios com plataformas mais maduras.
O maior desafio para os interessados pode ser mesmo a exigência de total compatibilidade com a rede ferroviária em bitola ibérica (distância entre linhas de 1668 milímetros). As novas ferrovias na União Europeia têm de ser em bitola standard (1435 milímetros), mas Portugal avançou com um pedido de derrogação até 2040, de forma a garantir a compatibilidade das novas linhas de Alta Velocidade com as linhas convencionais existentes no país. A CP pede, no entanto, informação aos concorrentes sobre “aptidão para a mudança de bitola de 1668 para 1435mm mediante troca de rodado em Oficina”, prevendo a necessidade de uma futura alteração.

Esta particularidade não deverá impedir, no entanto, a participação de alguns dos principais players do setor. À cabeça surge a Alstom, que venceu o concurso para o fornecimento de 153 automotoras para os serviços regional e urbano da CP, por 1.064 milhões de euros. O construtor francês dispõe de várias plataformas. O Avelia Horizon, de dois pisos, permite transportar até cerca de 740 passageiros, tendo margem para cumprir os 500 lugares sentados e adotar uma disposição de 2+2 lugares em classe turística, que é valorizada nos critérios de avaliação do concurso. Resta saber se encaixa no preço base da CP.
Outra opção é o Avelia Stream, que tem apenas um piso e também pode chegar aos 320 km/h, mas que tem sido produzido em configurações que não chegam aos 500 lugares. Nos dois casos, coloca-se o desafio de adaptar a plataforma à bitola ibérica. A histórica relação com a CP – estima-se que dois em cada três comboios a circular em Portugal tenham tecnologia da marca – ajudará a posicionar o construtor francês como um dos favoritos.

A Siemens tem também fortes argumentos. A plataforma Velaro Novo permite velocidades até 360 km/h, uma configuração flexível do interior e consumos de energia 30% mais baixos do que a geração anterior, mas não tem ainda comboios a operar comercialmente, o que poderá ser um entrave face às exigências do caderno encargos. A Velaro MS é a solução mais madura, já usada pela Deutsche Bahn, tendo sido escolhida este ano pela Italo para uma encomenda de 26 unidades. Quer num caso quer noutro, exigiria uma adaptação para chegar aos 500 lugares e, claro, circular em bitola ibérica.
É provável que surja também uma proposta do país vizinho. O Avril da espanhola Talgo permite velocidades até 330 km/h, acomoda a capacidade pretendida num só piso e promete a melhor eficiência energética do setor. Tem a grande vantagem de oferecer versões em bitola fixa e bitola variável (europeia e ibérica), mais adaptada às exigências da CP. Está desde 2024 em serviço comercial com a Renfe, que em julho contratou a conversão de 15 unidades em bitola variável por 132 milhões. O CincoDías noticiou em junho que a Talgo iria analisar o concurso da CP.

O maior risco pode ser a capacidade de execução. As 30 composições do Avril encomendadas pela Renfe tinham entrega prevista para janeiro de 2021, mas só foram entregues em abril de 2024, obrigando a adiar a oferta do serviço de Alta Velocidade na Galiza e as Astúrias. A Talgo ficou obrigada a pagar uma penalização de 116,6 milhões de euros, um mecanismo que também está previsto no concurso da CP.
Além do atraso, foram relatados pela Renfe vários problemas de fiabilidade: falhas no sistema de tração, problemas no sistema de controlo e de comunicações, avarias nas portas, ruído excessivo e desgaste prematuro do material. Uma falha informática obrigou mesmo a Renfe a parar a circulação de todos os comboios no dia 1 de janeiro de 2025, depois do sistema não ter interpretado corretamente a mudança de ano, por 2024 ter sido bissexto. No final de julho, a deteção de uma fissura nas estruturas das rodas (bogies) obrigou a retirar cinco Avril do serviço Madrid–Barcelona.

Um quarto concorrente poderá ser a Hitachi Rail, que tem já escritórios em Portugal e um Centro de Excelência de Mobilidade. A empresa japonesa, que participou no desenvolvimento dos primeiros comboios de Alta Velocidade na década de 60, entrou na Europa em 2015 com a aquisição da italiana AnsaldoBreda e, em parceria com a Bombardier (hoje Alstom), desenvolveu o ETR 1000, cuja velocidade comercial pode chegar aos 360 km/h e já circula em Itália e Espanha. Em outubro de 2024, o então CEO da Hitachi Rail GTS Portugal, avançou ao Público a vontade em fornecer o material circulante para a CP.
Todos os candidatos que cumpram os requisitos financeiros e técnicos do concurso da CP serão qualificados e convidados a apresentar proposta, tendo 90 dias para a apresentar.
No momento da avaliação, o preço será o critério com maior peso, mas representa apenas 25%. A manutenção do material circulante é o segundo principal fator (16%), seguido do consumo energético (14%) e das características e prestações técnicas (9%), onde se inclui a velocidade. A lotação vale 6%, sendo que a CP recompensa os concorrentes que apresentem composições com capacidade acima dos 500 lugares, com a pontuação máxima neste critério a ser atribuída a partir dos 599 lugares.
Ao contrário do que aconteceu no concurso para a aquisição das 153 automotoras, neste não existem obrigações de incorporação nacional, podendo ser construídos integralmente fora de Portugal.
Os primeiros comboios deverão entrar progressivamente em circulação entre 2031 e 2032, depois dos necessários ensaios e homologação, na linha de Alta Velocidade Porto-Lisboa, que ligará as suas cidades em 1h15.
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