Primeiro Conselho Europeu de Costa adia debate sobre despesa com defesa

Vai ser o primeiro Conselho Europeu presidido por António Costa. Ucrânia, Médio Oriente, alargamento e migração estão no topo da e reforço dos gastos com defesa não será tema, para já.

Já em plenas funções, António Costa vai presidir esta quinta-feira pela primeira vez a uma reunião do Conselho Europeu, um dia depois de ter presidido a cimeira da União Europeia (UE) com os países Balcãs. Os líderes europeus sentar-se-ão à mesa do órgão presidido pelo ex-primeiro-ministro português, em Bruxelas, para discutir um leque de temas, mas nenhum estará focado na necessidade de os membros europeus da NATO reforçarem as despesas com a defesa, tal como tem sido discutido nos últimos meses.

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“O tema não consta, de facto, da ordem de trabalhos”, informa fonte oficial do Conselho Europeu ao ECO, acrescentando que não se exclui a hipótese de “alguns dirigentes [levantarem] a questão no contexto de outros temas, como a Ucrânia ou a UE no mundo”. Para discutir o tema, António Costa convocou os líderes europeus para um encontro informal em 2025.

O Presidente do Conselho Europeu convocou uma reunião informal especial dos líderes da UE para 3 de fevereiro, inteiramente dedicada à defesa“, confirma fonte oficial do órgão presidido por António Costa.

Embora o reforço da despesa em defesa não seja um tema oficial da agenda do Conselho Europeu, esta quarta-feira, após a cimeira com os Balcãs, António Costa teve oportunidade de discutir o tema e ainda o apoio à Ucrânia juntamente com os líderes do Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Polónia e o próprio Volodymyr Zelenskiy.

“Não foi uma reunião com decisões concretas, mas mais política para discutir as próximas semanas e meses”, disse à Reuters uma fonte familiarizada com a reunião.

A necessidade de os membros europeus da NATO reforçarem a despesa com a defesa tem sido um tema quente desde de que Mark Rutte assumiu a liderança da Aliança Atlântica, em outubro, e Donald Trump venceu as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em novembro.

Está na hora de mudarmos para uma mentalidade de guerra e aumentar a nossa produção e despesa com a defesa”, defendeu Rutte, salientando a necessidade de os gastos na Europa com a defesa serem superiores à Guerra Fria.

Em causa está a necessidade de os membros da NATO cumprirem com a meta de despesa anual em defesa equivalente a 2% do PIB — Portugal aloca, neste momento, apenas 1,34% do PIB — mas perante a ameaça de os EUA saírem da NATO e com isso fragilizar a capacidade de resposta militar desta aliança, os dirigentes da aliança têm defendido que os novos planos de defesa dos membros NATO preveem que a despesa atinja os 3% do PIB.

A percentagem global necessária para tornar os novos planos executáveis está muito mais próxima dos 3% do PIB do que dos 2%“, afirmou o presidente do comité militar da NATO, Rob Bauer num discurso proferido num encontro promovido pelo think tank europeu European Policy Centre, onde discutiu o futuro da NATO, especialmente depois da tomada de posse do novo presidente norte-americano Donald Trump e com uma possível escalada da guerra na Ucrânia.

Espero que, com a nova administração Trump, haja uma discussão muito mais intensa sobre quanto mais a Europa e o Canadá precisam de gastar, e essa é uma discussão saudável e válida​​ que deve ser tida“, acrescentou Bauer, almirante da Marinha neerlandesa.

Vários países europeus têm-se mostrado disponíveis para avançar nesse sentido, sobretudo aqueles que não só cumprem a meta dos 2% mas superam-na, como é o caso da Polónia (4,12%) — e que se comprometeu em gastar 5% do PIB em defesa, em 2025 — Estónia (3,42%), Letónia (3,15%) e Grécia (3,08%).

Despesas de defesa dos países da NATO (2014-2024)NATO

A discussão surge dias depois de a Agência Europeia para a Defesa ter calculado que os gastos com a defesa do bloco, em 2024, atingiram 326 milhões de euros — o equivalente a um recorde de 1,9% do PIB da UE, fazendo deste o décimo ano consecutivo em que o investimento militar na Europa aumentou. O valor “sem precedentes” fica, ainda assim, a um ponto percentual abaixo da meta definida pela NATO. E ainda longe do contributo norte-americano (3,38%).

Certo é que entre os 27 Estados-membros, o tema tem marcado a agenda. O diretor-geral da UE para a indústria da defesa, Timo Pesonen, já sinalizou que alguns países têm estado a pressionar o bloco a reforçar a despesa em conjunto, e por cá, Luís Montenegro já admitiu aprofundar as discussões.

“Devo recordar que a próxima presidência [do Conselho da União Europeia] será assegurada pela Polónia (…). Para conjugar isso com a previsível política da nova administração americana (…) é previsível que nós tenhamos, a breve prazo, de tornar a discutir, em Portugal e também aqui na Assembleia da República, os nossos objetivos [na defesa]“, disse o primeiro-ministro, no último debate quinzenal na Assembleia da República que serviu, também, para preparar o Conselho Europeu, desta quinta-feira.

No mesmo momento, Montenegro prometeu que o Governo “não vai cortar nos serviços essenciais” para dar essa resposta se eventualmente for necessário.

Conselho Europeu com António Guterres - 23MAR23

Migração marca Conselho Europeu

Além da defesa, também as políticas migratórias são um tema quente entre os 27 Estados-membros, sobretudo numa altura em que os países já entregaram à Comissão Europeia os seus planos nacionais para executar o Pacto para as Migrações, adotado em maio.

A importância do tema ganha outra dimensão na sequência da intenção de o executivo comunitário estudar os custos financeiros da abertura de campos de deportação fora da UE, à semelhança do que faz a Itália com a Albânia. Porta-voz oficial do Conselho Europeu não confirmou ao ECO se a alegada proposta será debatida entre os líderes europeus, sublinhando apenas que “não se prevê um debate pormenorizado sobre medidas específicas”.

Ao invés disso, o encontro entre os 27 contará com um momento de “debate bastante curto” e “centrado numa apresentação da Comissão sobre a forma como as decisões tomadas no Conselho Europeu de outubro estão a ser implementadas”, explica a mesma fonte.

A reunião do Conselho Europeu vai debruçar-se sobre o apoio da UE à Ucrânia, contando com Volodymir Zelensk como convidado especial, a escalada do conflito no Médio Oriente, o papel da UE na cena internacional, sobretudo na relação futura com os Estados Unidos e ainda a situação na Geórgia.

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