Depois do sucesso no Porto, a Natixis abriu escritório em Lisboa. O CEO adianta ao ECO que o objetivo é chegar aos mil trabalhadores até ao fim de 2028, com foco especial nos jovens.
Encontramos Etienne Huret ao sol. De polo rosa, jeans escuros, sandálias de couro e boné creme, recebe-nos com um sorriso e vontade de mostrar o novo centro de competências que a Natixis acaba de instalar em Portugal, desta vez em Lisboa. Guia-nos com entusiasmo pelo amplo espaço, que, explica, foi pensado para promover a criatividade e o diálogo entre os trabalhadores. Por enquanto, são cerca de 200. Mas, até ao final de 2028, o CEO da Natixis em Portugal está a contar atingir a fasquia dos mil trabalhadores.
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E se outras empresas estariam preocupadas com as dificuldades de recrutamento inerentes a um salto dessa dimensão, para Etienne Huret esse não parece ser o caso. Entre “milhares de candidaturas espontâneas” e as iniciativas promovidas diretamente nas universidades, a Natixis em Portugal tem conseguido dar resposta às suas necessidades de talento, garantindo o seu CEO que o salário importa, mas não chega. “O mais importante é a alma da empresa“, diz, referindo-se, nomeadamente, à importância de criar organizações onde as pessoas possam ser elas próprias e construir carreiras entusiasmantes.
Em entrevista ao ECO, o responsável fala ainda da relação com o Novobanco, recém-adquirido pelo grupo do qual faz parte da Natixis em Portugal. Antecipa, por exemplo, oportunidades de carreira interessantes para os milhares de talentos ao serviço dessas empresas. Começar na Natixis e, a certo altura, mudar para o Novobanco ou vice-versa? Será possível, acredita o CEO, que declara que o seu grande papel é criar as condições certas para que as pessoas a seu cargo possam prosperar.
Criamos o nosso centro de competências no Porto em 2017. No início, era um centro que devia chegar a 600 pessoas. Hoje, somos 3.300.
O CEO do BPCE, Nicolas Namias, disse recentemente que Portugal é hoje estratégico para o grupo. Por que é que a Natixis escolheu Lisboa para instalar o seu novo centro de competências?
Porque temos uma experiência muito boa no nosso centro no Porto. Criamos o nosso centro de expertise no Porto em 2017. No início, era um centro que devia chegar a 600 pessoas. Era esse o objetivo que tínhamos. Em 2020, já estávamos com mais de 700 pessoas. Constatámos que as pessoas eram talentosas, comprometidas, motivadas, de uma capacidade intelectual alta, de muito boa formação e que falavam muitas línguas diferentes. Então, em 2020, decidimos acelerar. Hoje, no Porto, somos 3.300. Inicialmente, estávamos no IT. Agora fazemos IT, middle office, back office, banking risk, compliance, finance, e cada vez mais estamos perto do front office do banco. Em 2024, percebemos que íamos chegar aos 3.000 empregados, talvez aos 3.500 no Porto, e, assim, íamos chegar a um ponto onde talvez este crescimento seria um bocadinho demais para o tamanho da cidade e das universidades. Então, lançámos um estudo para ver onde é que podíamos abrir um segundo centro para acompanhar o crescimento do grupo e ter acesso ao talento.
A ideia era, desde logo, abrir um segundo centro em Portugal?
Estudámos muitas cidades na Europa. Na Europa do Leste, na Europa do Sul. Estudámos oportunidades também em Marrocos. Olhámos novamente para o Porto e concluímos: por que é que deveríamos ter a complexidade de abrir numa nova cidade, como Valência, Atenas ou Casablanca, quando já tínhamos uma estrutura em Portugal, sendo que não tínhamos esgotado o talento português? Achávamos que era uma muito boa oportunidade para criar o nosso centro em Lisboa para ter acesso a estes talentos com facilidade de implementação, porque já estávamos em Portugal, já tínhamos uma organização de recursos humanos e uma organização de empresa.
Portanto, no Porto, o talento serve de alavanca a um crescimento que superou muito a expectativa inicial. E agora serve de “isco” para o centro de Lisboa.
O talento e a nossa demonstração de que nos últimos dez anos, no Porto, fomos mesmo capazes de adicionar valor ao grupo.

Quais os objetivos para este novo centro? De que modo se distingue do centro do Porto?
Vamos continuar a missão do Porto. Estamos a acompanhar, primeiro, o corporate investment banking (CIB) do grupo. As nossas origens vêm do CIB e hoje 50% do nosso trabalho é para essa área. Em Lisboa, vamos ter como que uma extensão do centro do Porto. Vamos continuar a crescer de vez em quando no Porto e muitas vezes em Lisboa. A missão é semelhante. Não posso dizer que a missão de Lisboa é essa, a missão do Porto é aquela. Há algumas business lines que só vão estar no Porto, outras só vão estar em Lisboa, mas há muitas business lines que vão estar no Porto e em Lisboa, consoante também o talento. No verão de 2028, vamos ser quatro mil na Natixis em Portugal.
Em Lisboa, quantas pessoas têm, neste momento?
Somos quase 200 pessoas em Lisboa.
E o objetivo é chegar a quantos trabalhadores?
A mil.
Até ao final do ano?
No final do ano, vamos ser 300.
E os mil são para quando?
Fim de 2028.
E no Porto, a ideia é continuar a crescer ou sentem que chegaram a um ponto de estabilidade?
Acho que o patamar de 3.500. Hoje, somos provavelmente 3.200 a 3.300. Vamos chegar aos 3.500. Mais do que isso, será marginal.
Um dos sucessos da Natixis em Portugal, até agora, foi a nossa capacidade de ter acesso aos jovens que saem das universidades e muito bem-educados.
Olhemos para Lisboa. Chegar a mil empregados até ao final de 2028 é o objetivo. Já estão a recrutar? Que perfis estão a procurar?
Estamos a recrutar. Há uma diversidade nos perfis que procuramos. Em termos de expertise, obviamente o IT continua a ser uma fonte de recrutamento. Estamos a falar de perfis em middle e back offices da banca, estamos a aproveitar perfis em marketing – em marketing digital, sobretudo –, data scientists, bem como perfis em market risk e credit risk, que são perfis mesmo muito específicos. E tudo isso numa vontade de atingir também os jovens.
A Natixis tem uma longa história de proximidade às universidades em Portugal.
Um dos sucessos da Natixis em Portugal, até agora, foi a nossa capacidade de ter acesso aos jovens que saem das universidades e muito bem-educados. Tenho de sublinhar isso: o facto de as universidades portuguesas serem de alto nível. Gosto da formação portuguesa, não só no expertise de cada um, mas no conteúdo global e nas línguas. Continuamos muito interessados em atrair os novos talentos. É essencial. Por isso, fazemos muitas academias dentro da Natixis, porque, quando se sai das universidades, há ainda muitas coisas a aprender. Fazemos academias para acelerar esse processo de aprendizagem de uma competência específica e também da maneira de trabalhar da nossa empresa.
Já estavam há muitos anos no Porto e tinham experiência em recrutar nessa cidade. O processo tem sido diferente em Lisboa? Encontrar talento na capital tem sido mais desafiante?
Nem por isso. Temos acesso a muito talento. Temos milhares de candidaturas espontâneas. Além disso, fazemos [programas durante] as férias nas universidades para captar os melhores.
Temos muitas pessoas que têm 15, 20 ou 25 anos de experiência, e que estão a tocar a porta também. O misto é importante. Temos de ter a mistura de experiência e juventude.
Vemos muitas empresas, nomeadamente tecnológicas, a falarem de dificuldades em recrutar. A Natixis não tem sentido essa dificuldade?
Estou a bater na madeira, mas, neste momento, temos uma marca que está muito bem desenvolvida. Há vontade dos jovens virem para a nossa empresa e também dos experts. Temos muitas pessoas que têm 15, 20 ou 25 anos de experiência, e que estão a tocar a porta também. O misto é importante. Temos de ter a mistura de experiência e juventude.
Disse que a vossa marca enquanto empregadores está bem desenvolvida. O que contribuiu para esse sucesso? À parte da componente salarial, que outros benefícios têm oferecido para tornar a Natixis particularmente atrativa?
O mais importante de tudo é o espírito, é a alma da empresa. Pode-se escolher um trabalho para ganhar muito bem, mas, se todos os dias se chegar a esse trabalho com tristeza, com um mau ambiente e pessoas tóxicas, não dá, as pessoas não vão ficar e a reputação da empresa também não fica bem estabelecida. O mais importante, para mim, é que sejam os próprios empregados a fazerem a publicidade à nossa empresa. Uma das nossas filosofias é dar o máximo de liberdade aos nossos empregados.
De que modo?
Obviamente, somos um banco, temos de respeitar todas as regulações que estão implementadas, temos de ter muito cuidado com a confidencialidade, temos de ter os processos bem estabelecidos, mas tem de ser um win-win para o empregado e para a Natixis Portugal. O win para o empregado, primeiro, é a promessa de fazer uma carreira interessante, com um propósito e capacidade de se desenvolver, com formação e projeção. Talvez daqui a cinco anos, esteja em Nova Iorque a trabalhar para a Natixs CIB. Temos vários empregados que foram fazer isso, que começaram na Natixis em Portugal, sendo portugueses saídos da universidade, com 24 anos, e que estão hoje em Nova Iorque, na Quinta Avenida. São histórias lindas. A mesma coisa em Londres, a mesma coisa em Paris, a mesma coisa na Ásia. Obviamente que a compensação salarial faz parte da equação e temos de dar uma compensação salarial que seja muito representativa da avaliação de cada empregado, mas muito mais do que isso é dar uma perspetiva de carreira interessante, de aprendizagem e de trabalhar num ambiente onde a pessoa pode exprimir-se.

Tem ideia de qual é o período médio de retenção do talento na Natixis em Portugal?
Abrimos a Natixis em Portugal há pouco mais de nove anos, e temos pessoas que estão connosco desde o início, desde dezembro de 2016. Abrimos oficialmente em março de 2017, mas os primeiros empregados chegaram em dezembro de 2016. Neste momento, temos uma taxa de turnover de 6,6%, o que, para um centro de serviços, é mesmo muito baixa. É importante que as pessoas estejam bem. E se não estão, que tenham a possibilidade de conversar com o manager, com os recursos humanos ou comigo. O meu propósito é mesmo ter certeza que os empregados têm as melhores condições para poderem prosperar.
Disse que a relação de trabalho tinha de ser um win-win.
Um win para os empregados, mas também tem de haver um compromisso do empregado para com o win para a empresa. Temos de ser exigentes connosco mesmo. Temos de ser exigentes com a nossa capacidade de deliver, com a nossa capacidade de transformar o grupo e com a nossa capacidade de fazer coisas que sejam muito bem feitas. Não há reconhecimento, se não houver expectativa. Temos muitas expectativas e somos exigentes, mas mais do que pedir, envolvemos os nossos empregados em objetivos que são robustos e trazem adrenalina. É por isso que também temos pessoas muito motivadas.
O desafio como motor do entusiasmo e motivação.
Exatamente. E também temos de ser capazes de dizer às pessoas quando as coisas não estão a resultar.
Pelo menos um terço da equipa da Natixis em Portugal está envolvida com a IA de alguma forma, seja em formação seja em experimentação.
A propósito, a Inteligência Artificial (IA) tornou-se incontornável também no setor da banca. De que modo é que a Natixis em Portugal está a preparar as equipas para essa transformação?
Estamos a dar muita formação. Desde 2023, fizemos várias sessões de iniciação para perceber o que estava a acontecer. Fomos mesmo muito avant-garde nisto, porque em 2023 não havia muitas pessoas a falar disso. Hoje, no IT, estamos a assistir a uma disrupção por causa da IA massiva. Estamos a dar formação a muitos dos nossos colaboradores, já para lhes dar a capacidade de perceber o potencial completo. Não posso pedir a todas as pessoas que usem a IA, se não lhes dei a possibilidade de perceberem realmente as capacidades. Pelo menos, um terço da equipa da Natixis em Portugal está envolvida com a IA de alguma forma, seja em formação seja em experimentação.
Parece-lhe que a adoção destas novas ferramentas tecnológicas vai levar a uma redução da necessidade de recursos humanos?
Acho que não. Porquê? Primeiro, as necessidades são cada vez maiores. Segundo, não é a primeira vez que temos novas vagas que transformam completamente o nosso negócio. Mas estamos num negócio que é de pessoas. A banca não é um negócio somente de transações. Quando se recorre à banca, é para projetos, sonhos, futuro… Tudo isso é um negócio de pessoas. Precisamos de pessoas para fazer este negócio de pessoas. Há muita sensibilidade, há muitas emoções, há muitas coisas que não são só um código. O negócio da banca é um negócio de confiança.
E a confiança no humano ainda é superior à que se deposita numa máquina, mesmo na mais inteligente das ferramentas tecnológicas.
Acho que sim e espero que seja sempre assim. Estou mesmo muito interessado em IA, vejo efetivamente potencial, mas acho que o ser humano tem que ter cuidado também, no princípio filosófico do que é a nossa consciência e a nossa subconsciência.

Ainda sobre o vosso novo centro em Lisboa, que investimento fez a Natixis neste novo escritório?
Nem muito.
Não tem um número que possa revelar?
Não há número. O investimento é a renda do centro.
Num prazo de cinco anos, que papel é que acha que Portugal terá no universo da Natixis e no universo do grupo BPCE em geral?
Já tem um papel significativo, porque é a primeira vez que o grupo BPCE está a fazer um investimento tão grande e a apostar num mercado em várias dimensões. Há o Novobanco, mas também a aposta no talento na Natixis em Portugal, e ainda outras atividades na Oney e Banco Primus. Estamos a estabelecer uma marca, com cerca de oito mil pessoas a operar aqui em Portugal.
Referiu o Novobanco. Que relação tem a Natixis Portugal com esse banco, que foi agora adquirido pelo grupo do qual fazem parte?
Cada vez mais. Primeiro, tentamos saber quem eles são e quem nós somos. Estamos também a tentar partilhar algumas práticas e a ser mais eficazes com os nossos parceiros, isto é, quando estamos a fazer uma compra da qual precisamos os dois, talvez fazê-la em conjunto possa ser mais vantajoso por causa da escala. Temos quase a mesma quantidade de talento do que o Novobanco, mas temos uma idade média diferente, e isso permite talvez propor aos nossos colaboradores carreiras interessantes. Começar na Natixis em Portugal, fazer muitas coisas diferentes e a certo ponto ir para o Novobanco ou vice-versa.
Essa mobilidade será mesmo possível?
Totalmente possível. Neste momento, são dois contratos de trabalho diferentes, mas é bastante interessante ter essa possibilidade.
Inauguraram este novo centro. Podemos contar com mais investimento da Natixis em Portugal? Há novos centros no horizonte?
Neste momento, não. Acho que estando em Lisboa e no Porto, somos capazes de atrair 80% do talento português. O Algarve não está previsto. A Madeira também não está. Os Açores não estão previstos.
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Natixis planeia atingir mil trabalhadores em Lisboa até ao fim de 2028. No Porto caminha para 3.500
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