Transferências milionárias passam fatura aos clientes de TV

Neymar no PSG por 200 milhões de euros? Dembélé no Barça por 105 milhões? Exuberância irracional ou não, os milionários negócios no futebol vão passar a fatura aos clientes de televisão.

Podemos chamar exuberância irracional ao atual momento do mercado de transferências? Depois da transferência recorde de Neymar para o PSG por 222 milhões de euros, a jovem promessa Dembélé foi vendida ao Barcelona por 105 milhões de euros e Mbappé deverá juntar-se ao brasileiro na capital francesa por valores exorbitantes. Esta quinta-feira, as principais ligas dão por encerrada mais uma janela de transferências. Foram muitos os negócios milionários entre clubes, mas quem vai pagar essa fatura são os clientes de televisão.

“É um bocadinho o fenómeno que tivemos esta semana com o combate entre Mayweather e McGregor. Todo aquele aparato está fundamentalmente sustentado nos direitos de transmissão. Estimava-se que o pay-per-view iria gerar receitas de 500 milhões de dólares. O negócio do futebol está um pouco assim”, salienta Daniel Sá, professor de marketing do IPAM (Instituto Português de Admistração de Marketing).

Em Portugal, os consumidores já começaram a assistir a um agravamento dos preços da televisão no ano passado. A culpa foi do futebol, na sequência da guerra entre as operadoras Nos e a Meo pelos direitos televisivos dos jogos de Benfica, FC Porto e Sporting. Na altura, há cerca de um ano, depois de assinado um acordo de partilha de direitos desportivos, que juntou ainda a Vodafone e a Nowo, o diretor financeiro da Altice, dona da Meo, não podia ter sido mais claro: “Vamos passar esse custo para o cliente”.

Contactadas pelo ECO, as operadoras deixaram indicações de que não iam voltar a rever os preços até final do ano. Só a Nos não respondeu. Depois de ter aumentado os preços para os clientes empresariais em 25% e para os clientes de retalho em 4,5% em 2016, fonte oficial da Sport TV também disse que “não estão previstas quaisquer alterações nos preços a médio prazo”.

"É um bocadinho o fenómeno que tivemos esta semana com o combate entre Mayweather e McGregor. Todo aquele aparato está fundamentalmente sustentado nos direitos de transmissão. Estimava-se que o pay-per-view iria gerar receitas de 500 milhões de dólares. O negócio do futebol está um pouco assim.”

Daniel Sá

Professor do IPAM

Mas não foi só a televisão privada a entrar nesta guerra pelos conteúdos de futebol. Também a RTP 1 entrou neste confronto quando em 2015 “roubou” à TVI os direitos de transmissão televisiva da Liga dos Campeões por 18 milhões de euros por época, entre 2015 e 2018. As críticas não demoraram, com acusações de distorção do mercado promovida pelo canal público, com a fatura a ir para ao bolso do contribuinte.

Inflação no futebol chega aos 60%

Os números são reveladores e mostram como o mercado de transferências está cada vez mais inflacionado. Cada jogador comprado por um clube da Premier League custou em média 5,7 milhões de euros, mais 20% do que no último verão. Nas ligas espanhola e alemã as subidas são ainda mais expressivas: em média, um jogador custou mais 43% e 56%, respetivamente, segundo o site especializado Transfermarkt.

São “taxas de inflação” que deixariam qualquer responsável do Banco Central Europeu (BCE) mais do que preocupado com a estabilidade do mercado, mas que não assustam Daniel Sá.

“Temos assistido a um aumento brutal das receitas dos clubes com direitos de transmissão televisiva um pouco por toda a Europa nos últimos anos. Há naturalmente mais dinheiro para os clubes investirem. É um ponto indiscutível”, responde docente do IPAM.

Em Portugal o valor médio pago por um jogador baixou face a 2016, mas a janela de transferências vai continuar aberta até dia 22 de setembro. E até lá tudo pode mudar.

Jogadores estão cada vez mais caros

Fonte: Transfermarkt

Contratos televisivos disparam na Europa… e em Portugal

Para o professor do IPAM, “o futebol é cada vez mais um conteúdo para televisão que concorre diretamente com o cinema e com a música”. E, nesse sentido, Daniel Sá compara Neymar, que se mudou este mês do Barcelona para o PSG pelo dobro do preço do até então jogador mais caro do mundo — Pogba, que em 2016 custou ao Manchester United 105 milhões de euros — “a uma estrela mundial ao nível dos atores de Hollywood ou das estrelas da música”.

“Além da performance que vai entregar dentro do campo, ele vai se pagar a si próprio através das receitas comerciais que vai gerar em seu torno”, explicou o professor.

Depois deste negócio milionário, o Barcelona não hesitou em avançar para a compra de Ousmane Dembélé por 105 milhões de euros e pode adquirir Phillipe Coutinho ao Liverpool por mais de 125 milhões. O francês Kylian Mbappé está a caminho do PSG num negócio que poderá ascender a 150 milhões de euros, de acordo com a imprensa francesa.

Onde é que os clubes vão buscar essa receita? “O dinheiro não está nos estádios, na venda de bilhetes. Está apenas uma parte porque os estádios têm capacidade limitada a um número de lugares. A grande fatia das receitas está fora dos estádios”, contextualiza Daniel Sá.

Basta observar o aumento “brutal” do valor dos contratos de transmissão televisiva dos jogos em campeonatos como a Premier League ou da Bundesliga alemã para perceber de que forma estes negócios estão sustentados. Na televisão.

Televisão rende cada vez mais dinheiro à Premier League

Fonte: BBC

Em 2015, as cadeias de televisão Sky e a BT acordaram pagar à liga inglesa mais de 5.000 milhões de libras pelos direitos de transmissão dos jogos até 2019. Tratou-se de uma valorização de 70% face ao anterior acordo televisivo. Na Alemanha, onde os direitos são centralizados pela federação de futebol do país, o atual contrato vai render aos clubes 5.600 milhões de euros em quatro temporadas, até 2020-2021.

Na Liga portuguesa, o braço de ferro entre as operadoras aconteceu em dezembro de 2015. Primeiro foi a Nos a adquirir os direitos de transmissão televisiva dos jogos do Benfica na Luz por 400 milhões de euros, num negócio válido por três anos com opção de mais sete anos. Dias depois, a Meo “retaliou” ao comprar os direitos de televisão dos jogos do FC Porto por dez anos, num negócio avaliado em 4457,5 milhões de euros. Mais tarde, a Nos anunciou a compra dos direitos do Sporting por 446 milhões também por dez anos e ainda a aquisição dos jogos do Sporting de Braga por 100 milhões.

São valores que não são diretamente comparáveis porque os contratos incluem direitos de patrocínio nuns casos e diferem ainda na duração do acordo. Ainda assim, colocou o mercado a mexer. Exuberância irracional? Não sabemos, mas a fatura sobra para o cliente.

"O dinheiro não está nos estádios, na venda de bilhetes. Está apenas uma parte porque os estádios têm capacidade limitada a um número de lugares. A grande fatia das receitas está fora dos estádios.”

Daniel Sá

Professor do IPAM

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