2017, o fim dos juros da dívida abaixo de zero?

Analistas apontam para agravamento das taxas de juro das obrigações ao longo de 2017, com a Administração Trump a virar os mercados do avesso. Há cada vez menos dívida com juros negativos.

“O ano de 2016 vai ficar para os livros de História. Vamos voltar a ver tantas obrigações dos governos com juros negativos?” A pergunta da Schroders, no seu outlook para o mercado obrigacionista em 2017, não é ingénua e até tem uma resposta implícita: em princípio não. Mas se as principais dívidas mundiais apontam para um agravamento dos juros ao longo do próximo ano, numa tendência liderada pelas treasuries americanas, para Portugal a expectativa é de algum alívio depois do pior registo mundial em 2016.

O fim dos estímulos monetários da Reserva Federal norte-americana, à medida que a Administração Trump promete alavancar a maior economia do mundo com um plano de expansão orçamental de grande escala, deu o pontapé de saída ao que os investidores chamaram de “A Grande Rotação”: a migração em massa dos mercados obrigacionistas rumo aos mercados acionistas. “As expectativas para uma ‘grande rotação’ com a saída das obrigações rumo às ações (…) apresentam hoje um cenário macroeconómico mais positivo, que poderá servir como catalisador para os investidores abraçarem ativos mais arriscados”, assume a BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo.

Mas não é só isso. À medida que os investidores vão incorporando expectativas de inflação mais elevadas também vão exigindo maiores retornos que pretendem retirar dos seus investimentos para evitar que a subida dos preços corroa as taxas. Por causa disso, os juros dos obrigações dos governos em todo o mundo dispararam nas últimas semanas do ano, situação que levou a que o stock de dívida mundial com juros negativos baixasse em um bilião de euros no espaço de um mês para um total de 8,7 biliões.

Esta nova circunstância leva a BlackRock a preferir “títulos de dívida indexados à inflação às obrigações nominais à medida que a tendência reflacionária começa a ganhar força”. A Allianz Investment Management vê a taxa das obrigações americanas a 10 anos a subirem para valores entre os 2,5% e os 3% no final de 2017, a nível global. E a Schroders recomenda uma estratégia de maior seletividade em relação às treasuries e a apontar a mira às obrigações das empresas americanas.

“No que diz respeito às obrigações empresariais, eventuais mudanças fiscais sugerem que as companhias americanas podem, de facto, afastar-se do custo de financiamento dos EUA, o que é obviamente um sinal positivo para quem detém obrigações empresariais com grau de investimento e com elevadas yields (sem grau de investimento)”, explica a Schroders.

"No que diz respeito às obrigações empresariais, eventuais mudanças fiscais sugerem que as companhias americanas podem, de facto, afastar-se do financiamento da dívida, o que é obviamente um sinal positivo para quem detém obrigações empresariais com grau de investimento e com elevadas yields (sem grau de investimento).”

Schroders

Outlook 2017: Global bonds

Na última reunião da Fed, Janet Yellen prometeu mais subidas das taxas diretoras ao longo de 2017 e 2018, rompendo definitivamente com a era de juros baixos que Bernanke usou como ferramenta para combater os efeitos da crise do subprime em 2007. O consenso dos analistas aponta para mais três subidas no próximo ano e outras três no seguinte.

Enquanto isso, na Zona Euro, o Banco Central Europeu (BCE) começa a dar sinais de que vai retirar o tapete que tem permitido os vários governos a financiar-se nos mercados a custos mais baixos, incluindo Portugal.

Ainda assim, a intervenção de Draghi não evitou que a dívida portuguesa registasse (novamente) o pior desempenho do ano a nível mundial, perante os receios de que o mercado obrigacionista português seja curto perante a tamanha disponibilidade da bazuca do BCE. De acordo com a Bloomberg, títulos nacionais com maturidade superior a um ano apresentaram uma rentabilidade negativa de 2,7% para os investidores ao longo do ano.

Os melhores e os piores em 2016

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Fonte: Bloomberg (valores em %)

“Com o mercado de obrigações da Zona Euro ‘detido’ efetivamente pelo BCE, o ano de 2017 será decisivo para avaliar como o banco central gere os limites logísticos do seu ambicioso plano de estímulos monetários e, eventualmente, baixar o ritmo de compras no final do ano ou ao longo de 2018”, salienta o Credit Suisse.

Os primeiros sinais de que os juros vão começar a descolar de mínimos históricos nos próximos tempos vêm do mercado interbancário — de muito curto prazo e que corresponde às taxas que os bancos cobram para emprestar dinheiro entre si, servindo de indexante para a concessão de crédito –, devendo permitir que as Euribor regressem a valores positivos em 2019.

Taxas deverão subir ao longo do próximo ano

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Fonte: Bloomberg (valores em %)

Mas cada caso é um caso. E enquanto os juros da dívida devem subir paulatinamente nos países core da Zona Euro (e também no Japão), Tiago da Costa Cardoso antevê um alívio das yields nacionais. “Estando a Europa mais perto de entrar num caminho de crescimento, o sentimento de apetite pelo risco poderá voltar, acalmando mercados e trazendo um consistente alívio no mercado de dívida, principalmente no periférico“, diz o gestor de ativos da XTB Portugal.

Para a Schroders, a divergência nas políticas monetárias nos dois principais blocos económicos mundiais (EUA e Zona Euro) prova que o “mundo já não está tão sincronizado em termos económicos como estava nos dias que antecederam a crise financeira global”. “É provável assistirmos a uma maior divergência económica entre as principais economias desenvolvidas e nas economias em desenvolvimento“, refere a gestora.

"O mundo já não está tão sincronizado em termos económicos como estava nos dias que antecederam a crise financeira global. É provável assistirmos a uma maior divergência económica entre as principais economias desenvolvidas e nas economias em desenvolvimento.”

Schroders

Outlook 2017: Global bonds

E enquanto a Schroders diz que será improvável o regresso a rendimentos que as obrigações apresentaram antes da grande crise financeira, o Credit Suisse vira agulhas para os emergentes. O banco suíço coloca dívida da Argentina, Brasil e Indonésia entre as suas preferidas. Mas alerta os corações dos investidores para o risco cambial.

Em todo o caso, se vai investir em obrigações em moeda local, vá para o mercado brasileiro. “Acreditamos que a moeda está bem suportada” e pode ser uma boa estratégia de carry trading — estratégia de investimento que consiste em pedir dinheiro emprestado num país com baixas taxas de juro para investir em ativos de outro país onde as taxas são mais elevadas.

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