Big Tech já investiram mais de um bilião em IA. Agora, investidores querem resultados

Investidores querem ver resultados dos milhares de milhões investidos pelas gigantes de Wall Street. Alphabet, Apple, Amazon, Meta (Facebook) e Microsoft ainda não converteram capex em receitas.

Desde que começou a corrida à inteligência artificial (IA), há cerca de três anos e meio, quando a OpenAI anunciou a criação do ChatGPT, a Alphabet (Google), Amazon, Microsoft e Meta já investiram mais de um bilião de dólares para desenvolver novas ferramentas, o equivalente em perto de três vezes o valor do Produto Interno Bruto (PIB) português. Um valor que pretendem continuar a aumentar, com as gigantes tecnológicas de Wall Street a apresentarem planos de investimento de vários milhares de milhões em IA, apesar deste capex milionário ainda pouco estar a ser revertido em receitas e pesar nos balanços.

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A chegada do ChatGPT, a 30 de novembro de 2022, abriu o caminho para uma revolução que colocou a IA no centro das atenções. Ao contrário das buscas tradicionais, o modelo criado pela OpenAI trouxe um rasgo de inovação em relação a tudo o que existia. Este assistente virtual de inteligência artificial, que hoje faz parte do dia-a-dia da maioria das pessoas, é capaz de “conversar”, responder a perguntas e criar textos de forma natural, recolhendo a informação disponível em milhares de milhões de textos da internet em poucos segundos.

A Microsoft foi a primeira das big tech a garantir exposição à IA, uma vez que tinha um acordo de exclusividade com a OpenAI, um contrato que rasgou este ano, apesar de se manter como maior acionista até 2032. A tecnológica liderada por Satya Nadella está, entretanto, a apostar nos seus próprios modelos de IA, seguindo o exemplo de rivais como a Alphabet, Amazon ou a Meta. A dona do Facebook desenvolveu o Meta AI, a Google tem o Gemini, a Amazon lançou o Rufus e a Apple relançou a Siri.

Contas feitas, o investimento em IA supera os 1,1 biliões de dólares desde 2023 até ao final deste ano, segundo os seus relatórios de resultados. Números que têm alimentado ganhos milionários nos mercados, com estas empresas a atingirem níveis de valorização bolsista cada vez maiores, mas que começam a gerar alguns receios entre os investidores, num momento em que as contas destas big tech demoram a mostrar os resultados destes investimentos.

O investimento das gigantes tecnológicas em IA supera os 1,1 biliões de dólares desde 2023 até ao final deste ano, segundo os relatórios de resultados divulgados na ‘earning season’ norte-americana.

“Basicamente, não há qualquer sinal de abrandamento do crescimento das despesas de capital (capex)”, afirmou Rishi Jaluria, analista da RBC Capital, ao Financial Times. “Os investidores precisam que estas empresas consigam manter um equilíbrio delicado entre investir em inteligência artificial e não comprometer os fatores que as tornaram bem-sucedidas”, alerta.

Além do bilião que já gastaram, os investimentos em IA das grandes tecnológicas deverão atingir 765 mil milhões de dólares este ano, antes de aumentarem para quase 1,2 biliões de dólares em 2027, segundo as estimativas do Goldman Sachs. O sucesso desta aposta continua, em parte, dependente da capacidade de startups como a OpenAI e a Anthropic continuarem a angariar financiamento para cumprir compromissos plurianuais de grande dimensão na compra de capacidade computacional, numa altura em que ambas preparam a sua entrada em bolsa.

A corrida ao investimento pressionou as cadeias de abastecimento e fez aumentar os custos, provocando uma escassez de chips de memória, com impacto no negócio da Apple. Apesar de a dona do iPhone se manter à margem da corrida à IA, a companhia, cujos resultados superaram as estimativas dos analistas, apresentou perspetivas fracas para o terceiro trimestre, citando “restrições no abastecimento”. A Apple prevê que as receitas cresçam entre 9% e 11% no trimestre atual, abaixo da expectativa dos analistas, que apontavam para um crescimento de 12%, segundo dados da LSEG.

A empresa está a enfrentar uma escassez significativa de chips de memória, um componente essencial dos seus dispositivos, bem como uma forte concorrência pela capacidade de produção destes circuitos integrados. Apesar desta reação negativa aos resultados, a Apple sobe 23% este ano e voltou a assumir o estatuto de empresa mais valiosa do mundo, tornando-se a segunda cotada com um valor de mercado acima de cinco biliões de dólares. A fabricante do iPhone é vista, em parte, como uma alternativa às tecnológicas que têm investido fortemente em IA, uma vez que não investiu níveis tão significativos de capital como as outras gigantes.

Mais receitas, muito mais investimento

Já a Amazon anunciou que as receitas da sua unidade de computação em nuvem cresceram 37% em termos homólogos no segundo trimestre, registando a expansão mais forte desde 2021. A atividade da Amazon Web Services (AWS) é especialmente escrutinada pelos investidores, uma vez que é nesta divisão que a empresa regista a maior parte das receitas relacionadas com a IA. E os números reportados pela empresa parecem ter agradado aos investidores, uma vez que as ações dispararam, apesar de a Amazon ter revisto em alta a previsão de investimento deste ano, de 200 mil milhões para 220 mil milhões de dólares, à medida que continua a investir em infraestruturas para IA.

A Microsoft fechou o trimestre com um resultado líquido de 35,8 mil milhões de dólares, com o investimento na Anthropic a dar um contributo para os resultados de 3,2 mil milhões de dólares. “Os resultados da Microsoft publicados esta semana mostram que as despesas gigantescas em centros de dados podem andar de mãos dadas com um desempenho que superou amplamente as expectativas dos analistas em todas as métricas financeiras relevantes”, comenta a XTB.

Já a Meta revelou lucros abaixo do esperado, com a empresa a estimar que as vendas do terceiro trimestre se situem na ordem dos 61/64 mil milhões de dólares. “O valor médio desta previsão (62,5 mil milhões de dólares) fica claramente aquém do consenso do mercado, fixado em 63,17 mil milhões de dólares”, explica a XTB, numa análise às contas das tecnológicas.

Já no que diz respeito ao capex, “a empresa não tenciona poupar na infraestrutura de IA“. “As despesas de capital para o ano inteiro foram revistas para 130/145 mil milhões de dólares (anteriormente, o limite inferior era de 125 mil milhões de dólares), excedendo as previsões médias dos analistas (135,8 mil milhões de dólares)”, detalha.

A Google (Alphabet), à semelhança das restantes grandes tecnológicas, anunciou um forte aumento dos compromissos financeiros futuros relacionados com os investimentos em inteligência artificial, que cresceram cerca de 500 mil milhões de dólares face aos três meses anteriores. A maior parte destes novos contratos corresponde a compromissos de longo prazo para aquisição de infraestruturas tecnológicas e de energia para alimentar os centros de dados.

Por sua vez, a Microsoft assinou mais de 130 mil milhões de dólares em novos contratos de arrendamento de centros de dados no segundo trimestre, numa expansão muito significativa dos seus compromissos de investimento.

Cash flows negativos fazem soar alerta

Apesar destes investimentos impressionantes em IA, as tecnológicas continuam a prometer muito, ao mesmo tempo que consomem rapidamente as suas reservas de liquidez.

A Amazon reportou, na semana passada, um cash flow negativo de 7,6 mil milhões de dólares nos últimos 12 meses, um dia depois de a Meta ter divulgado uma quebra de 91% na geração de caixa face ao período homólogo. Já Alphabet tinha revelado um cash flow negativo pela primeira vez desde que há registo, um desenvolvimento surpreendente para uma das empresas mais rentáveis do mundo.

A diretora financeira da Alphabet, Anat Ashkenazi, disse aos analistas, durante a apresentação de resultados, que o cash flow continuará sob pressão à medida que a empresa aproveita a “oportunidade da IA”.

Com a época de apresentação de resultados das tecnológicas praticamente concluída — a Nvidia apresenta resultados a 26 de agosto — os números mostram que os investimentos em IA estão a pressionar os balanços das empresas. E os investidores começam a mostrar algum nervosismo em relação aos resultados que custam a chegar, distinguindo as empresas e maior seletividade entre as empresas.

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