Galp segue Total na subida de dividendo, mas espera pela Moeve para mexer na recompra de ações
Guerra leva Galp a igualar dividendo recorde, mas mexidas nas recompras de ações - opção usada por várias petrolíferas - só vai ser possibilidade depois de fechado acordo com espanhola Moeve.
- A guerra no Médio Oriente está a impulsionar os lucros das petrolíferas, mas ainda não resultou em aumentos significativos de dividendos ou mudanças nas políticas de remuneração.
- A Galp anunciou um aumento de 10% no dividendo, seguindo a tendência de outras grandes empresas como a TotalEnergies, que também reportou lucros elevados.
- A empresa portuguesa está a aguardar maior visibilidade sobre o seu portfólio antes de discutir mudanças na política de recompra de ações e dividendos.
A ‘bonança’ que a guerra no Médio Oriente está a trazer às petrolíferas, por via de preços mais altos do crude que provocam disparos nos lucros, ainda não se traduziu numa onda generalizada de aumentos de dividendos ou mudanças nas políticas de remuneração aos acionistas. O contexto geopolítico continua volátil e portanto as big oil mantêm as opções em aberto – algumas sobem o dividendo de forma pontual, outras aumentam os programas de recompra de ações, enquanto várias simplesmente aguardam para ver.
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A época de resultados do primeiro trimestre nas petrolíferas europeias ainda vai a meio, mas já é visível esta dispersão de estratégias. Na segunda-feira, a Galp anunciou um aumento de 10% no dividendo a pagar em relação ao exercício deste ano, para 70 cêntimos por ação. A petrolífera portuguesa segue assim nas pisadas da francesa TotalEnergies – com a qual aliás está prestes a firmar um acordo para explorar petróleo na Namíbia – que com um disparo de 67% no lucro do segundo trimestre para o melhor resultado em quase três anos anunciou um aumento de 5,6% no dividendo interino.
A empresa francesa não tocou no programa de recompra de ações, que manteve em 1,5 mil milhões de dólares (cerca de 1,32 mil milhões de euros). A Repsol e a Equinor fizeram o caminho oposto, deixaram inalterados os dividendos, mas aumentaram os programas para recomprar os títulos detidos pelos investidores.
No caso da empresa espanhola, esta anunciou que vai aumentar a sua segunda operação de recompra de ações de 2026 para 500 milhões de euros, para além do programa de 350 milhões de euros já concluído. A Repsol prevê anunciar uma terceira operação de recompra em outubro, no âmbito do seu plano de distribuir 30% a 40% do fluxo de caixa operacional aos acionistas.
A norueguesa Equinor nem esperou pelo anúncio, a 22 de julho, do disparo de 75% nos lucros do resultados do segundo trimestre, tendo anunciado um mês antes o duplicar da recompra de ações próprias para 3 mil milhões de dólares este ano, face aos 1,5 mil milhões de dólares previstos em fevereiro, antes do ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irão. Anders Opedal, CEO da empresa, explicou que “a procura continua a crescer e a Equinor encontra-se numa posição única para fornecer energia fiável”.
Portefólio em evolução adia discussão sobre política
O anúncio do disparo de 44% no lucro líquido da Galp para 812 milhões de euros no primeiro semestre foi, naturalmente, acompanhado por uma explicação sobre o desempenho positivo, mas a co-CEO Maria João Carioca aproveitou também para sublinhar o papel do outlook positivo para explicar o aumento do dividendo.
“O que pretendíamos era garantir que conseguíssemos destacar os méritos do que vemos atualmente no nosso portfólio“, referiu, na teleconferência com os analistas. “Portanto, temos um crescimento contínuo pela frente: o [projeto de produção de petróleo no Brasil] Bacalhau está a crescer a bom ritmo, o setor a montante continua a apresentar um desempenho bastante positivo, o que se reflete na componente dos dividendos, e foi por isso que optámos por um aumento de 10%; e permitam-me lembrar-vos que, normalmente, esse aumento seria de 4%”.

O aumento leva a Galp a igualar o dividendo recorde de 70 cêntimos distribuído em relação ao exercício de 2019. “Na verdade, isto eleva o limite mínimo dos nossos dividendos e, com isso, estamos a sinalizar confiança e convicção de que seremos capazes de sustentar o crescimento ao longo do ciclo, uma vez que estamos a elevar este limite mínimo para as distribuições globais”, vincou Maria João Carioca.
Questionada se a Galp ponderou também aumentar o atual programa de recompra de ações, lançado em março com um valor de 226,3 milhões de euros, a co-CEO explicou que há um outro fator a ter em conta – a visibilidade.
Temos vários aspetos em evolução no nosso portfólio, pelo que abordar a questão da recompra de ações levaria a uma discussão sobre a política de distribuição, algo que gostaríamos de abordar à medida que formos obtendo maior visibilidade sobre alguns desses aspetos em evolução e, claro, maior visibilidade sobre quais serão os termos finais relativos à Moeve
“Temos vários aspetos em evolução no nosso portfólio, pelo que abordar a questão da recompra de ações levaria a uma discussão sobre a política de distribuição, algo que gostaríamos de abordar à medida que formos obtendo maior visibilidade sobre alguns desses aspetos em evolução e, claro, maior visibilidade sobre quais serão os termos finais relativos à Moeve”, disse.
A petrolífera portuguesa e os acionistas da Moeve — a Mubadala Investment Company e o The Carlyle Group — anunciaram a 8 de janeiro que chegaram a um acordo não vinculativo para avançar com discussões detalhadas sobre a potencial fusão dos seus portefólios de downstream e criar duas empresas líderes de energia na Península Ibérica: a RetailCo e a IndustrialCo. A Galp informou nessa altura que, havendo acordo, ficará com cerca de 50% da nova plataforma de retalho (a RetailCo) com 3.500 estações de serviço na Ibéria e, pelo menos, 20% da empresa industrial a ser criada para a refinação e o trading (a IndustrialCo).
Depois de a previsão de o acordo ser firmado em julho ter derrapado, o co-CEO João Diogo Marques da Silva disse ao ECO em conversa telefónica que a expectativa passou agora para outubro. Na mesma conversa, questionada sobre se a questão da remuneração acionista está a ser abordada nas discussões com a Moeve, Maria João Carioca explicou que a Galp está “a olhar para todos os aspetos financeiros da transação e do funcionamento das joint ventures, portanto do perímetro da transação”.
Acrescentou que “vale muito a pena manter presente que 70% do negócio da Galp não está dentro desta transação com a Moeve, portanto nós vamos precisar de ter visibilidade sobre esses aspetos, olhar para o que está a acontecer nas nossas outras áreas de negócio… e só com essa visibilidade mais estabilizada é que faz sentido que falemos de dividendos, porque é um aspeto muito fundacional da relação com os investidores”.
“Somos uma growth stock”
A co-CEO recordou que a Galp analisa a política de distribuição numa perspetiva de ciclo e que, até ao momento, a regra de distribuição de um terço do do cash flow operacional ajustado “tem sido uma base sólida sobre a qual temos conseguido refletir o nosso perfil” e “por isso, somos claramente uma ação de crescimento, e não uma ação que aposta apenas no rendimento de dividendos“.
“Mas, partindo desta base, o que vemos neste momento é que se avizinham várias mudanças no que diz respeito ao nosso perfil e aos nossos resultados, bem como à forma como a nossa geração de EBITDA irá evoluir nos próximos meses; a visibilidade sobre os termos específicos será fundamental para a forma como iremos debater o futuro desta política de distribuição”, acrescentou.
As prioridades mantêm-se as mesmas, vincou Maria João Carioca. “Continuamos a ter como objetivo uma política de distribuição que, acima de tudo, reflita bem o nosso desempenho e a nossa história de valor para os acionistas e, naturalmente, acompanhamos a forma como o nosso setor se está a ajustar e continuamos a ser competitivos em termos de distribuição”.
“Além disso, pretendemos que essas distribuições sejam sustentáveis; queremos ter um limite mínimo de dividendos que seja estável e claro para todos os nossos acionistas ao longo do ciclo e, depois, utilizamos a recompra de ações como fator de ajustamento, se assim se quiser, sempre que houver um fator favorável que nos permita efetuar uma distribuição adicional”, concluiu.
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