Lucros extraordinários? “É importante a população em geral entender em que mercado a Galp opera”, defende co-CEO
Galp subiu lucros em 44%, mas co-CEO não vêm retorno como extraordinário. Produção fora de Portugal e expectativas dos investidores retiram lógica a proposta de taxa especial, explicam ao ECO.
- A Galp registou um aumento de 44% nos lucros no primeiro semestre, prevendo um lucro operacional de 4 mil milhões de euros para 2026 e um aumento de 10% nos dividendos.
- O desempenho positivo da Galp ocorre num contexto de volatilidade dos preços das matérias-primas, impulsionada por riscos geopolíticos no Médio Oriente, que afetam os mercados energéticos.
- A co-CEO da Galp alertou que a introdução de um imposto sobre lucros extraordinários poderia aumentar a incerteza dos investidores e prejudicar a competitividade da empresa.
Mais 44% em lucros no primeiro semestre, a meta do lucro operacional para 2026 a disparar 53% para 4 mil milhões de euros e os dividendos a subirem 10%. Logo de madrugada, a Galp classificou, em comunicado, o desempenho de janeiro a junho como “robusto” em termos operacionais e “forte” na execução da estratégia. Em teleconferência com os analistas, a co-CEO Maria João Carioca sublinhou que “o primeiro semestre do ano foi realmente positivo”.
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O contexto deste desempenho foi de volatilidade dos preços das matérias-primas decorrente do aumento do risco geopolítico no Médio Oriente, com repercussões nos mercados energéticos globais. A base de ativos da Galp permitiu uma elevada geração de fluxo de caixa operacional. Com a própria petrolífera a reconhecer o papel dos preços elevados devido à guerra, o ECO perguntou aos co-CEO da empresa, João Diogo Marques da Silva e Maria João Carioca, em conversa telefónica, se os lucros podem ser considerados extraordinários ou excessivos.
“Eu acho que há um paradigma que é incontestável”, arrancou Marques da Silva. “Mais de 90% do nosso resultado é gerado fora do nosso país, e essa é uma referência que é importante, e [também] a população em geral entender em que mercado, em que setor é que esta empresa opera“. Para o gestor, é preciso “tentar perceber também que investimentos é que nós estamos a fazer e como é que eles são remunerados e têm que ser necessariamente remunerados, porque os nossos acionistas, os nossos investidores, esperam isso”.
Marques da Silva vincou que por outro lado, é necessário entender “a forma como a disponibilidade e a forma como nós estamos a operar de forma integrada a cadeia de valor, desde a produção de petróleo ao transporte, à produção e depois à comercialização de produtos petrolíferos, o mesmo aplicável ao gás natural e à eletricidade – como é que neste contexto uma empresa como esta tem que entregar e deve operar”
A 4 de abril, o ministro das Finanças português, Joaquim Miranda Sarmento, e os seus homólogos da Alemanha, Espanha, Itália e Áustria pediram à Comissão Europeia a criação de um imposto sobre os lucros extraordinários das energéticas, semelhante às medidas para conter a crise energética de 2022. Bruxelas deu ‘luz verde’ ainda em abril, enquanto a 9 de julho Miranda Sarmento salientou que apesar de já terem passado dois meses do envio da carta, o Governo português continua “a analisar essa possibilidade, a acompanhar a evolução do conflito e mais tarde tomaremos decisões”.
Imposto aumentaria incerteza
Para Maria João Carioca, co-CEO da Galp, esse tipo de medida de alteração fiscal iria apenas criar dúvidas aos investidores. “A nível europeu, quando nós olhamos para os nossos pares, vemos desempenhos semelhantes e, aliás, o acolhimento a nível europeu para este tipo de alterações de fiscalidade é que aumenta a incerteza dos investidores e que, na prática, o que fazem é não reconhecer que este é um setor que vive muito exposto ao mercado”.
Da mesma forma que estou a ter um momento positivo agora, numa reversão das condições de mercado, eu vou ter que lidar com os custos e com, eventualmente, até prejuízos que pudessem surgir dessa situação e não vou pedir que me seja dado nenhum apoio, nenhuma subvenção, não esperaria que os portugueses pagassem a conta de uma situação dessas
“Portanto, da mesma forma que eu estou a ter um momento positivo agora, numa reversão das condições de mercado, eu vou ter que lidar com os custos e com, eventualmente, até prejuízos que pudessem surgir dessa situação, e não vou pedir que me seja dado nenhum apoio, nenhuma subvenção, não esperaria que os portugueses pagassem a conta de uma situação dessas”, explicou Carioca.
Para a gestora, “esta situação, sendo positiva neste momento, é a normalidade, reflete o momento do ciclo e aquilo que nós queremos sempre é garantir que a Galp tem condições de se manter competitiva, a funcionar e estável e capaz de investir através dos ciclos, portanto aquele through the cycle que nós falamos muitas vezes”.
“Nós temos que estar cá para os momentos bons e para os momentos maus“, concluiu.
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