Portugueses lideram expectativas de subida do rendimento líquido na Zona Euro
Dados do Banco Central Europeu mostram que os consumidores portugueses esperam a maior subida de rendimento líquido da Zona Euro, num contexto de inflação a abrandar e consumo ainda em alta.
- As expectativas de inflação dos consumidores da área do euro diminuíram em junho, refletindo uma normalização gradual após o choque inflacionista recente.
- Os dados do inquérito do BCE revelam que os consumidores portugueses antecipam uma inflação de 5% e uma subida de 4,2% do rendimento líquido nos próximos 12 meses, superior à média da Zona Euro.
- Apesar da melhoria nas expectativas de rendimento, os consumidores europeus mantêm uma atitude cautelosa em relação ao consumo, o que pode influenciar a política monetária do BCE.
As expectativas de inflação dos consumidores da área do euro voltaram a descer em junho, ao mesmo tempo que melhoram ligeiramente as perspetivas de rendimento das famílias e se adensa a ideia de alguma contenção no consumo, num sinal de normalização gradual após o choque inflacionista dos últimos anos.
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No caso português, os dados detalhados do inquérito do Banco Central Europeu (BCE), publicados esta sexta-feira, mostram um enquadramento alinhado com a tendência da Zona Euro, com as famílias a anteciparem inflação mais baixa e ganhos de rendimento, o que ajuda a explicar uma atitude de aumento da despesa.
De acordo com o inquérito do BCE, a mediana das perceções de inflação dos consumidores europeus sobre os últimos 12 meses recuou de 4% para 3,6% na área do euro, interrompendo a estabilização observada em abril e maio.
Os consumidores portugueses reportam uma subida de 6,5% dos preços nos últimos 12 meses, que se traduz no primeiro abrandamento desde setembro de 2024.
Mais relevante para a política monetária do BCE é o facto da mediana das expectativas de inflação para os próximos 12 meses descer de 3,5% para 3%, enquanto as expectativas para os próximos três anos recuaram ligeiramente para 2,8% e as de cinco anos permaneceram ancoradas em 2,4%, valores que o BCE sublinha como compatíveis com uma normalização progressiva em direção ao objetivo de 2%.
A incerteza em torno da inflação esperada diminuiu pelo segundo mês consecutivo, ainda que se mantenha acima dos níveis anteriores ao agravamento das tensões geopolíticas recentes.

Na leitura específica para Portugal, as estatísticas do BCE apontam para medianas de perceções e expectativas de inflação que acompanham de perto a trajetória do agregado da área do euro, mas com níveis superiores.
- Por um lado, os consumidores portugueses reportam uma subida de 6,5% dos preços nos últimos 12 meses, que se traduz no primeiro abrandamento desde setembro de 2024, e que compara com uma taxa de inflação nos últimos 12 meses em junho de apenas 2,5%, segundo cálculos do Instituo Nacional de Estatística.
- Por outro, antecipam que a inflação para os próximos 12 meses fixe-se nos 5%, marcando o terceiro mês consecutivo de abrandamento no índice de preços e o valor mais baixo desde fevereiro.
Os dados desagregados por país, publicados pelo BCE na mesma plataforma, confirmam que, tal como nos principais parceiros, as expectativas de médio prazo das famílias em Portugal em relação à evolução da inflação convergem para um abrandamento, o que sugere que, apesar da experiência recente de inflação elevada, não se instalou a ideia de uma subida permanente dos preços.
Do lado dos rendimentos das famílias, o inquérito de junho indica, ao nível da área do euro, um aumento das expectativas de crescimento nominal do rendimento dos agregados familiares para 1,1% nos próximos 12 meses, face a 1% em maio — sinalizando uma ligeira melhoria das perspetivas salariais e de outras fontes de rendimento.
Em contraste, a mediana da expectativa de crescimento da despesa nominal das famílias recuou de 3,8% para 3,6% no conjunto da área do euro, enquanto a perceção de crescimento da despesa nos 12 meses anteriores abrandou para 5,1%, o que aponta para algum travão no consumo depois de um período em que a inflação obrigou muitos agregados a gastar mais para manter o mesmo cabaz.

Segundo o BCE, esta divergência entre rendimentos e despesa é particularmente visível nos escalões de rendimento mais baixos, que continuam a antecipar aumentos de despesa ligeiramente superiores, mas com maior prudência do que há alguns meses.
No caso português, os indicadores de rendimento e consumo incluídos nas estatísticas do BCE mostram expectativas de variação do rendimento líquido e da despesa num patamar comparável ao observado para a área do euro, com as famílias a apontarem para crescimentos nominais modestos do rendimento e para um abrandamento do ritmo de aumento da despesa ao longo dos próximos 12 meses.
- As expectativas dos consumidores nacionais apontam para uma subida de 4,2% do rendimento líquido nos próximos 12 meses, ficando acima das expectativas de todos os outros países inquiridos.
- No campo da despesa, as expectativas dos consumidores nacionais apontam para uma subida de 8,3% nos próximos 12 meses, apenas superada pela expectativa de subida de 11,2% dos gregos, e marcando o quinto mês consecutivo de subida.
Este quadro, conjugado com expectativas de inflação mais baixas e com uma avaliação menos negativa da evolução da economia e do mercado de trabalho — na área do euro, a expectativa de crescimento do PIB a 12 meses passou de -1,7% para -1,4% e a taxa de desemprego esperada em 12 meses recuou de 11,3% para 11,2% –, sugere que os consumidores em Portugal e no resto da Zona Euro começam a ver algum alívio no choque inflacionista, mas continuam longe de uma euforia de consumo, mantendo um comportamento cauteloso que poderá ser determinante para a forma como o BCE calibra a trajetória futura das taxas de juro.
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