Das malhas da avó polaca à Primor: quem são os recatados reis dos perfumes em Portugal
Os negócios do acarinhado e empreendedor casal Eva e Roudolph Arié, nos anos 1950, criaram as bases de um grupo português que tem investimentos na restauração, mobilidade, consultoria ou imobiliário.
- Chawa Jablonsky, que chegou a Portugal em 1936, transformou a pequena empresa de malhas da família num império de perfumes e cosméticos, agora em expansão com a compra da Primor.
- A família Arié, que detém a maior rede de lojas de fragrâncias na Península Ibérica, possui uma fortuna avaliada em 317 milhões de euros, destacando-se entre as mais ricas da comunidade judaica.
- Os investimentos diversificados da família, incluindo gastronomia e mobilidade elétrica, visam garantir a continuidade do negócio e evitar o destino de outras marcas que perderam o controle.
Quando Chawa Jablonsky, nascida na Polónia em 1930, chegou a Portugal com apenas seis anos de idade estava longe de imaginar que a pequena empresa de malhas criada pelos pais iria costurar um autêntico império de perfumes e cosméticos no século seguinte.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
Apesar do negócio têxtil na cidade de Lisboa, foi durante uma viagem que Chawa — nome de origem hebraica que se traduz para Eva — se apaixonou pelo búlgaro Roudolph Arié, que era 15 anos mais velho e estava ligado ao perfumaria artesanal em Sófia.
Ambos viriam a tornar-se patriarca e matriarca da família Arié, que detém a maior rede de lojas de fragrâncias, cremes e maquilhagem na Península Ibérica, e, caso obtenha o OK da Autoridade da Concorrência, vai ficar (ainda) maior com a compra da operação portuguesa da Primor.
Os investimentos da família Arié arrancam na década de 1950. Após de fugir de uma Europa em guerra para Israel, Roudolph usou o histórico familiar e a formação em Engenharia Química para conseguir a representação portuguesa da Harriet Hubbard Ayer (atual Ayer), exigência que vinha associada à abertura de um salão de beleza lisboeta.
“[O espaço] ficou famoso. Ele [Roudolph] mais tarde conseguiu que o Ayer formulasse os produtos aqui, em vez de os importar. E o negócio desenvolveu-se muito. Era muito bom tipo (sempre gostei dele)”, contou Samuel Lery, ex-presidente da Comunidade Israelita em Lisboa, à revista Sábado, em 2019, notando ainda que “a Eva é muito boa gestora e os filhos são muito competentes”.
A partir daí, nasce a Boutique Ayer, em 1964, em pleno coração de Lisboa, e faz deste acarinhado casal uma referência entre as marcas mais prestigiadas do setor, entre as quais Bulgari, Dolce & Gabbana, Givenchy, Hermès, Kenzo ou Shiseido.

Numa rara aparição na comunicação social, com uma entrevista à Visão, o filho Renato Rafael Arié (René) disse que, depois do instituto de beleza e do cabeleireiro, o pai “até teve um ginásio”. Por sua vez, Eva visitava as maiores metrópoles europeias da moda, tirava ideias, criava relações e trazia as inspirações para Portugal.
No vestuário, o percurso iniciou-se com a antiga sociedade Santos & Nascimento – Alfaiates, que prevaleceu durante décadas — aliás, é com os três filhos (Jacqueline Esther Arié, Charles Chuna Arié e Renato Rafael Arié) que entra a moda através da representação da Stefanel de marcas de lingerie como a DIM, do universo da então Sara Lee Corporation (agora Hanesbrands).
O clã está hoje na 46.º posição na lista da Forbes dos maiores patrimónios em Portugal, com uma fortuna avaliada em cerca de 317 milhões de euros no final do ano passado, tendo por base os resultados financeiros das suas empresas em 2024.
A par das famílias Abecassis, Bensaude, Benoliel, Ruah, Kolinski e Brodheim, a Arié consta entre as sete mais ricas da comunidade judaica. “Toda a nossa vida profissional foi sempre no sentido de fazer crescer as marcas que trabalhamos. O estrelato está, por isso, nelas e não na nossa família. Há campos de negócio e da vida privada que procuramos reservar”, referiu René na mesma entrevista à Visão.
Mesmo com o passar dos anos e a morte dos primeiros responsáveis pelo negócio, mantêm intactas as reservas em prestar declarações à imprensa ou comunicar perante o público (nos últimos anos não se conheceu uma agência de comunicação encarregue das relações do grupo com os media) e incólume está também o núcleo no qual confiam o destino do seu dinheiro.
O ECO sabe que, na recente aquisição do negócio português da espanhola Primor, os Arié foram apoiados por um dos maiores escritórios de advogados, a Vieira de Almeida, e pela consultora EY no processo de diligência prévia (duediligence) e assessoria fiscal. Ou seja, precisamente os assessores com quem contaram em 2015 para fechar a compra do grupo Barreiros Faria, uma holding que unia Perfumes & Companhia, Barreiros Faria, Mars, Quinta Essência, Anita e MAC, e os catapultou da distribuição do perfumes para a venda.
Atualmente, só a Perfumes & Companhia tem 129 lojas em Portugal, receitas superiores a 166 milhões de euros por ano e lucros de 6 milhões de euros.
Por sua vez, a sucursal da recém-parceira Primor faturou 46,9 milhões de euros no ano passado, quase o dobro das vendas registadas em 2024, e o resultado líquido foi de aproximadamente 959 mil euros, ficando assim acima dos prejuízos do ano anterior, de acordo com os dados depositados no registo comercial.

Dos perfumes nasceram novos negócios na família Arié
Para lá do negócio das fragrâncias, a família Arié estendeu o seu império por outros setores, nomeadamente na gastronomia e restauração, que teve origem numa rotina de viagens que a nora Helena Deffense Leote, mulher de Charles Chuna Arié, fazia a Itália em representação da Stefanel.
“Numa dessas viagens, o meu pai sugeriu a ideia de uma empresa de tramezzinos (sanduíches italianas) para almoços corporativos. Ele acreditava que o conceito de lunch boxes personalizadas para o ambiente de escritório tinha um excelente potencial. Ao começar a desenvolver o projeto, senti que precisava de alguém que trouxesse um know-how excecional e uma visão gastronómica diferenciada”, começou por dizer a neta Ana Arié, um dos cinco membros da terceira geração da família Arié, à Executiva, em 2024.
“Foi então que marquei uma reunião com o chef José Avillez, alguém que sempre admirei, para lhe apresentar a ideia e solicitar a sua consultoria. Para minha surpresa, dessa reunião nasceu uma parceria que rapidamente evoluiu para uma sociedade”, recordou a empresária.
A “empatia imediata” materializou-se num serviço de take-away em Cascais chamado “JA” em casa e, em 2010, evoluiu para uma entrada de capital no grupo Avillez, onde a Arié SGPS — o porta-aviões dos investimentos da família — detém 45,9% e a Black Lemon Invest, do chef José Avillez, os remanescentes 36,6%.
Em 2025, o conjunto de restaurantes Avillez (Belcanto, Encanto, Maré, Bairro do Avillez, Taberna, Páteo, Mini Bar, Pizzaria Lisboa, Cantinho do Avillez, Tasca Chic, Tasca no Dubai e Mesa em Macau) empregava mais de 350 pessoas e tinha um volume de negócios de aproximadamente 22 milhões de euros.
A dupla Arié e Avillez detém ainda o grupo Capricciosa, que é composto pelas pizzarias com o mesmo nome e uma série de restaurantes, nomeadamente o Sellva, o Doca de Santo, o Sophia, o Lat.a e os bares da Irish & Co.
Paralelamente, embora também seja um espaço de restaurantes, o grupo Arié associou-se ao Lx Factory, na zona de Alcântara, em Lisboa, tendo já no período pós-pandemia negociado com o fundo francês Keys REIM e adquirido uma participação neste hub artístico, por via de uma joint venture com o Europi Property Group, no âmbito de operação de investimento gerida pela Bedrock Capital.

No portefólio de investimentos dos Airé marca ainda destaque a área da mobilidade urbana, por via da renomada Powerdot, cuja propriedade e gestão é partilhada com o fundo Antin.
A operadora de postos de carregamento elétrico tem estado a crescer na Europa e, ainda no início deste mês, anunciou que fez a primeira grande aquisição ao comprar a operação ibérica da britânica InstaVolt, fazendo com que aumente a rede com 200 pontos de carregamento em Portugal e Espanha, dois anos após receber uma injeção de 100 milhões dos investidores.
Sete meses antes da Primor, os Arié compraram a empresa portuguesa Multilem, especializada em design e criação de experiências de marca, e responsável por construir stands para feiras e outros eventos empresariais para o Turismo de Portugal, a TAP, a Embratur ou o Novobanco.
Todos estes investimentos são realizados através da Arié SGPS ou sociedades “filhas”, como a AriePar, Arié Investimentos ou a RRA, em referência às siglas de Renato Rafael Arié, que é o presidente do grupo. Ademais, têm empresas de consultoria que operam para sinergias de grupo (Cook Book, Matéria Gloriosa, Equação Quotidiana Lda., etc.) e sociedades de investimento imobiliário (KREP ou Yunkai).
A diversificação dos negócios, ao longo dos últimos 70 anos, é certamente uma forma de evitar um desfecho como o da norte-americana Harriet Hubbard Ayer, uma das jornalistas mais notáveis do New York Times no século XIX, que perdeu o controlo da própria empresa e o direito de utilização de nomes/fórmulas dos perfumes e cremes que co-desenvolveu. Certo é que o nome Ayer ainda persiste nas prateleiras da Perfumes & Companhia e o de Arié também.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Das malhas da avó polaca à Primor: quem são os recatados reis dos perfumes em Portugal
{{ noCommentsLabel }}