Enquanto Portugal faz o Amália, UE prepara modelo de IA que fala 24 línguas
Bruxelas escolheu o consórcio denominado EUROPA para criar um modelo de IA com 400 mil milhões de parâmetros, disponível em código aberto e em todas as línguas da UE.
Numa altura em que se aproxima o prazo para o Governo disponibilizar ao público o modelo de inteligência artificial (IA) Amália, a Comissão Europeia escolheu o consórcio “EUROPA” para desenvolver um grande modelo de IA para toda a União Europeia (UE). O modelo terá 400 mil milhões de parâmetros, saberá responder nas 24 línguas oficiais da UE e chegará ao público em regime de código aberto, sendo concebido para competir “ao mais alto nível das capacidades globais de IA”, garante Bruxelas.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
Um dos objetivos da Comissão Europeia é garantir que mais cidadãos e organizações dos Estados-membros possam beneficiar dos avanços neste tipo de tecnologia, tornando a IA avançada mais acessível às empresas, investigadores e instituições públicas, independentemente da diversidade linguística europeia. Este modelo pretende ainda reforçar a capacidade da Europa de desenvolver sistemas avançados de IA utilizando infraestruturas próprias, numa altura em que a soberania europeia é cada vez mais uma preocupação no Velho Continente.

“A Europa pode liderar o desenvolvimento da IA avançada nos seus próprios termos. O [consórcio] EUROPA irá construir um modelo europeu de IA de fronteira em todas as 24 línguas da UE, demonstrando que podemos competir com os melhores sem abdicar dos nossos valores. Trata-se de reforçar a capacidade da Europa para moldar o futuro da IA, assente na abertura, na confiança e na autonomia estratégica”, sublinha a vice-presidente executiva da Comissão Europeia para a Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia, Henna Virkkunen, num comunicado divulgado na sexta-feira.
A notícia surge numa altura em que Portugal continua a desenvolver a última fase do Amália, modelo financiado pelo Estado português através de verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), no valor de 5,5 milhões de euros, embora numa escala significativamente mais reduzida. O Amália, que permanece reservado a investigadores, e que deverá ser apresentado este mês, conta com cerca de nove mil milhões de parâmetros, uma escala significativamente inferior aos 400 mil milhões de parâmetros que terá o modelo europeu.
Como Bruxelas escolheu o futuro modelo europeu de IA
O consórcio “EUROPA” foi o vencedor de um concurso da Comissão Europeia denominado “Frontier AI Grand Challenge”, lançado em fevereiro de 2026. A iniciativa desafiou os participantes a desenvolver um modelo com mais de 400 mil milhões de parâmetros, uma escala associada aos sistemas de IA mais avançados do mundo, como o ChatGPT ou o Gemini.
O concurso esteve aberto a empresas estabelecidas na União Europeia e sob controlo europeu, podendo estas candidatarem-se sozinhas ou em consórcio com universidades e centros de investigação dos Estados-membros. A entidade coordenadora tinha obrigatoriamente de ser uma organização do setor privado responsável pela gestão global do projeto.
Bruxelas exigia ainda que os candidatos demonstrassem experiência comprovada no desenvolvimento e implementação de modelos de IA de grande escala, com mais de 100 mil milhões de parâmetros, bem como conhecimento aprofundado em soluções capazes de operar em todas as línguas oficiais da União Europeia e acesso aos dados necessários para treinar estes sistemas.
Além da dimensão do modelo, a Comissão Europeia definiu um conjunto de requisitos técnicos exigentes. As propostas tinham de prever arquiteturas modulares, como os chamados modelos “mixture of experts”, uma técnica que permite ativar apenas partes específicas do modelo para cada tarefa, aumentando a eficiência e reduzindo os custos computacionais.
Outro requisito era mostrar o potencial para superar os sistemas mais avançados atualmente disponíveis em diversas tarefas. O desenvolvimento terá ainda de respeitar os princípios científicos de escalabilidade no treino dos modelos e cumprir as regras previstas no regulamento europeu da IA, vulgarmente conhecido como AI Act.
Em contrapartida, o vencedor agora conhecido terá acesso a alguns dos recursos computacionais mais avançados da Europa, incluindo os supercomputadores EuroHPC. O projeto beneficiará ainda de uma quota equivalente a até 2,5% da capacidade total de computação da rede durante um ano, bem como de serviços especializados disponibilizados pelas fábricas europeias de IA (AI Factories).
A Comissão exigiu também compromissos em matéria de transparência e ciência aberta. O modelo deverá ser disponibilizado em regime de acesso aberto, incluindo publicações científicas e, sempre que aplicável, detalhes sobre a arquitetura e os pesos do sistema, ficando acessível a entidades públicas, investigadores e empresas em toda a União Europeia.
Quem está envolvido no consórcio?
A liderar o consórcio EUROPA está a Domyn, uma empresa italiana especializada no desenvolvimento de soluções de IA para setores altamente regulados, como os serviços financeiros, a indústria e a administração pública. Fundada em 2016, a empresa conta atualmente com mais de 150 colaboradores e tem sede em Milão, dispondo ainda de escritórios em Nova Iorque. A Domyn desenvolve modelos de linguagem de grande dimensão (LLM), agentes de IA e infraestruturas de computação avançada, com um foco particular na soberania tecnológica, na segurança dos dados e na conformidade regulatória.
A Domyn apresenta-se como fornecedora de sistemas de IA que podem ser totalmente controlados e geridos pelas organizações que os utilizam, uma abordagem especialmente direcionada a entidades que lidam com informação sensível ou sujeita a exigentes requisitos legais.
Outra empresa envolvida no consórcio é a Fraunhofer-Gesellschaft, disse ao ECO fonte oficial da Comissão. A Fraunhofer é uma das maiores organizações de investigação aplicada da Europa, com sede na Alemanha e uma vasta rede de institutos especializados. A instituição participa regularmente em projetos europeus de inovação e desenvolvimento tecnológico, colaborando com indústria, academia e entidades públicas em áreas que vão da IA à engenharia, energia e materiais avançados.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Enquanto Portugal faz o Amália, UE prepara modelo de IA que fala 24 línguas
{{ noCommentsLabel }}