Bruxelas está mais pessimista e já admite cenário de estagflação na União Europeia
Comissão Europeia alerta para incerteza nas perspetivas económicas, mas admite crescimento de apenas 0,8% na União Europeia se conflito no Golfo se prolongar.
O tom em Bruxelas começa a ser de maior pessimismo ao fim de um mês de conflito no Golfo. A escalada dos preços da energia, mas também os riscos para o abastecimento global, são agora o tema central dos discursos dos responsáveis da Comissão Europeia, que já admite um cenário de estagflação.
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“Por enquanto, as perspetivas estão envoltas em profunda incerteza. Mas é evidente que corremos o risco de um choque estagflacionista”, admitiu o comissário europeu da Economia, Valdis Dombrovskis, em Bruxelas.
Dombrovskis falava esta sexta-feira em conferência de imprensa após uma reunião extraordinária (por videoconferência) do Eurogrupo, devido à guerra no Médio Oriente. O responsável da pasta para a Economia recordou que, desde o início do conflito, no final de fevereiro, que “o Estreito de Ormuz foi transformado em arma e a infraestrutura energética continua sendo alvo de ataques”.
Por enquanto, as perspetivas estão envoltas em profunda incerteza. Mas é evidente que corremos o risco de um choque estagflacionista.
“Como resultado, os preços da energia dispararam. O petróleo Brent tem sido negociado consistentemente acima de 100 dólares por barril nas últimas duas semanas. Naturalmente, o impacto total na economia europeia dependerá da duração, do alcance e da intensidade do conflito”, sublinhou.
Neste sentido, advertiu que, mesmo que o bloqueio no abastecimento de energia sejam relativamente breves, os riscos de um crescimento mais lento que coincide com a inflação mais alta são cada vez mais evidentes. Estimativas da Comissão admitem um cenário de crescimento da economia da União Europeia de cerca de 1% este ano, menos 0,4 pontos percentuais do que nas projeções de outono, e uma taxa de inflação que poderá alcançar 3,1%, mais um ponto percentual do que anteriormente.
No entanto, se as perturbações se revelarem mais substanciais e duradouras, as consequências negativas para o crescimento serão ainda maiores, alertou o comissário europeu. Nesse cenário, o crescimento poderá ser até 0,6 pontos percentuais inferior tanto em 2026 como em 2027, fixando em 0,8% e 0,9%, respetivamente.
Comissão Europeia já admite crescimento do PIB da UE de apenas 0,8% este ano, num cenário de conflito prolongado.
Ademais, Dombrovksis alertou que outros fatores poderão levar a um impacto económico negativo da crise “ainda maior”. Ainda assim, salientou que os números avançados não significam uma “previsão”, constituindo “sim uma análise de cenários para dar uma ideia da dimensão do impacto potencial”.
O maior pessimismo esta sexta-feira do comissário europeu não é caso isolado. Na quarta-feira, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), disse de manhã que era “demasiado cedo para dizer” o que estava para vir dos conflitos no Médio Oriente. Porém, horas depois, numa entrevista à revista britânica The Economist, Christine Lagarde abandonou a cautela habitual e deixou um aviso direto: os riscos para a economia mundial resultantes da guerra no Irão estão a ser subestimados, as expectativas de um regresso rápido ao normal são “excessivamente otimistas” e o “choque real” em curso é “provavelmente além do que conseguimos imaginar neste momento”.
Nos cenários adversos publicados pelo BCE, após a última reunião do Conselho de Governadores, a instituição projetava que se o conflito no Médio Oriente se agudizasse e prolongasse o impacto para a economia seria mais severo do que o esperado, trabalhando com um cenário de estagflação. No pior cenário, Frankfurt estima que a inflação na Zona Euro pode disparar até 4,4% este ano, aumentando para 4,8% em 2027, ao mesmo tempo que o crescimento recua para 0,4% e 0,9, respetivamente.
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