“Choque” energético da guerra no Golfo “vai além do que conseguimos imaginar”, avisa Lagarde
A presidente do BCE quebrou o tom habitual de cautela e avisou que as expectativas de uma resolução rápida da crise energética são excessivamente otimistas face aos danos já causados.
- Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, alertou que os riscos económicos da guerra no Irão estão a ser subestimados, desafiando expectativas otimistas.
- O perigo, segundo Lagarde, é que as consequências emerjam apenas de forma gradual, gerando uma "avaliação tardia" da gravidade da crise
- A líder do BCE expressou ainda preocupação com as finanças públicas da Zona Euro, enfatizando a necessidade de apoio governamental ajustado e temporário para evitar alimentar a inflação.
Na quarta-feira, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), disse de manhã que era “demasiado cedo para dizer” o que estava para vir dos conflitos no Médio Oriente. Porém, horas depois, numa entrevista à revista britânica The Economist, Christine Lagarde abandonou a cautela habitual e deixou um aviso direto: os riscos para a economia mundial resultantes da guerra no Irão estão a ser subestimados, as expectativas de um regresso rápido ao normal são “excessivamente otimistas” e o “choque real” em curso é “provavelmente além do que conseguimos imaginar neste momento”.
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Na manhã de 25 de março, Lagarde tinha discursado na conferência anual “ECB and Its Watchers”, em Frankfurt, onde adotou um registo mais contido, afirmando ser “demasiado cedo para dizer” qual dos cenários para o choque energético se materializaria.
Nessa conferência, a presidente do BCE sublinhou que o ponto de partida atual é mais sólido do que em 2022, salientando que a inflação está próxima do objetivo de 2% e as taxas de juro encontram-se num nível aproximadamente neutro, e descreveu um leque de respostas graduais do BCE, desde “deixar passar” o choque se for breve e limitado, até uma intervenção “forçosa e persistente” se a inflação se desviar significativa e prolongadamente do objetivo.
Mas, na entrevista à The Economist, foi muito mais longe, notando que os técnicos do BCE acreditam que “danos demais já foram causados” e que não há “forma” de recuperar o abastecimento energético perdido do Golfo em apenas alguns meses. A perturbação, disse, poderá durar “anos”.
Christine Lagarde garante que o BCE está “bem posicionado para responder” à crise energética, mas mostra-se preocupada com as finanças públicas dos Estados-membros da Zona Euro.
O perigo, segundo Lagarde, é que as consequências emerjam apenas de forma gradual, gerando uma “avaliação tardia” da gravidade da crise – um risco que a Agência Internacional de Energia (AIE) já classificou como o maior choque de abastecimento na história do mercado petrolífero mundial.
Em matéria de política monetária, a mensagem da presidente do BCE foi de confiança, notando que a entidade responsável pela política monetária da área do euro está “bem posicionado para responder”.
Mas é nas finanças públicas que Lagarde confessa estar mais preocupada. “Não há tanto espaço orçamental” como havia em 2022-23, quando os países da Zona Euro gastaram mais de 2,5% do PIB para amortecer os custos energéticos após a invasão russa da Ucrânia.
Desta vez, o apoio dos governos deve ser “ajustado, direcionado e temporário”, com foco nas famílias de menores rendimentos, salientou Lagarde, notando que os decisores políticos devem ter cuidado com a “amplitude do cobertor” que utilizam, uma metáfora da líder do BCE para o risco de medidas demasiado abrangentes que alimentem a inflação em vez de a conter.
Na entrevista à The Economist, Lagarde foi ainda crítica relativamente ao papel dos EUA na coordenação global da resposta à crise, questionando se seria possível ver hoje o tipo de resposta concertada do G20 que se verificou durante a crise financeira de 2007-09.
“O G20 está sob liderança americana. Não digo mais nada”, afirmou, numa resposta que dispensou qualquer elaboração adicional.
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