Buscas na TAP e Barraqueiro por suspeitas na privatização da TAP em 2015

PJ realizou buscas na sede da TAP, na Barraqueiro e outros locais no âmbito de uma investigação do DCIAP sobre suspeitas de fraude na privatização em 2015. Duas pessoas e duas empresas arguidas.

A Polícia Judiciária (PJ) realizou buscas na TAP, no Grupo Barraqueiro e em duas dezenas de outros locais, incluindo a Parpública, escritórios de advogados e sociedades de revisor oficial de contas. Em comunicado, o Ministério Público confirmou as buscas e revela que não estão previstas qualquer detenção no âmbito deste processo que apelida de “Operação Voo TP789”.

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Já ao final da tarde, numa nota publicada na página do Departamento Central de Investigação e Ação Penal, o Ministério Público informou terem sido “constituídos quatro arguidos: duas pessoas singulares e duas pessoas coletivas”, na sequência das buscas desta manhã. “Não houve qualquer detenção”, acrescentou.

Segundo avançam a CNN Portugal e o Correio da Manhã, os arguidos serão Humberto Pedrosa e o filho, David Pedrosa, com a sociedade HPGB, que integrou o consórcio, a ser também visada pelo Ministério Público.

“Estas diligências visam a obtenção de prova respeitante a factos participados ao Ministério Público em dezembro de 2022 e relacionados com a aquisição pelo agrupamento Atlantic Gateway, à Parpública, de 61% do capital social da TAP, SGPS e da subsequente capitalização daquela entidade com fundos provenientes de um financiamento acordado, em momento prévio à aquisição, entre a Airbus e a sociedade DGN Corporation (acionista da Atlantic Gateway)”, lê-se no comunicado.

Em causa estão factos suscetíveis de configurar a eventual prática de crimes de administração danosa, de participação económica em negócio, de corrupção passiva no setor privado, de fraude fiscal qualificada e de fraude à Segurança Social qualificada.

Em comunicado, o Ministério Público adianta também que a investigação estende-se às decisões contratuais tomadas por acordo entre a Airbus e a DGN Corporation, em data anterior à da venda direta, com vista à aquisição pela TAP, de 53 novas aeronaves, e ao cancelamento de encomendas formalizadas em 2005, no contexto de suspeitas de que estas opções contratuais possibilitaram a aquisição da participação social da companhia pelo consórcio Atlantic Gateway, e a respetiva capitalização, com recurso a financiamento externo, a pagar pela própria companhia e com prejuízos para a mesma.

“Investigam-se ainda custos suportados pela TAP, S.A. com entidades ligadas à Atlantic Gateway, em momento prévio à venda direta, no contexto daquele processo, bem como factualidade respeitante ao período em que a gestão da TAP, S.A. esteve a cargo dos acionistas privados, envolvendo a situação fiscal de pessoas singulares e sociedades ligados a essa gestão”, revelam.

O diretor da Polícia Judiciária, Luís Neves, confirmou esta manhã as buscas. “Estamos a dar apoio e suporte ao DCIAP, com muitos meios da instituição. É a única coisa que posso dizer agora, porque as diligências estão em curso”, afirmou em declarações transmitidas pelas televisões.

É vantajoso para a privatização da TAP, em geral, que tudo o que há a investigar seja investigado cabalmente e rapidamente.

Marcelo Rebelo de Sousa

Presidente da República

O Presidente da República reagiu ao início da tarde às buscas. “Eu vi que há investigação relativamente à decisão de 2015. É um tema que já tinha sido falado. Depois durante muito tempo deixou de ser falado. É vantajoso para a privatização da TAP, em geral, que tudo o que há a investigar seja investigado cabalmente e rapidamente”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

“Uma operação como a privatização da TAP implica candidaturas, implica interesse de vários candidatos. Quanto menor for a dúvida sobre o que se passou, sobretudo há muito tempo, melhor para a posição de Portugal“, acrescentou.

TAP não comenta e Barraqueiro diz não ter realizado qualquer ato suspeito

Contactada, a TAP diz que “não comenta processos judiciais e colabora sempre com as autoridades em todas e quaisquer investigações”.

O Grupo Barraqueiro confirmou esta manhã, em comunicado, as buscas na sede da empresa, e “manifesta total confiança e tranquilidade na sua intervenção no processo de privatização da TAP, não existindo qualquer motivo de preocupação relativamente às diligências em curso”.

A empresa de transportas diz ainda que, “de uma forma voluntária, já tinha sido entregue no Ministério Público um dossiê com toda a informação relevante sobre o processo de privatização da TAP, incluindo extensa prova de não ter realizado qualquer ato menos claro ou suspeito de irregularidade“.

A investigação encontra-se a cargo de uma equipa mista constituída por duas magistradas do Ministério Público, dois inspetores da PJ, um inspetor da Autoridade Tributária e Aduaneira, uma inspetora da Segurança Social e dois especialistas do Núcleo de Assessoria Técnica da PGR. Presidem a buscas, em alguns dos locais visados, dez procuradores e sete juízes.

Privatização e pagamentos a ex-administradores na mira

O Governo de Passos Coelho vendeu em novembro de 2015 uma participação de 61% na TAP à Atlantic Gateway por 10 milhões de euros, com o novo acionista a comprometer-se com a injeção de 226,75 milhões de dólares na companhia em suprimentos. Dinheiro esse que foi entregue pela Airbus a uma empresa de David Neeleman, para serem colocados na TAP, em troca de um acordo para a aquisição de 53 aeronaves, que foi posteriormente aprovado pelo conselho de administração.

Na prática, a companhia aérea ficou presa a esse contrato, ao abrigo do qual continua a receber aviões da Airbus. David Neeleman vendeu a sua participação no capital da TAP em 2020 por 55 milhões de euros. Humberto Pedrosa viu a sua posição extinguida pelo aumento de capital do Estado.

Segundo a CNN, a queixa partiu de Pedro Nuno Santos, que foi ministro das Infraestruturas e Habitação entre 2019 e 2023, na sequência da uma auditoria interna. O negócio da venda da TAP em 2015 foi também alvo de uma auditoria da Inspeção Geral de Finanças, pedida pelo então ministro das Finanças Fernando Medina, que concluiu que a capitalização da companhia aérea na privatização foi feita com uma garantia da própria empresa, o que viola as regras do Código das Sociedades Comerciais.

Em causa na investigação está também pagamentos de 4,3 milhões de euros pela TAP aos administradores Humberto Pedrosa, David Pedrosa e David Neeleman através de um contrato de prestação de serviços. A auditoria da Inspeção-Geral de Finanças concluiu que o contrato era uma simulação e permitiu aos administradores “eximirem-se às responsabilidades quanto à tributação em sede de IRS e contribuições para a Segurança Social.”

(notícia atualizada às 19h15 com comunicado do MP sobre os arguidos)

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