Banca na mão de estrangeiros? Até pode ajudar, diz a Fitch

E se a maior parte das instituições financeiras em Portugal for parar à mão de estrangeiros? Nada contra, diz Roger Turró, responsável da Fitch, defendendo que até pode beneficiar os clientes.

Roger Turró, diretor do departamento de análise de bancos da Fitch, explicou ao ECO qual é o problema central do sistema financeiro português: a fraca qualidade dos ativos. Ou seja, os bancos não são todos iguais nem têm todos os mesmo problemas, mas mesmo que Portugal consiga desatar os nós do Novo Banco e da CGD, não fica tudo resolvido.

Sobre as soluções para o Novo Banco, o responsável defende aquela que tenha “menos custos” para o sistema financeiro. Mas reconhece que uma nacionalização pode acabar por ter um efeito negativo para o rating soberano, com custos para o Estado e para os contribuintes. Esta sexta-feira a Fitch vai-se pronunciar sobre o rating da República, mas os sinais não são positivos.

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Roger Turró avisa que o capital dos bancos em Portugal está vulnerável aos ativos problemáticos.Paula Nunes / ECO 30 janeiro, 2017
Como avalia a robustez do sistema bancário português?

Pensamos que tem alguns desafios, maioritariamente ligados à qualidade dos ativos, que afetam a rentabilidade e colocam pressão no capital. Vemos o balanço como vulnerável à baixa capacidade de geração interna de capital, mas também à elevada exposição aos ativos problemáticos. Não olhamos apenas para o malparado, mas também para os imóveis recebidos em dação e para os fundos de investimento de reestruturação empresarial.

Se resolvermos o problema do Novo Banco, e também da CGD, está tudo resolvido? Ou há mais por resolver no sistema bancário português?

Uma questão chave por abordar é o elevado volume de malparado. É verdade que se resolverem a situação na CGD — que é o maior banco do sistema financeiro, com uma quota de mercado superior a 20% — resolve-se uma grande parte. O Novo Banco também é um banco grande no país, o que seria também boas notícias. O BCP também anunciou no início deste mês um aumento de capital, que é positivo para o banco para aumentar a sua solvência. Mas diria que a fraca qualidade dos ativos é uma das nossas preocupações e é importante que seja abordada.

Quer dizer que as fragilidades estão por todo o sistema bancário?

Temos diferentes níveis de rating para os diferentes bancos. Em termos de viabilidade, que medem a força intrínseca de uma instituição financeira, o mais elevado é o do Santander Totta, com um BB+, que é o mesmo rating que atribuímos à dívida soberana. Depois temos o BPI com BB. Estes dois bancos têm indicadores de qualidade dos seus ativos acima da média. Por isso, isto não é um problema que se verifique de igual modo por todo o sistema bancário. O banco a que atribuímos pior rating é o Montepio, com B. Isto reflete a qualidade dos ativos, mas também as perdas reportadas e a fraca eficiência dos custos e os rácios de capital.

"Os bancos querem emprestar a bons projetos, a boas empresas e a clientes solventes.”

Roger Turró

Diretor do departamento de análise de bancos da Fitch

Concorda com a ideia de que o sistema bancário está à espera que a retoma económica o ajude a resolver alguns dos seus problemas, ao mesmo tempo que a economia espera pela ajuda do sistema bancário?

Há certamente laços entre os dois. Mas penso que não há dificuldades de financiamento e de liquidez para os bancos portugueses. Os bancos conseguem emprestar a boas empresas e a particulares. E vão fazê-lo, porque no final das contas, é a forma como fazem negócio. Penso que se a economia recuperar, isso vai suportar certamente uma redução mais rápida do malparado. Mas os bancos querem emprestar a bons projetos, a boas empresas e a clientes solventes.

Como é que interpretaria uma nacionalização do Novo Banco?

O mais importante é que a solução seja a que mais reduz os custos para o sistema bancário. Porque no final, é o sistema bancário que contribui para o fundo de resolução. Se o valor que têm de pagar ao fundo de resolução for mais elevado, levarão mais tempo a pagar a dívida.

Sob esse ponto de vista, uma nacionalização não seria uma má opção... Assumindo que o valor da nacionalização seria o melhor, quando comparado com as opções de venda.

Se esse for o caso, sim. Mas ao mesmo tempo, isto teria um custo para o Estado e para os contribuintes, o que teria de ser analisado pela nossa equipa de risco soberano para avaliar se teria um efeito no rating e na solvência do país.

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O diretor da análise de bancos da Fitch defende que a nacionalidade do capital dos bancos é indiferente. Se tornar os bancos mais competitivos, até pode fazer baixar os preços aos clientes, diz.Paula Nunes / ECO 30 janeiro, 2017
Os atrasos na definição da administração da Caixa podem ter prejudicado todo o sistema bancário?

Diria que não terá afetado todo o sistema bancário, mas é verdade que as alterações na gestão atrasam a implementação do plano de reestruturação do banco. Isto não são boas notícias para a entidade financeira. Mas esperamos que a nova gestão implemente o plano de reestruturação que estava desenhado no segundo semestre de 2016 e que seja capaz de o fazer.

Se a maior parte do sistema bancário português for parar às mãos de estrangeiros, pode ser negativo para as pequenas e médias empresas?

Penso que não faria diferença. Se estar em mãos estrangeiras significar que as entidades financeiras podem ser ainda mais solventes — como por exemplo, o Caixabank quer implementar algumas medidas de reestruturação para melhorar a eficiência do banco [BPI]. Se isto for feito, pode beneficiar os clientes, oferendo-lhes melhores preços. Aumenta a concorrência e quanto maior concorrência houver no país, menores serão os spreads e melhor para os clientes.

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