Líder do Grupo Alves Bandeira critica “esquizofrenia” na eletrificação e denuncia “anos perdidos” com burocracia, admitindo que “as empresas têm de pôr o Estado em tribunal para poderem ser ouvidas".
O Grupo Alves Bandeira aliou-se à Mota-Engil para instalar uma rede com 200 pontos de carregamento ultrarrápido de veículos elétricos, mas está há meses à espera que os primeiros carregadores sejam licenciados, tal como quando compra um camião para transportar combustível ou quer investir nos postos de abastecimento. “Há muitas quintinhas. Há muitas canetas. Há uns senhores que têm a caneta e dizem ‘eu é que mando’”, desabafa o empresário.
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Em entrevista ao ECO, Rui Bandeira até acredita que o ministro da Reforma do Estado tenha “vontade de fazer alguma coisa, mas conseguir é que é diferente”. Crítico dos “oligopólios” na banca, seguros, saúde ou telecomunicações — “cada vez somos mais mal servidos, mas no final temos de lá ir” –, o líder do grupo com 1.100 trabalhadores reconhece que não acompanhou o debate da reforma laboral, que ocupou os partidos políticos no último ano. “O nosso pessoal sabe que temos de render para podermos pagar mais e melhor”, afirma.
O Grupo Alves Bandeira faturou no ano passado cerca de 800 milhões de euros em termos consolidados. Como vão fechar o exercício de 2026?
Pode aumentar um bocadinho, mas tem a ver com o aumento dos preços. O combustível vale 80%, entre as marcas Alves Bandeira e Petroibérica, enquanto nos pneus [AB Tyres] fazemos cerca de 80 milhões e a EZU Energia [comercializadora de eletricidade comprada em 2022, em que detém uma participação de 51%] este ano vai chegar aos 50 milhões. No ano passado, o grupo ultrapassou os 30 milhões de EBITDA. É das coisas mais importantes para podermos crescer, estarmos saudáveis e avançarmos para outros projetos.
O mais recente é a Merezu, na área do carregamento de veículos elétricos, em que se aliaram à empresa de soluções de mobilidade da Mota-Engil (Remo). Como é que isso aconteceu?
É uma parceria com o grupo Mota-Engil, que tem fundos para ter o ferro, os carregadores – um dos acionistas deles muito forte são os chineses e eles próprios têm essas empresas do outro lado – e queriam um parceiro que pudesse desenvolver mais rapidamente a criação de postos. Juntou-se o útil ao agradável. Por outro lado, a nossa EZU vai fornecer depois a energia para esses carregadores. Há uma sinergia entre as duas partes. Eles têm maioria nessa empresa, cerca de 65%, e nós 35%.
O que pretendem fazer?
Instalar no território nacional uma rede com 200 pontos de carregamento ultrarrápido de veículos elétricos. Vamos pôr já 50 nos nossos postos de combustíveis da marca Alves Bandeira num prazo de dois a três anos. Fala-se muito da falta de carregadores, mas depois demora meses para licenciar um carregador a nível das entidades públicas. Era preciso mais celeridade. Os primeiros dois vão ser em Benavente, onde ainda não avançou precisamente por causa do licenciamento, e em Alenquer. E depois futuramente colocaremos noutros locais. Até pode acontecer o caso de este veículo Merezu não querer investir e nós diretamente podemos investir.

O que lhe parecem os planos europeus para a transição energética?
As decisões da Europa têm sido erráticas nesta questão elétrica. Defendo uma estratégia multienergia da qual faz parte também a eletricidade, mas que deve ser uma miscelânea de novas energias – com biocombustíveis, HVO [diesel verde], sintético, biometano, hidrogénio – a fazer parte do futuro.
Há uma coisa em que os políticos até hoje têm falhado – para não dizer que são hipócritas e escondem do povo. A receita do Estado com o ISP e o IVA engloba vários milhares de milhões de euros. Se isto hoje virasse tudo para o elétrico, de onde vinha esse dinheiro? Por outro lado, não há estruturas em Portugal para pôr tudo elétrico.
Não parece um grande entusiasta da eletrificação.
O elétrico vai fazer parte da nossa vida. Ponto final. Depois há canais e localizações em que ele é mais forte e outros em que não é. Para uma professora que vá todos os dias da Mealhada para Coimbra, que tenha um carrinho chinês, que hoje são todos bons, que pode carregar em casa, é o produto certo. Na pequena distribuição também. Agora, se está aqui e lhe ligam de repente para ir a Mirandela… Às vezes nem temos tempo para a nossa família, para ir tomar um café a casa dos nossos avós, quanto mais agora andar a programar todo e qualquer dia onde vou carregar o carro.
É um problema da infraestrutura que avança lentamente. Mas tudo vai evoluir. O que vai crescer mais não é o combustível fóssil: esse vai parar e em alguns sítios até regredir. Serão o elétrico – com melhores carros, mais baratos, com melhores baterias – e os biocombustíveis de nova geração. Agora, não podemos ser esquizofrénicos. Ainda por cima quando 78% de tudo o que é a indústria de transportes é a combustíveis fosseis. Era por esses que se devia começar de forma mais forte [a eletrificação].
De uma vez por todas, as empresas privadas têm de pôr o Estado – a instituição, o diretor ou o técnico – em tribunal para poderem ser ouvidas. Hoje ainda temos sítios em que, para marcar uma reunião, é através de uma plataforma. Não nos atendem.
Quais deviam ser as prioridades de política económica do Governo nesta fase? O que é que mais o preocupa enquanto empresário?
Um dos problemas do grupo Alves Bandeira e das empresas que conheço e que são nossos clientes é o licenciamento para o transporte de combustíveis. Compro um veículo hoje – estamos a falar em qualquer coisa como 250 mil euros – e depois estou entre meio ano a um ano para o licenciar no IMT. Quero fazer um investimento num posto de abastecimento – e cada vez vão ser mais multienergia – e demoro entre dois a três anos para ter a licença. E depois temos no dia-a-dia as entidades públicas a fazer fiscalizações punitivas, quando deviam ser preventivas. A burocracia do Estado faz-nos perder anos. As regulamentações são feitas em Bruxelas e depois seguidas pelos Estados – e impor impostos e coimas é uma maravilha. E quem trabalha nessas entidades tem um interesse próprio, por ganhar com isso, quando deviam ajudar. Tudo o que seja prevaricar e crime deve ser castigado. O que está mal é o funcionamento do Estado.
Esse diagnóstico é feito pela generalidade dos empresários e reconhecido até pelos políticos. Por que é que o Estado não consegue mudar isso?
Há muitas quintinhas. Há muitas canetas. Há uns senhores que têm a caneta e dizem ‘eu é que mando’. Isso é culpa dos vários governos que, para darem lugar a boys, criaram mais e mais instituições. E tudo o que é reformar hoje é difícil porque seria perder espaço para esses boys.
Este Governo até criou um Ministério da Reforma do Estado e nomeou um ministro, Gonçalo Matias, que até foi muito elogiado. Acha que vai ter alguma hipótese?
Dizem-me – eu não o conheço – que é uma pessoa espetacular em termos de capacidade. Terá a vontade de fazer alguma coisa; conseguir é que é diferente. Ou então, de uma vez por todas, as empresas privadas têm de pôr o Estado – a instituição, o diretor ou o técnico – em tribunal para poderem ser ouvidas. Hoje ainda temos sítios em que, para marcar uma reunião, é através de uma plataforma. Não nos atendem. Enquanto o Estado não mudar…
O nosso pessoal sabe que temos de render para podermos pagar mais e melhor. Sem isso não temos os bancos a apoiar, não temos créditos, não temos plafonds. Só com riqueza é que a gente cria riqueza. Temos de acabar com o ‘pensar pobre’.
O debate político no último ano esteve dominado pela reforma da legislação laboral, que acabou por ser bloqueada no Parlamento. Isso para vocês era um tema, o Governo devia insistir nesse dossiê?
Garanto-lhe que não conheço em pormenor a questão. A reforma laboral podia ter aspetos particulares que fossem melhorar, mas sinceramente nunca me preocupei com isso. Banco de horas? Temos outra coisa pior que nos afeta: hoje um motorista nosso faz quatro horas e tem de parar, quando temos nos hospitais médicos que fazem 48 horas seguidas — e isso envolve a nossa saúde. Um motorista que exceda em dois minutos já leva uma multa de 800 ou 1.000 euros.
Sou muito liberal em termos de funcionários. Temos 1.100 colaboradores e funcionamos como uma família. O nosso pessoal sabe que nós temos de render para podermos pagar mais e melhor. Sem isso não temos os nossos parceiros dos bancos a apoiar, não temos créditos, não temos plafonds. Só com riqueza é que a gente cria riqueza. Temos de acabar com o ‘pensar pobre’ para podermos ganhar mais. É essa a nossa forma de estar.

Qual é a vossa relação com a banca?
Cada vez temos mais oligopólios em Portugal. Seja nos bancos, nas seguradoras, na saúde, nas telecomunicações. Cada vez somos mais mal servidos, mas no final temos de lá ir. Quando temos um problema nos telemóveis ou na eletricidade, ligamos para uma empresa e é ‘prima 1, prima 2, e quando chega ao ‘prima 30’… nunca vi tantos primos [risos]. E depois está meia hora à espera. Isto é que afeta o povo português.
No caso dos bancos, o que está a dizer é que vê pouca diferenciação entre eles?
Tem muito a ver com relações e com o histórico que temos. Felizmente, trabalhamos com quase todos os bancos. Claro que os bancos hoje têm muita força – e muitos deles até com pouco contacto direto [com os clientes]. Mas no final do dia temos de trabalhar com eles. Ainda há dias a ministra [Maria da Graça Carvalho] falou dos preços dos combustíveis demorarem a baixar; e os bancos que nos últimos anos, em tempos de crise, foi quando mais ganharam dinheiro? Foi a vender tomates? Com isso ninguém se preocupou e quem pagou esses lucros ‘excessivos’ foram o povo e as empresas.
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“Há muitas quintinhas no Estado. Uns senhores têm a caneta e dizem ‘eu é que mando’”
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