Presidente do Grupo Alves Bandeira diz que acordo entre concorrentes abre “oportunidade para comprar alguns postos e revendedores” e que “era bom que os preços dos combustíveis pudessem baixar mais".
A fusão dos portefólios de downstream (que incluem refinarias e estações de serviço) da Galp e da Moeve, que a petrolífera portuguesa prevê agora fechar no segundo semestre, não assusta o Grupo Alves Bandeira, que até antevê “oportunidades” para somar postos e revendedores no final da operação. Rui Bandeira crê que o Estado “vai ter as garantias que quer, de certeza”, incluindo a salvaguarda da refinaria de Sines, embora lamente que “estratégica era a de Matosinhos”, que produzia químicos, detergentes, parafinas, betumes ou emulsões, que agora o país tem de importar.
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O disparo dos preços dos combustíveis nos últimos meses, por via do disparo da cotação do petróleo devido à guerra no Médio Oriente, pressionou os clientes dos transportes e da indústria, provocando uma redução das vendas em volume no grupo sediado na região de Coimbra. Sobre a descida agora mais lenta dos preços na bomba, denunciada por Maria da Graça Carvalho, o empresário lamenta que esteja a “desconfiar da ERSE, que é do Estado”, frisando que “os estudos mostram que o mercado livre está a trabalhar”.
Enquanto concorrente, como olha para o acordo entre Galp e a Moeve para fundir os portefólios de downstream, que inclui também as estações de serviço?
Há riscos e também oportunidades para quem está a abrir outras portas, como nós estamos neste momento, que nos possam tornar também um pouco mais verticais. Não como estas companhias, que têm refinarias. Isso está fora de causa. Mas que também possamos ter outro tipo de parceiros em que possamos importar produto, ter tancagem. Ao nível do retalho, esta fusão abrir potencialidade para que alguns postos e revendedores possam ser comprados por nós ou por outros. Penso que vai criar oportunidades de algum crescimento em algumas franjas que a gente também possa aproveitar. Porque eles não ficarão com todos os postos e há de haver revendedores de um lado e do outro.
Por outro lado, está a haver neste momento uma transição geracional, com pessoas com 60 ou 70 anos que têm os filhos noutras vidas e não têm continuação com as gerações que vêm a seguir. Há muita gente que quer sair do negócio e isso pode criar uma oportunidade para podermos crescer por aquisição ou por exploração ou por arrendamento. Quer seja desses postos [da Galp e da Moeve], quer seja de outros postos de outras marcas por essa questão geracional. Estou no setor há 50 anos, quando havia três produtos – gasóleo, super e normal – e hoje, com a transição energética, há dezenas de produtos. Nem havia lojas de conveniência; vendia-se uma ferramenta, uma correia, um óleo, um desperdício.

Quantos postos de combustível têm atualmente a nível nacional?
Estamos agora a completar a aquisição de mais uma dezena, por isso vamos a caminho dos 180 postos de abastecimento.
Porque querem aumentar essa rede?
Porque acreditamos no negócio. Quantos mais postos locais e lojas tivermos, melhor podemos crescer e criar mais riqueza também para os acionistas. Estamos a investir também muito já na área dos carregadores elétricos. São locais em que o povo vai continuar a parar, vai continuar a meter, vai continuar a estar.
Há muita gente que quer sair do negócio e isso pode criar uma oportunidade para podermos crescer por aquisição ou por exploração ou por arrendamento. Quer seja desses postos [da Galp e da Moeve], quer seja de outros postos de outras marcas por essa questão geracional.
No acordo entre a Galp e a Moeve, o Governo já disse que está a avaliar as “capacidades legais para atuar” no negócio, nomeadamente para assegurar que o país tem prioridade no fornecimento em situações de crise. Parece-lhe razoável?
Os Governos, tanto este como os anteriores, quando veem este tipo de coisas ficam sempre abananados. Mas esquecem-se que já lá trás… Hoje a REN não é portuguesa, na E-Redes e na EDP é o que é, as seguradoras são estrangeiras, os bancos são todos estrangeiros, tirando a Caixa Geral de Depósitos – por muito que haja forças para privatizar. Agora acordaram para criar um fundo soberano. Pode ser uma coisa muito interessante, mas não sabemos de onde vem o dinheiro. Conhecemos, por exemplo, o fundo norueguês, mas é com dinheiro que vem do petróleo. Criar um fundo sem dinheiro…
Entendo a ideia de certas coisas serem estratégicas e deverem estar controladas ou, em caso de crise, terem uma ação de resgate, em que a refinaria, por muito que fosse privada, durante esse tempo ‘somos nós que estamos aqui’. Mas é como tudo: um posto nosso, uma cadeia de supermercados, se houver uma guerra um Estado durante ‘x’ tempo pode ficar a supervisionar isso.
A ministra da Energia avisou também que o Executivo está a “fazer o seu trabalho” para garantir que a refinaria de Sines se mantém.
Primeiro vamos atrás. O Estado esteve mal – e neste caso estou a falar do Governo anterior – quando foi fechada a refinaria de Matosinhos, que era multifacetada em produtos, coisa que a de Sines não é. Tínhamos uma fábrica em Portugal que fazia químicos, detergentes, parafinas, betumes, emulsões, etc. E hoje importamos todos esses produtos. Estratégico era aquela [em Leça da Palmeira] derivado a fazer outros produtos. Ok, por muitos interesses – que não são tanto ambientais, mas que no futuro se vão mostrar de outra forma – acabaram com essa refinaria. E agora há esta fusão. Mas os acionistas da Galp e da Moeve entenderão que, em caso de crise mundial, o Estado tenha uma voz a dizer na segurança do abastecimento do país. Não ponho isso em causa.
Acha que o Estado português vai ter essas garantias?
Vai tê-las, de certeza. Acho que é normal, seja por um veto, por isto ou por aquilo. Nem eu discordava, se fosse um negócio connosco. Deus queira que não haja, mas esse tipo de azares pode suceder – e as companhias também precisam que o Estado lhes dê segurança, seja a nível militar ou de outras coisas. Portanto, o negócio está feito. Mesmo que agora vá para a Autoridade da Concorrência, penso que as coisas avançarão a breve trecho. E faz parte do mercado: tornar-se-á na parte ibérica uma grande organização.

Os últimos meses ficaram marcados pelo aumento do preço dos combustíveis, por via do disparo da cotação do petróleo devido à guerra no Médio Oriente. Como é que afetou a vossa atividade?
Esta alteração de preços é sempre má. Primeiro, vai prejudicar os nossos clientes, que trabalham nos transportes, na indústria. Têm serviços com custos tabelados a um preço de combustível e a maioria não tem revisão de preços perante [a subida do] gasóleo. Cria-lhes problemas e isso faz-nos perigar as imparidades e a rentabilidade desses clientes. O que queríamos era que o preço fosse muito mais baixo. Esta instabilidade não é boa. Era bom que pudessem baixar mais um bocadinho.
Que efeitos tem tido nos vossos postos de combustíveis?
Sentimos uma redução em volume. Houve um aumento quando houve aquelas subidas malucas dos preços, com as empresas a empanturrarem-se de gasóleo nos tanques, mas depois no mês seguinte as coisas baixaram. Não é bom para as empresas que são nossos clientes nem para o nosso negócio. Interessa-nos um preço mais baixo. Ainda por cima temos aqui ao lado Espanha com preços muito diferenciados devido à questão dos impostos e de outros apoios que o Estado dá às empresas. Por isso, tudo o que são postos ao longo da fronteira… e não são apenas os que estão a dez quilómetros da fronteira. Quem é da Guarda ou do Minho vai ao outro lado comprar aos supermercados e abastece o carro. Estamos a perder com isso.
Esta instabilidade no preço dos combustíveis não é boa para as empresas que são nossos clientes nem para o nosso negócio. Interessa-nos um preço mais baixo. Ainda por cima temos aqui ao lado Espanha com preços muito diferenciados devido à questão dos impostos e de outros apoios que o Estado dá às empresas.
Devia haver uma aproximação no IVA e no ISP?
Não nos esqueçamos que nos [preços dos] combustíveis, 50% a 60% são impostos. Devia haver uma igualização ao nível fiscal entre Portugal e Espanha. Até para haver menos risco de coisas falsas, como aconteceu nas importações de Espanha com o chamado Carrossel do IVA. [Um estudo da Epcol estimou perdas fiscais de cerca de mil milhões de euros em três anos associadas a combustível não declarado, com a importação não declarada do equivalente a cerca de 17 mil camiões-cisterna].
Mas o Governo decidiu pedir avaliações à ERSE e à ENSE por entender que os preços dos combustíveis sobem muito depressa e descem demasiado devagar. É uma perceção falsa?
Acho graça. Hoje os ministros vivem muito de dar opinião sobre tudo. A ERSE já disse que não encontra irregularidades na evolução dos preços pagos pelos consumidores [atribui a descida mais lenta aos custos da refinação, logística e armazenagem]. Está agora com essas conversas a desconfiar da ERSE, que é do Estado? Os estudos mostram que o mercado livre está a trabalhar. Se há negócio em que sabemos tudo ao dia e que está na internet, é o dos combustíveis. Já outros, como as grandes superfícies, aumentam os preços e fazem campanhas de 50% em produtos que tinham subido na semana anterior. Disso já ninguém fala.
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Sines no negócio Galp/Moeve? “Estratégica era a refinaria de Matosinhos e acabaram com ela”
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