Quem é a Knok, a empresa que vai gerir o primeiro centro de saúde privado em Portugal?

Empresa de Matosinhos especializada em teleconsultas assinou contrato de cinco anos com o Estado, no valor de 2,4 milhões de euros, para ficar a gerir uma Unidade de Saúde Familiar em Torres Vedras.

Esta segunda-feira marca um ponto de viragem nos cuidados de saúde em Portugal: o primeiro centro de saúde, financiado pelo Estado, mas gerido por privados, entra em funções. A Unidade de Saúde Familiar (USF) de São Pedro da Cadeira, em Torres Vedras, passa oficialmente a ter gestão privada, encarregando-se de prestar cuidados de saúde primários a 5.463 utentes. Mas, afinal, qual é a empresa que vai escolher e atribuir médicos de família a milhares de beneficiários do Serviço Nacional de Saúde (SNS)?

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Chama-se KnokHealth Portugal e, apesar do anglicismo, é 100% portuguesa. Fundada em 2015, em plena cidade de Matosinhos, a empresa que vai gerir o primeiro centro de saúde privado assinou um contrato com o Estado no valor de 2,4 milhões de euros e com a duração de cinco anos, após ter ganho um concurso público da Unidade Local de Saúde (ULS) do Oeste.

O cofundador e CEO da KnokHealth diz ao ECO que a motivação para entrar no concurso veio da “vontade de contribuir para ajudar um país onde 1,6 milhões de pessoas não têm médico de família”. “Queremos ser parte da solução. Iremos ser a entidade gestora da Unidade de Saúde Familiar modelo C (USF C), com os nossos colaboradores, mas utilizando e respeitando as regras do SNS. Não há nada que os outros centros de saúde ofereçam que o nosso não ofereça”, afirmou José Bastos.

Este é um dos 12 contratos públicos que a KnokHealth assinou nos últimos dois anos, sendo o mais recente com a ULS da Região de Aveiro, no valor de 58 mil euros, para aquisição de serviços médicos para reforço assistencial em cuidados de saúde primários. No entanto, o setor público representa pouco menos de 15% da faturação anual da KnokHealth.

No ano passado, esta empresa do distrito do Porto teve um volume de negócios de 10,1 milhões de euros, o que representou um crescimento de 34% em relação ao ano anterior, e lucrou 1,4 milhões de euros. Em declarações ao ECO, José Bastos explica que, nos últimos anos, as vendas têm subido devido à “penetração em seguradoras e planos de saúde privados”, ou seja, contratos com companhias de seguros e outros grupos de saúde. O número de trabalhadores também aumentou de 55 em 2024 para mais de 70 no final do ano passado.

José Bastos, cofundador e CEO da Knok

O CAE da KnokHealth confirma que a sociedade nortenha se dedica à prática clínica geral, nomeadamente prestação de serviços médicos, de consulta e cuidados de saúde humana prestados por médicos de clínica geral e por médicos especialistas, ao domicílio ou outros locais. E ainda atividades e atos médicos relacionados com o diagnóstico ao tratamento e terapêutica, bem como atos complementares.

A Knok lucrou 1,4 milhões de euros em 2025 e é detida a 100% pela sociedade Seems Possible Lda., dos cofundadores José Bastos e João Magalhães.

A teleconsulta e a medicina via digital são as especialidades da “Knok” – o nome pela qual é conhecida – e vão estar presentes neste centro de saúde de Torres Vedras. Como a empresa tem a tecnologia disponível, vai tirar proveito dela e criar um mecanismo de resposta ao utente durante 24 horas através de uma linha de apoio “caso algum dos quase seis mil inscritos na USF tenham necessidade fora do período em que estamos abertos”, revela o CEO, acrescentando que é “a existência da tecnologia que permite aplicá-la neste cenário”.

Novos ‘donos’ estendem horário do centro de saúde

O horário de funcionamento é outra das novidades. Os ‘donos’ do centro de saúde de São Pedro da Cadeira, o primeiro do país neste modelo de Estado financiador e privado gestor, vão alargar o tempo em que terão as portas abertas nos dias úteis: em vez das atuais 8h-16h será 8h-20h.

Questionado sobre os planos para o edifício, pertencente à Câmara Municipal de Torres Vedras, que cedeu a utilização à empresa e os direitos de renovação, o cofundador e CEO da Knok garante que o espaço “é novo e está numa condição excelente, portanto não faz sentido mudar o que está bem”. “Temos requisitos que estamos e vamos cumprir. É uma operação independente do resto do negócio da Knok”, salienta José Bastos. O edifício em causa é recente, porque foi inaugurado em maio de 2025 na sequência de um processo de modernização cofinanciado pelo PRR – Plano de Recuperação e Resiliência em cerca de 600 mil euros.

Por detalhar ficaram os recursos humanos que estarão nesta USF C, embora tenham de ser médicos especialistas de medicina geral e familiar, enfermeiros e assistentes técnicos. Assim, a equipa de profissionais de saúde que agora faz parte deste centro de saúde – da Função Pública – terá de ser realocada noutras instituições, uma vez que quem pertence a uma USF C tem de estar desvinculado do Estado há, pelo menos, três anos.

O diploma que alterou o regime jurídico das unidades de saúde familiar é claro neste tópico: “Os profissionais de saúde a integrar nas USF modelo C, bem como os sócios ou acionistas da entidade contratada para a sua constituição, não podem ter ou ter tido qualquer tipo de vínculo contratual por tempo indeterminado ou sem termo, consoante o caso, ao setor público da saúde nos últimos três anos”. O ECO sabe que alguns funcionários deverão passar para outros centros de saúde do concelho de Torres Vedras, nomeadamente uma enfermeira e uma administrativa para a vila de A-dos-Cunhados.

A criação da USF C de São Pedro da Cadeira integra uma estratégia mais ampla da instituição para garantir o acesso universal aos cuidados de saúde primários e reduzir o número de cidadãos sem médico de família. Representa um passo decisivo para reforçar a capacidade assistencial da ULS Oeste, promovendo soluções inovadoras e sustentáveis para aumentar a acessibilidade, aproximar os cuidados das populações e garantir uma resposta de maior qualidade.

Conselho de administração da ULS Oeste

As USF de modelo C constituem forma distinta de organização dos cuidados de saúde primários, viabilizando a gestão por entidades do setor privado ou social, mediante contrato com o SNS, sujeito a objetivos assistenciais, indicadores de desempenho e mecanismos de monitorização. O objetivo é que estes modelos sejam instalados em territórios com dificuldades na cobertura de médicos de família, como é o caso da região do Oeste.

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