Seis em cada dez euros depositados nos bancos nacionais pertencem aos 10% mais ricos
Contam-se 202 mil milhões de euros depositados na banca nacional, mas mais de metade pertence a uma fatia muito estreita da população e o perfil desses depositantes é mais homogéneo do que parece.
- Portugal apresenta uma elevada concentração de poupança, com 60% dos depósitos bancários nas mãos dos 10% mais ricos, segundo o Banco de Portugal.
- A maioria dos depósitos é detida por indivíduos com ensino superior e mais de 50 anos, refletindo desigualdades na distribuição da riqueza financeira.
- A aversão ao risco das famílias contribui para a estabilidade dos depósitos, que permanecem como a principal forma de poupança, evidenciando desigualdades sociais.
Portugal é um país de aforradores, que é espelhado nos mais de 200 mil milhões de euros que as famílias têm aplicados em depósitos bancários. Mas poupar, pelo menos através de depósitos bancários, não é uma prática distribuída de forma equilibrada pela sociedade.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
Segundos os dados do Banco de Portugal, publicados esta quinta-feira no relatório “Sistema Bancário Português: Desenvolvimentos Recentes”, há uma concentração assinalável desta poupança, com os depósitos das famílias a acumularem-se, sobretudo, no topo da pirâmide financeira, entre quem tem mais anos de vida, mais qualificações académicas e, em regra, mais dinheiro guardado.
O dado mais revelador do relatório é também o mais desigual, com o Banco de Portugal a apontar que “cerca de 60% do montante total de depósitos é detido pelos 10% de agregados familiares com maior riqueza financeira.” Ou seja, uma minoria muito estreita da população concentra a esmagadora maioria das poupanças depositadas na banca, com seis em cada dez euros depositados nos bancos nacionais a ter como dono famílias que se encontram entre os 10% mais ricos do país.

O documento sublinha também que “a concentração de depósitos no topo da distribuição traduz essencialmente a distribuição subjacente da riqueza financeira”, o que coloca os depósitos bancários como um espelho fiel das assimetrias económicas do país, mais do que como um instrumento de aforro democratizado.
Esta realidade tem implicações diretas para os bancos, dado que uma parte muito significativa do seu financiamento estável depende de um grupo de clientes que, em teoria, tem mais alternativas de investimento e que, por isso, pode ser mais sensível a mudanças nas condições de mercado.
O perfil do depositante típico em Portugal tem um traço marcante relativamente ao nível de escolaridade dos aforradores. Segundo os dados do Banco de Portugal, “cerca de 58% do montante total de depósitos é detido por indivíduos com ensino superior”, enquanto apenas 17% correspondem a titulares com ensino secundário, ficando os restantes 25% distribuídos por níveis de escolaridade inferiores.
Cerca de 85% dos agregados reportam não estar dispostos a aceitar qualquer risco nos seus investimentos financeiros [uma proporção “acima da média europeia de 67%].
A idade é também uma variável com peso. “Cerca de 73% do montante total concentra-se em agregados cuja pessoa indicada tem mais de 50 anos”, indica o relatório, ao mesmo tempo que 40% dos depósitos pertencem a reformados, uma população para a qual estes produtos funcionam, antes de mais, como um instrumento de preservação do capital e de gestão de liquidez quotidiana, e não tanto de criação de riqueza. Entre a população ativa, são os trabalhadores por conta de outrem que mais depositam, com 43% do total.
A aversão ao risco das famílias portuguesas é também um dos motores estruturais deste comportamento e de todas as dinâmicas relacionadas com os depósitos bancários. “A preferência das famílias portuguesas por depósitos é consistente com a sua atitude face ao risco financeiro”, destaca o Banco de Portugal, notando que “cerca de 85% dos agregados reportam não estar dispostos a aceitar qualquer risco nos seus investimentos financeiros”, uma proporção “acima da média europeia (67% no Inquérito à Situação Financeira das Famílias de 2020)”.
Os depósitos bancários – garantidos até 100 mil euros pelo Fundo de Garantia de Depósitos – oferecem precisamente a certeza que estas famílias procuram: reembolso garantido, sem oscilações e sem surpresas desagradáveis. Este comportamento conservador resulta também num mercado de depósitos invulgarmente estável. “A volatilidade dos depósitos tem sido relativamente baixa, sobretudo no segmento das famílias, sem saídas abruptas expressivas”, assinala o relatório.
Os três maiores bancos detinham, em 2025, cerca de 57% dos depósitos de famílias, um nível que o Banco de Portugal classifica como “moderado”.
A única exceção recente ocorreu no início de 2023, quando a subida das taxas de juro provocou uma redução trimestral de 4% nos depósitos de famílias, fruto da migração para Certificados de Aforro e do aumento das amortizações antecipadas de crédito à habitação. Fora esse episódio, o dinheiro das famílias tem permanecido nos bancos com uma fidelidade que poucos outros mercados conseguem replicar, dando aos bancos uma base de financiamento sólida e previsível.
Em termos de concentração do mercado, os três maiores bancos detinham, em 2025, cerca de 57% dos depósitos de famílias, um nível que o Banco de Portugal classifica como “moderado”, num setor onde, ainda assim, a dispersão entre instituições tem vindo a aumentar ligeiramente.
Os depósitos bancários continuam, portanto, a ser o produto financeiro de eleição das famílias, não por falta de alternativas, mas por uma combinação de aversão ao risco, acumulação de poupança ao longo da vida e confiança no sistema de garantia.
O retrato que emerge do relatório do Banco de Portugal é o de um país em que poupar, para a maioria, significa depositar; e em que os que mais poupam são também os que têm mais, os que estudaram mais e os que viveram mais tempo. Uma fotografia que diz tanto sobre os hábitos financeiros dos portugueses como sobre as desigualdades que persistem na forma como a riqueza se distribui em Portugal.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Seis em cada dez euros depositados nos bancos nacionais pertencem aos 10% mais ricos
{{ noCommentsLabel }}