Bancos contrariam histórico e mantêm torneira do crédito aberta face à instabilidade global

O fantasma de 2008 e da troika não assombra o mercado. O Banco de Portugal garante que o acesso ao financiamento bancário resiste praticamente ileso aos recentes choques e à forte incerteza mundial.

Sempre que a incerteza económica dispara, a banca fecha a torneira do crédito a empresas e famílias. Foi assim na crise financeira de 2008 e foi assim no período da crise da dívida soberana em 2011, mas não está a ser assim em 2026.

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Segundo um estudo do Banco de Portugal incluído no “Inquérito aos bancos sobre o mercado de crédito”, divulgado esta terça-feira, a combinação das tarifas comerciais dos EUA com a guerra no Irão não se repetiu com a mesma intensidade no mercado de crédito, ao contrário do que sucedeu em crises de confiança anteriores.

O relatório do regulador analisa seis períodos de instabilidade entre 2008 e 2026 e identifica a perceção de risco como o principal fator por detrás do aperto de crédito nesses momentos.

A oferta de crédito a empresas tornou-se mais restritiva em todos os períodos de maior incerteza, com exceção do período de aumento das tarifas comerciais dos EUA.

Banco de Portugal

A perceção dos riscos surge de forma consistente como o principal fator determinante do aperto da oferta em períodos de maior incerteza, tanto para as empresas como para os particulares, refletindo o papel central das perspetivas macroeconómicas nas decisões dos bancos nestes períodos”, lê-se no estudo do Banco de Portugal.

Esse padrão foi particularmente visível na crise financeira global e na crise da dívida soberana, quando o receio sobre a evolução da economia levou os bancos a restringir a concessão de financiamento.

Nesses dois períodos, o aperto foi reforçado pelas dificuldades financeiras dos próprios bancos, já que “os fatores associados ao custo de financiamento e restrições de balanço dos bancos assumiram igualmente relevância, tanto para empresas como para particulares”, numa altura em que “os balanços do setor bancário se encontravam sob forte pressão”, destaca o estudo do regulador.

A situação mais recente diverge desse padrão, embora com nuances. O Banco de Portugal nota que “a oferta de crédito a empresas tornou-se mais restritiva em todos os períodos de maior incerteza, com exceção do período de aumento das tarifas comerciais dos EUA”, período em que o índice de incerteza atingiu valores próximos dos registados durante a pandemia, segundo o próprio relatório.

No período mais recente, que inclui a guerra no Irão, o crédito às empresas registou “um aperto ligeiro, de magnitude semelhante à registada no choque inflacionário”, enquanto no crédito a particulares “os critérios de concessão de crédito a particulares não têm tido alterações significativas”.

Sobre o conjunto desta fase, a análise do Banco de Portugal conclui que “os fatores subjacentes à evolução da oferta e da procura não sugerem que a incerteza tenha sido um fator importante a condicionar a evolução do crédito”.

A análise do regulador recorda ainda que “a pandemia esteve associada a um aumento da restritividade da oferta em ambos os segmentos de crédito”, que ilustra diferenças entre os seis episódios analisados.

Juros animam habitação e empresas pedem mais fundos

Do lado da procura, o comportamento também não seguiu um padrão único ao longo do tempo, com o Banco de Portugal a notar que, na crise financeira global e na crise da dívida soberana, “a procura de crédito por parte das empresas e dos particulares reduziu-se”, enquanto na pandemia “a procura de empréstimos por empresas aumentou, enquanto a dos particulares diminuiu”.

Já no período mais recente, segundo o regulador, “a procura de crédito tem aumentado ligeiramente, tanto no caso das empresas como dos particulares”.

No crédito à habitação, o Banco de Portugal associa este aumento da procura a fatores específicos do momento atual, referindo que “o aumento da procura de crédito à habitação esteve associado à evolução das taxas de juro, assim como ao regime regulamentar e fiscal no mercado da habitação”.

Do lado das empresas, o regulador atribui a evolução da procura às necessidades de financiamento, indicando que estas “são o principal fator que justifica a evolução da procura de crédito por empresas durante os períodos de maior incerteza”, com contributos das componentes ligadas a existências, fundo de maneio e renegociação de dívida.

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