Portugal tropeçou na correção digital dos exames. O que fizeram os outros países?
Portugal estreou este ano a correção digital dos exames nacionais, com vários problemas técnicos. Lá fora, os países seguiram caminhos diferentes: da transição total da Finlândia ao recuo da Suécia.

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As falhas registadas na primeira experiência portuguesa de correção digital dos exames nacionais reacenderam o debate sobre a digitalização da avaliação. Mas Portugal não é um caso isolado. Nos últimos anos, vários países reformularam os seus sistemas de exames, seguindo ritmos e modelos distintos: enquanto a Finlândia demorou anos a concluir a transição para exames totalmente digitais, França optou por manter as provas em papel e digitalizar apenas a classificação, num modelo semelhante ao português. Já a Suécia decidiu adiar a implementação depois de um projeto-piloto ter sofrido falhas técnicas.
A experiência internacional mostra que não existe um modelo único para digitalizar exames nacionais. A maioria dos países optou por processos graduais, com fases de testes, adaptação tecnológica e formação de professores, antes da generalização do novo sistema.
A Finlândia é apontada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) como um dos exemplos mais avançados de digitalização dos exames nacionais. A reforma começou em 2012, com o desenvolvimento da plataforma Abitti pelo Matriculation Examination Board (YTL), entidade responsável pelos exames nacionais do ensino secundário.
Depois de quatro anos de preparação, os primeiros exames digitais realizaram-se em 2016, nas disciplinas de Geografia, Filosofia e Alemão. O processo foi sendo alargado progressivamente até 2019, quando todos os exames nacionais passaram a decorrer em formato digital.
Jaime Carvalho e Silva, professor de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, acompanhou de perto a implementação deste modelo e chegou mesmo a recomendá-lo quando participou na auditoria à primeira prova de aferição digital realizada em Portugal, em 2018, o exame de matemática do 8.º ano.
Na altura, o professor já defendia que Portugal deveria olhar para a experiência finlandesa: “Quando dei o parecer disse: olhem para a Finlândia. Aquilo é um sistema de exames que, tanto quanto sei, funciona bem.”

“Conheço o caso da Finlândia, que tem os exames totalmente digitais e que acompanhei ao longo dos anos quando o sistema começou a ser testado, implementado e generalizado. Agora todos os exames finais do ensino secundário são em formato digital”, explica ao ECO Jaime Carvalho e Silva.
Segundo o docente, o sucesso do modelo finlandês não resulta apenas da tecnologia utilizada, mas sobretudo da preparação feita ao longo de vários anos. Professores e alunos tiveram tempo para se adaptar ao sistema e utilizam a mesma plataforma durante o processo de ensino, o que reduz o impacto da realização dos exames.
Nem todos seguiram o caminho da Finlândia
Apesar de a Finlândia ser um dos casos mais avançados de digitalização dos exames nacionais, a experiência internacional mostra que os restantes países optaram por ritmos e modelos distintos.
Na Estónia, a transição continua em curso. De acordo com o Conselho de Educação e Juventude (HARNO), os exames nacionais de língua estónia e de línguas estrangeiras já decorrem em formato digital, estando prevista a extensão do modelo a outras disciplinas até 2027. A realização das provas é suportada pelo Sistema de Informação para Exames (EIS), a plataforma nacional utilizada para gerir a aplicação e a classificação dos exames.
Também a Nova Zelândia está a avançar de forma gradual. A New Zealand Qualifications Authority (NZQA), responsável pelos exames nacionais, permite que as escolas adiram progressivamente ao modelo digital, à medida que reúnem as condições técnicas necessárias. A transição não é feita em simultâneo para todas as disciplinas ou estabelecimentos de ensino, procurando reduzir os riscos associados à implementação.
França optou por uma solução intermédia. Desde 2021, os alunos continuam a realizar os exames nacionais em papel, mas as folhas de resposta são digitalizadas pelas escolas e corrigidas online através da plataforma Cyclades, desenvolvida pelo Ministério da Educação francês. O sistema permite aos professores corrigir, anotar e validar as provas digitalmente, reduzindo o risco de perda das folhas de resposta e simplificando a gestão do processo de classificação.
A experiência da Suécia mostra também que a transição para exames digitais pode enfrentar obstáculos. Em 2017, a Agência Nacional Sueca para a Educação (Skolverket) recebeu do Governo a missão de desenvolver uma solução para introduzir gradualmente exames nacionais digitais. Durante o desenvolvimento do novo modelo, foram identificados problemas técnicos na plataforma e uma falha relacionada com a proteção de dados pessoais, que permitiu, em alguns casos, o acesso a dados de alunos por utilizadores que não deveriam ter essa permissão.
A digitalização dos exames continuou, contudo, a ser uma prioridade para o Governo sueco. Em abril de 2025, foi anunciado um reforço de 82 milhões de euros ao investimento já realizado no desenvolvimento da plataforma, que rondava os 700 milhões de euros, de acordo com o jornal Sweden Herald.
No entanto, em fevereiro deste ano, a Skolverket anunciou que, até novo aviso, os testes nacionais continuariam a ser realizados em papel. Em comunicado, o organismo explicou que “o trabalho para introduzir a correção centralizada de exames digitais continuará, mas a implementação precisa de ser adaptada”, acrescentando que será apresentado um novo plano de implementação acompanhado por um calendário revisto.
Portugal manteve os exames em papel. O que falhou na correção digital?
Ao contrário da Finlândia, Portugal não avançou para a realização dos exames nacionais em formato digital. Este ano, os alunos continuaram a responder às provas em papel, mas, pela primeira vez, cerca de 300 mil exames do ensino secundário foram digitalizados para classificação.
A primeira fase ficou marcada por vários constrangimentos técnicos no novo modelo. As falhas na digitalização das folhas de resposta e no processo de classificação obrigaram ao adiamento da divulgação das notas, à revisão de milhares de provas devido a erros na parametrização das matrizes de classificação e ao adiamento do arranque da 2.ª fase.
A primeira experiência de digitalização de exames nacionais em maior escala aconteceu em 2025, com a prova de Filosofia do 11.º ano, que contou com 23.473 alunos inscritos. Questionado sobre as falhas apontadas pelo antigo presidente do Júri Nacional de Exames, Fernando Alexandre afirmou que a informação transmitida à tutela foi de que o piloto “decorreu sem problemas de maior”.
O ministro da Educação rejeita que a reforma esteja a ser feita sem planeamento. “A reforma que estamos a fazer não é cega, é pensada”, afirmou Fernando Alexandre, numa entrevista à RTP, sublinhando que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) aceitou acompanhar e avaliar a transformação do sistema educativo português.
A reforma que estamos a fazer não é cega, é pensada.
“A OCDE aceitou pela primeira vez monitorizar e avaliar a reforma do sistema educativo em curso. É a primeira vez que eles aceitaram fazer isso, precisamente porque acreditaram no que estamos a fazer”, afirmou o governante.
Na perspetiva do ministro, os principais problemas identificados este ano estiveram relacionados com o software, nomeadamente com a forma como a plataforma interagia com os classificadores.
Fernando Alexandre defende ainda que a decisão de manter os exames em papel evitou riscos acrescidos para os alunos, como falhas de conectividade ou interrupções de energia durante a realização das provas.
“O Governo sueco decidiu recuar na feitura dos exames digitalmente, que era o que estava decidido em Portugal em 2024, e eu não tive dúvidas nenhumas de que isso era um risco enorme”, afirmou.
Segundo o ministro, os erros registados resultaram sobretudo do processo de digitalização das provas, que foi feito de forma descentralizada, em cada escola, e não de forma centralizada.

“Os erros que foram identificados resultaram em grande medida da digitalização ter sido descentralizada. Não foi feita centralizada com os equipamentos modernos que foram adquiridos para esse efeito e que estão na Imprensa Nacional-Casa da Moeda”, afirmou.
Apesar das falhas, o governante considera que uma das vantagens do modelo digital é permitir identificar erros com maior rapidez e transparência.
“Em todos os processos de avaliação há erros e uma das vantagens deste sistema digital é que os erros são transparentes e não é possível escondê-los, existem, são identificados e são com rapidez como é por vezes impossível em papel”, disse.
Questionado sobre a possibilidade de os mesmos problemas se repetirem na segunda fase dos exames nacionais, Fernando Alexandre admitiu que o processo poderia ser abandonado. “Diria que este processo acabou em Portugal. Voltamos ao papel. Seria um falhanço muito grande para o sistema educativo”, afirmou.
Digitalização exige tempo. Mas não deve ser uma cópia do papel
Para Jaime Carvalho e Silva, as dificuldades registadas em Portugal não devem servir de argumento para abandonar a digitalização dos exames, mas antes para corrigir os problemas identificados e aperfeiçoar o modelo.
“Se é digital, mas, na realidade, é uma cópia do papel, o digital é um pouco ilusório”, afirma o professor de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.
Se é digital, mas, na realidade, é uma cópia do papel, o digital é um pouco ilusório.
Na perspetiva do professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, a digitalização só faz sentido se permitir avaliar competências que os alunos irão utilizar no ensino superior e no mercado de trabalho.
“Não estamos a preparar os alunos para a vida, nem vamos avaliar as competências que vão ser importantes no mundo do futuro”, defende.
O docente lamenta, por isso, que Portugal tenha aproveitado a digitalização apenas para alterar o processo de classificação das provas sem introduzir mudanças mais profundas no modelo de avaliação, como aconteceu na Finlândia.
“O que eu lamento é que não se tenha avançado como avançou a Finlândia no sentido de incluir as competências digitais de cada disciplina na avaliação final, que é um sinal de que essas competências são importantes no sistema escolar porque são importantes para o futuro”.
A complexidade desta transição é também sublinhada por Joana Andrade, especialista em métrica de exames. Em declarações à SIC Notícias, a investigadora recordou que o Reino Unido iniciou a digitalização da correção dos exames em 2005 e levou vários anos a consolidar o processo.
“Estamos a ver apenas a ponta do icebergue, que é a plataforma. Na verdade, este é um processo extremamente complexo, que exige uma logística, uma organização e uma articulação muito consideráveis. Quando uma das partes falha, é como uma fila de dominós: começa tudo a cair“, afirmou.
Estamos a ver apenas a ponta do icebergue, que é a plataforma. Na verdade, este é um processo extremamente complexo.
A especialista alertou ainda que, no caso português, os problemas não se limitaram à plataforma informática, referindo que foram também apontadas dificuldades na digitalização das provas e na associação correta entre as imagens digitalizadas e os exames dos alunos.
A necessidade de aceitar um período de adaptação é também reconhecida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). No relatório OECD Digital Education Outlook 2023, a organização refere que a implementação de exames digitais exige uma forte “aceitação do risco” (risk appetite), reconhecendo que algumas falhas são inevitáveis durante a transição e que parte da aprendizagem resulta de uma lógica de learning by doing (“aprender fazendo”). Para ilustrar esta ideia, a OCDE cita um estudo da entidade reguladora dos exames em Inglaterra (Ofqual), baseado nas experiências da Finlândia, de Israel e da Nova Zelândia.
Jaime Carvalho e Silva considera que Portugal acabou por seguir, ainda que involuntariamente, essa lógica. “Desse ponto de vista, podemos dizer que Portugal teve coragem e vai aprender fazendo. Mas é curioso que a própria OCDE diga que é preciso alguma coragem para implementar este tipo de sistema.”
O desafio, segundo os especialistas, passa agora por garantir que os problemas identificados na primeira experiência servem para corrigir o modelo e não para interromper um processo que outros países demoraram anos a construir.
“O importante é primeiro garantir que nenhum aluno seja prejudicado, mas depois aprender com o sistema deste ano para que no próximo não haja absolutamente nenhum problema e funcione bem, porque a avaliação digital é claramente uma evolução desejável”, afiança Jaime Carvalho e Silva.
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