Dos “trabalhadores fantásticos” à possível fusão com o BCP. O Novobanco pelos olhos de Horta Osório
Horta Osório sempre defendeu o valor do Novobanco e defendeu uma solução rápida para devolver o capital do banco a mãos privadas. Sobre a venda aos franceses do BPCE, destaca que o negócio é positivo.
O reputado banqueiro português António Horta Osório prepara-se para regressar à banca nacional, para ocupar um cargo no conselho de administração do Novobanco, onde deverá desempenhar a função de vice-chairman. Sobre o banco que vai integrar, Horta Osório sempre defendeu o valor de uma instituição com mais de 150 anos de história, “trabalhadores fantásticos” e a entidade com a melhor relação com as empresas. Chegou a defender publicamente as sinergias de uma fusão com outro grande banco do setor em Portugal, o BCP, mas, no fim, elogiou a venda aos franceses do BPCE: “Um bom desfecho”, considerou. Quanto ao futuro, fala de um setor “muito forte”, bem capitalizado e a atravessar um dos melhores momentos nas últimas três décadas.
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O colapso do BES, em 2014, e a consequente resolução, que deu origem ao Novobanco, fez correr muita tinta. Entre grupos de lesados, muitos milhões injetados para salvar o banco e um longo percurso até recuperar a rentabilidade passaram-se vários anos. O regresso da instituição a mãos privadas ficou fechado com a venda por 6,7 mil milhões de euros aos franceses do BPCE, que compraram a posição da Lone Star e do Estado e do Fundo de Resolução, passando a controlar a totalidade do capital. Com o negócio fechado, os franceses estão a preparar mudanças, com um novo conselho de administração, que deverá incluir o ex-CEO do Lloyds. Mas o que pensa o banqueiro do Novobanco?
“Um banco que tem 150 anos de história, com trabalhadores fantásticos que tinham a melhor relação com as empresas em Portugal – e que vão querer ajudar os seus clientes da melhor maneira possível e preservar o valor do banco -, e que tem 15% do mercado português, é um ativo sem dúvida atrativo“, afirmou o então líder do Lloyds Banking Group, em setembro de 2014, poucos meses após o colapso do grupo. Já nessa altura, o banqueiro destacava as vantagens de apostar numa maior concentração do setor, destacando que os “bancos em Portugal, que têm posições grandes, mas não dominantes, têm enormes sinergias, interesse e complementaridade no Novobanco”.

A ideia de um casamento com o BCP foi, aliás, defendida por Osório ao longo dos anos. “Portugal é um mercado pequeno para ter cinco grandes bancos”, disse, em entrevista ao Expresso em 2024. “Temos um banco público já com 25% do mercado, que tem sido muito bem gerido pelo dr. Paulo Macedo. Mas tem já 25% do mercado, o que assegura uma concorrência equilibrada entre setor privado e setor público. Temos mais de 40% do setor nas mãos de bancos espanhóis, o que é mais do que suficiente. Resta o BCP, que poderia perfeitamente, como, aliás, a gestão já falou, equacionar uma possível fusão com o Novo Banco”, defendeu.
Um banco que tem 150 anos de história, com trabalhadores fantásticos que tinham a melhor relação com as empresas em Portugal – e que vão querer ajudar os seus clientes da melhor maneira possível e preservar o valor do banco -, e que tem 15% do mercado português, é um ativo sem dúvida atrativo.
Esta mesma opinião já tinha sido defendida noutras entrevistas, nas quais Horta Osório destacava que “os portugueses não se esquecem de que tiveram de contribuir com mais de quatro mil milhões de euros há cerca de sete anos para a Caixa Geral de Depósitos, o que custou mais de mil euros por cada família portuguesa. Não querem que isso se repita, como não querem ter um risco maior”, numa referência a um “casamento” do banco público com o Novo Banco, o que iria implicar colocar mais capital na entidade, em vez de o devolver ao Estado sob a forma de dividendos, para este dinheiro reverter a favor dos contribuintes.
Horta Osório era favorável a uma venda rápida, que permitisse à instituição financeira ter uma gestão e um plano estratégico para o futuro. Logo em 2015, lamentou que o Novobanco não tivesse sido vendido. “É muito importante que o Estado não seja dono de bancos que devam estar no setor privado. É importante que esses ativos sejam rapidamente devolvidos ao setor privado. O Novobanco tem que ter um novo dono para ter uma direção clara de políticas para a frente. E que possam permitir à gestão fazer um plano estratégico com um certo horizonte e as equipas terem uma noção de qual é a direção do banco“, argumentava.
A venda ao BPCE foi, na sua opinião, “um bom desfecho”, mostrando-se favorável ao facto da entidade ter sido comprada pelos franceses, que não têm uma expressão significativa na banca nacional. “Também me parece positivo o interesse que o Novobanco despertou em termos de investimento direto estrangeiro. É positivo para os trabalhadores do Novobanco, para a concorrência, para as empresas nacionais e para o país em geral”, destacou na mesma entrevista ao Negócios, no verão passado.
Também me parece positivo o interesse que o Novobanco despertou em termos de investimento direto estrangeiro. É positivo para os trabalhadores do Novo Banco, para a concorrência, para as empresas nacionais e para o país em geral.
Depois de um período de recuperação da banca, o banqueiro elogia a evolução do setor em Portugal. “O sistema financeiro português está muito forte, os bancos estão bem capitalizados, têm bons níveis de liquidez, boa qualidade de serviço, bons níveis de eficiência. O sistema está num dos melhores momentos de que me recordo nos últimos 30 anos“, considera.
No ano marcado pela compra do BPCE, o Novobanco registou um lucro histórico de 828 milhões de euros no ano passado, mais 11% em relação ao anterior. Este desempenho foi conseguido mesmo com a queda da margem, que foi compensada com comissões, venda de dívida pública, recuperação de créditos, adicional de solidariedade e menos provisões.
Na mensagem que acompanha os resultados, o CEO Mark Bourke destacou o “avanço decisivo no processo de venda do banco” ao BPCE, “um passo estruturante para o nosso futuro, que permitirá potenciar escala, acelerar a inovação e reforçar o apoio ao tecido económico nacional”. “Com estes resultados e com a integração, a curto prazo, num dos maiores grupos financeiros europeus, o Novobanco reforçará o seu compromisso de criar valor sustentável para clientes, colaboradores, investidores e para a economia portuguesa”, afirma.
É num contexto de melhoria de resultados que Horta Osório chega ao Novobanco, para integrar o “board” da instituição. Apesar de, nos últimos meses, o mundo ter enfrentado vários eventos de instabilidade e da guerra no Irão ter alterado as perspetivas para as taxas de juro na região, os níveis de endividamento permanecem controlados, sem problemas com o malparado, e a subida das taxas de juro é benéfica para o setor.
Nesta remodelação para replicar o modelo de governance dos franceses que compraram a instituição financeira portuguesa, Nicolas Namias deve ocupar o cargo de chairman. A lista dos novos membros do conselho de administração já deu entrada no Banco de Portugal para a análise de fit and proper. À frente do banco deverá manter-se Mark Bourke como CEO.
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