Economia Azul pede ciência, investimento e estratégia

  • Local Online
  • 24 Julho 2026

Investigadores e empresários reuniram-se em Matosinhos para debater o futuro do mar. O conhecimento científico, a inovação empresarial e uma visão estratégica para Portugal estiveram em destaque.

A nova economia azul só poderá afirmar-se se Portugal conseguir aproximar ciência, empresas e investimento. Esta foi a opinião consensual entre os especialistas presente no debate “A Nova Economia Azul: Ciência, Biotecnologia e Startups do Mar”, que decorreu na conferência “Matosinhos e a Nova Economia do Mar”, onde deixaram claro que o conhecimento acumulado tem de passar da investigação para soluções concretas ao serviço da sociedade.

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Ana Paula Mucha, investigadora no CIIMAR e presidente da direção do B2E CoLab, destacou a importância de encontrar respostas baseadas na própria natureza, para tornar as zonas costeiras mais resilientes. A especialista defendeu que não é possível fazer regressar os ecossistemas ao seu estado passado, mas que existem mecanismos naturais que podem ser recuperados e otimizados através da ciência: “Não podemos ser irrealistas ao ponto de reverter a situação para o que tínhamos inicialmente, mas existem soluções baseadas em processos que permitem otimizar estes processos naturais”.

A replantação de florestas marinhas e outras intervenções que ajudam a limitar o avanço das águas do mar foram algumas das soluções mencionadas por Ana Paula Mucha, que também referiu que o desafio passa agora por colocar o conhecimento já existente ao serviço da sociedade, dando destaque, neste aspeto, à necessidade de investimento contínuo, tanto público como privado. Além disso, explicou que, através das bioengenharias, é possível contribuir para a recuperação de sistemas naturais, embora estes processos dependam de acompanhamento científico permanente.

A relação entre conhecimento, recursos naturais e atividade económica esteve também no centro da intervenção de Paulo Machado, administrador da Ramirez, que fez questão de lembrar que as alterações climáticas não são um fenómeno recente e defendeu uma maior aposta na monitorização para antever problemas e apoiar decisões: “Temos de estar despertos e utilizar as tecnologias que temos nas mãos para monitorizar”.

O responsável da Ramirez criticou, ainda, a falta de acompanhamento de algumas espécies, e deu o exemplo da cavala, espécie que, assegura, não tem o mesmo nível de monitorização existente para a sardinha. No entanto, também mencionou a experiência relativa à sardinha, que ficou marcada por sete anos sem possibilidade de pesca, como uma consequência da falta de medidas preventivas. “Há situações em que demoramos três anos a tomar medidas preventivas e, quando as tomamos, já não eram preventivas e sim resolutivas”, alertou.

Paulo Machado defendeu ainda que é necessário direcionar melhor os recursos disponíveis e reforçou a importância estratégica da pesca para Portugal. Apesar das dificuldades, afirmou que o país continua a ter um papel relevante enquanto fornecedor alimentar europeu, mas precisa de melhorar as condições das suas infraestruturas. Neste contexto, apontou o Porto de Leixões como um exemplo de infraestrutura que precisa de investimento: “O Porto de Leixões não tem condições nenhumas para receber o nosso peixe. É preciso o investimento que está prometido há 22 anos”.

A capacidade de transformar conhecimento em negócio foi outro dos temas em destaque, com Isabel Carneiro Kahlen, Co-Head of Team Genesis da Morais Leitão, a analisar o crescimento do ecossistema de startups em Portugal. A especialista destacou que existe atualmente uma dinâmica crescente de empreendedorismo e investigação aplicada, com empresas portuguesas a procurarem expansão internacional. “O que eu vejo é que, cá em Portugal, em todas as áreas, há empreendedorismo e há foco em investigação nas empresas privadas, com ambições de expansão internacional”, disse.

Segundo Isabel Carneiro Kahlen, o investimento em startups tem aumentado, impulsionado também pelo aparecimento de novos investidores e pelo papel de programas públicos de financiamento. No entanto, quando analisado o peso específico da economia do mar, o cenário revela margem para crescimento: após fazer um “levantamento para perceber o que foi canalizado para a economia do mar”, concluiu que apenas cerca de 5% do investimento considerado foi direcionado para startups ligadas ao setor marítimo, um valor que, na sua perspetiva, ainda está longe do potencial existente.

A necessidade de uma visão mais ampla para a economia azul foi reforçada por José Pinheiro, Country Manager Southern Europe da Ocean Winds e diretor do Fórum Oceano. Aqui, deu ênfase ao percurso dos projetos eólicos offshore em Portugal, que obrigou à criação de novas respostas regulatórias e industriais, e lembrou que um projeto offshore é também um motor de desenvolvimento económico com impacto em várias áreas.

Neste âmbito, deu o exemplo do projeto Windfloat Atlantic que, segundo o especialista, demonstra como uma infraestrutura no mar pode gerar atividade em engenharia, licenciamento, transportes, portos, serviços especializados e indústria.

Além disso, defendendo que “um projeto offshore eólico não é apenas um projeto energético, é muito mais do que isso”, José Pinheiro mencionou também a importância de se criarem cadeias de valor com cooperação regional e uma lógica ibérica, já que nem todas as etapas podem ser concentradas num único território.

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