Indústria de defesa nacional ruma ao Reino Unido para transformar capacidade em contratos
Portugal chega ao Farnborough International no Reino Unido com a maior representação de sempre. Quer transformar capacidade industrial em contratos, num mercado europeu da defesa em plena aceleração.
Portugal chega esta segunda-feira ao Farnborough International Airshow no Reino Unido com a “mais forte e diversificada” representação nacional dos últimos anos, numa altura em que a Europa acelera o investimento em defesa e procura reforçar a sua autonomia industrial. A indústria portuguesa da aeronáutica, espaço e defesa quer conquistar novos contratos, reforçar parcerias internacionais e consolidar a integração da indústria portuguesa nas cadeias de valor globais.
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“Desde a primeira participação, o propósito mantém-se: reforçar a visibilidade internacional das capacidades portuguesas nos setores da Aeronáutica, Espaço e Defesa e criar oportunidades de cooperação industrial e de negócio“, explica Rui Santos, diretor-geral do AED Cluster Portugal, associação empresarial de defesa, espaço e aeronáutica que marca presença em Farnborough com pavilhão próprio, ao ECO/eRadar.
O objetivo passa por “apoiar a internacionalização da indústria nacional, consolidar relações já existentes e promover uma maior integração das entidades portuguesas nas cadeias de valor globais“, aproximando as empresas nacionais dos principais fabricantes internacionais, refere.
O Pavilhão de Portugal reúne seis subexpositores — OGMA, Beyond Vision, CEiiA, Infinite Foundry, AVP e EEA Aircraft — e integra uma delegação empresarial alargada onde também marcam presença empresas como a Tekever, a Active Space Technologies, a Almadesign, a GMV, a LUZA Group, a Speedbird, a QSR, a Ibermicra, a Aernnova Portugal e a Embraer.
Farão parte dos cerca de 1.600 empresas com expositores, uma subida de 40%, com um aumento significativo de companhias de IA ou deeptech, noticia a Reuters.
A presença portuguesa “está mais forte e diversificada” do que na edição anterior, refletindo “a maturidade do setor e a capacidade das empresas nacionais de competir nas cadeias de valor internacionais”, destaca o responsável da AED Cluster.
Portugal não procura apenas estar presente, tem competência para fazer parte da solução. Temos um ecossistema industrial, tecnológico e científico cada vez mais maduro, com competências que vão da engenharia, produção e manutenção às tecnologias digitais, materiais avançados, sistemas autónomos e investigação e desenvolvimento.
A participação portuguesa pretende agora transformar essa capacidade industrial em oportunidades concretas. Embora cada empresa tenha a sua própria agenda de reuniões, a estratégia passa por aproximar a indústria nacional de governos, forças armadas, fabricantes, integradores e parceiros tecnológicos.
A mensagem que a indústria nacional quer passar é clara: “Portugal não procura apenas estar presente, tem competência para fazer parte da solução“, diz o diretor-geral da AED Cluster. O país reúne empresas, universidades e centros tecnológicos capazes de participar nos grandes programas internacionais de defesa, aeronáutica e espaço, aponta.
“Queremos que os grandes fabricantes e decisores internacionais reconheçam Portugal como um parceiro credível, competitivo e preparado para integrar cadeias de valor globais. Um parceiro disponível para construir relações de longo prazo, desenvolver projetos em conjunto e acrescentar valor desde as fases de conceção e desenvolvimento até à produção, integração e suporte ao longo do ciclo de vida”, explicita.
Rui Santos aponta ainda outro momento dos cinco dias de missão no Reino Unido, como potencial gerador de negócio: uma receção de networking no Pavilhão de Portugal. “No dia 21 de julho, a AED Cluster Portugal e a AICEP Portugal Global organizarão ainda uma receção de networking no Pavilhão de Portugal, aproximando empresas, parceiros e representantes institucionais”, adianta. Mas, ressalva, “neste tipo de evento, os resultados nem sempre são imediatos”.
Estreitar parcerias e procurar novos contratos
Mais do que apresentar produtos, o objetivo das empresas portuguesas passa por reforçar relações com parceiros internacionais, identificar novos programas de cooperação e posicionar-se num mercado cada vez mais competitivo, impulsionado pelo aumento dos investimentos europeus e britânicos em defesa.
No caso da Tekever, o Reino Unido representa atualmente um dos mercados estratégicos da empresa. A participação na feira serve para reforçar o investimento de 470 milhões de euros, que inclui a criação de mais de mil postos de trabalho e a expansão do novo centro tecnológico em Bristol.
“É a montra ideal para demonstrar o compromisso do nosso plano de investimento OVERMATCH, de 400 milhões de libras [470 milhões de euros] no Reino Unido nos próximos cinco anos. Queremos promover a criação de mais de 1.000 postos de trabalho qualificados no país e impulsionar o desenvolvimento do nosso novo hub tecnológico em Bristol. Para a Tekever, é prioritário reforçar o papel de parceiro estratégico na modernização da defesa do Reino Unido, apoiando o país no desenvolvimento de autonomia económica e soberania tecnológica através de IA e sistemas autónomos”, refere fonte oficial da Tekever ao ECO/eRadar.
O foco principal é estreitar parcerias com PME e instituições académicas locais, integrando-as na nossa cadeia de valor, além de consolidar a nossa posição em contratos-chave já existentes com o governo britânico. É igualmente importante estabelecer acordos industriais para integrar novas cargas úteis (payloads) e sensores avançados nas nossas plataformas, como o AR3 e o AR5.
A unicórnio nacional de drones pretende aproveitar o certame para aprofundar a relação com o Ministério da Defesa britânico, as Forças Armadas do Reino Unido e novos parceiros industriais, ao mesmo tempo que procura integrar pequenas e médias empresas e universidades britânicas na sua cadeia de valor.
“O foco principal é estreitar parcerias com PME e instituições académicas locais, integrando-as na nossa cadeia de valor, além de consolidar a nossa posição em contratos-chave já existentes com o governo britânico. É igualmente importante estabelecer acordos industriais para integrar novas cargas úteis (payloads) e sensores avançados nas nossas plataformas, como o AR3 e o AR5″, explicita a mesma fonte.
Já a Almadesign, especializada no design de componentes na área dos transportes, encara a feira sobretudo como um ponto de encontro internacional. A prioridade passa por identificar novas oportunidades de negócio e de investigação, acompanhar o lançamento de projetos já desenvolvidos pela empresa e reunir com parceiros internacionais.
“O objetivo desta participação é acompanhar a apresentação de novos projetos, contactar parceiros existentes, fazer prospeção de novas oportunidades e acompanhar tendências. A nível pessoal, e enquanto vice-presidente da AED, interessa-me também acompanhar a presença do cluster nacional no maior evento aeronáutico do ano”, afirma José Rui Marcelino, CEO e design manager da Almadesign ao ECO/eRadar.
“O foco da Almadesign é acompanhar o lançamento de projetos de design em que estivemos envolvidos, estreitar relações com parceiros internacionais que encontramos todos os anos, observar tendências e fazer prospeção de novos clientes e parceiros, tanto para projetos competitivos como para I&D. Negócios e parcerias, fazem-se com base na confiança. E a confiança alimenta-se com a presença regular nestes eventos ao longo de vários anos”, acrescentou.

Para a Active Space Technologies, empresa do setor espacial com sede em Coimbra e que integra o Cluster Coimbra Supernova, a estratégia principal do fórum é reativar a “presença institucional” no Reino Unido, com uma mentalidade “boots on the ground“. “Ganhar visibilidade, conhecer novos players no mercado britânico de Espaço e Defesa, estreitar laços com os parceiros e identificar leads (EDF, ESA, NewSpace)”, refere Filipe Castanheira, diretor-geral da Active Space.
Durante o Farnborough International Airshow, as empresas nacionais terão oportunidade de reunir com alguns dos principais intervenientes da indústria global da defesa. No caso da Almadesign, uma das prioridades será avaliar o impacto dos projetos que tem desenvolvido junto dos parceiros internacionais.
“O prioritário é ter o feedback sobre os projetos realizados, reencontrar e reunir com parceiros internacionais, sejam eles fornecedores, integradores (OEM), redes de colaboração, associações ou instituições de I&D“, vinca Rui Marcelino.
As reuniões com representantes das forças armadas de vários países, com “militares”, serão uma das principais prioridades da Active Space em Farnborough. A empresa portuguesa do setor espacial pretende igualmente estabelecer contactos com “novos parceiros industriais”, alargando a sua rede internacional de colaboração e identificando oportunidades de negócio.
Já a Tekever ruma ao Reino Unido com uma agenda centrada na defesa. “As reuniões prioritárias são com o Governo e as Forças Armadas do Reino Unido, com o propósito de avançar os requisitos para programas-chave do MoD (como o programa StormShroud da RAF)”, diz fonte oficial da unicórnio de drones.
Acompanhar o lançamento de projetos de design em que estivemos envolvidos, estreitar relações com parceiros internacionais que encontramos todos os anos, observar tendências e fazer prospeção de novos clientes e parceiros, tanto para projetos competitivos como para I&D. Negócios e parcerias, fazem-se com base na confiança. E a confiança alimenta-se com a presença regular nestes eventos ao longo de vários anos.
A empresa tem como foco encontros com parceiros industriais — não apenas para comercializar tecnologia, mas para acelerar a integração operacional das suas soluções — e com delegações internacionais, procurando expandir a sua atividade de exportação a partir do novo hub em território britânico.
“Outra prioridade clara são as reuniões com parceiros, focando não apenas na venda de tecnologia, mas na prontidão operacional e no treino rápido de tripulações. Por fim, as reuniões com delegações internacionais serão fundamentais para expandir a nossa pegada de exportação a partir do hub do Reino Unido“, aponta a mesma fonte.
A fabricante portuguesa de drones pretende ainda avançar com novos acordos industriais para integrar sensores e cargas úteis nas plataformas AR3 e AR5 e dar seguimento a programas já em curso, assim como a iniciativa do Exército britânico para desenvolver sistemas autónomos capazes de operar em conjunto com helicópteros Apache em missões de reconhecimento, guerra eletrónica e apoio ao combate.
Portugal apresenta novas soluções tecnológicas
A feira servirá igualmente para apresentar novas capacidades tecnológicas. A Tekever prepara o lançamento de uma nova capacidade tecnológica desenvolvida para as suas plataformas aéreas não tripuladas. “Podemos afirmar que esta inovação responde diretamente às exigências de autonomia e eficácia nos teatros de operações modernos mais complexos”, salienta a fonte oficial da empresa ao ECO/eRadar, sem adiantar mais detalhes antes do lançamento oficial.
A fabricante portuguesa de drones quer reforçar a sua posição em vários programas estratégicos do Ministério da Defesa britânico através das suas soluções autónomas.
“O nosso grande foco está no Project NYX , onde queremos demonstrar o nosso posicionamento como um dos candidatos selecionados pelo Ministério da Defesa britânico para a fase de protótipos de sistemas autónomos de apoio a helicópteros”, explica a mesma fonte.
“Queremos também partilhar os progressos na implementação do novo centro de engenharia e tecnologia em Bristol, além de avançar com o alinhamento e anúncios de cooperação industrial com parceiros britânicos para o desenvolvimento conjunto de soluções de IA de defesa“, adiciona ao ECO/eRadar.
O nosso trabalho estará presente no design e construção de duas mockups de demonstração à escala real — interiores de aeronaves e cockpits para as áreas civil e de defesa, para um cliente internacional — e na nossa contribuição para o design e comunicação do projeto LUS 222, desenvolvido em Portugal.
A Almadesign, por sua vez, apresentará dois demonstradores físicos à escala real de interiores de aeronaves e cockpits desenvolvidos para um cliente internacional, além do trabalho realizado no projeto português LUS-222.
“O nosso trabalho estará presente no design e construção de duas mockups de demonstração à escala real — interiores de aeronaves e cockpits para as áreas civil e de defesa, para um cliente internacional — e na nossa contribuição para o design e comunicação do projeto LUS 222, desenvolvido em Portugal“, aponta José Rui Marcelino.
Entre as novidades que a Active Space pretende destacar em Farnborough está o “reforço de capacidades com investimentos realizados com base no PRR“, segundo adiantou Filipe Castanheira ao ECO/eRadar. A empresa vai apresentar ainda a nova cleanroom ISO 5, uma infraestrutura concebida para responder aos exigentes requisitos da indústria espacial e que permite aumentar a capacidade de integração, montagem e ensaio de equipamentos destinados a missões espaciais.

Se há alguns anos a indústria portuguesa utilizava o fórum aeronáutico do Reino Unido para estabelecer contactos e procurar parcerias estratégicas, atualmente o foco está cada vez mais em desenvolver projetos que dão resposta às novas necessidades operacionais dos clientes.
O contexto geopolítico atual alterou profundamente aquilo que os operadores procuram. Cresceu a procura por drones de menores dimensões, mas capazes de integrar capacidades de guerra eletrónica e sistemas de inteligência artificial, com capacidade de navegar, detetar e classificar alvos mesmo em ambientes com forte interferência eletrónica.
“Há uma procura crescente por capacidades de Guerra Eletrónica integradas em drones mais pequenos e ágeis, evitando expor plataformas tripuladas. Existe também uma forte exigência de Inteligência Artificial processada localmente que garanta navegação, deteção e classificação autónoma de alvos, mesmo em ambientes com forte interferência de sinal”, sucinta a fonte oficial da unicórnio portuguesa.
Os clientes já não procuram apenas adquirir hardware; exigem soluções imediatas que liguem a aquisição à capacidade de combate real no terreno em tempo recorde – um reflexo claro das lições aprendidas na Ucrânia.
“Os clientes já não procuram apenas adquirir hardware; exigem soluções imediatas que liguem a aquisição à capacidade de combate real no terreno em tempo recorde”, explica a empresa, atribuindo a mudança de paradigma às aprendizagens retiradas da guerra na Ucrânia.
Na aviação, a mudança também se faz sentir. A Almadesign — com projetos a decorrer na Europa, na América do Norte, na América do Sul e no Médio Oriente — identifica um aumento da procura por ferramentas de realidade virtual para apresentação de projetos aeronáuticos, bem como pela construção de demonstradores físicos que permitam validar novos conceitos antes da produção.
“Na componente intangível, verifica-se uma solicitação crescente de apresentações virtuais e de VR de projetos aeronáuticos; na componente tangível, destaca-se a construção de demonstradores físicos de projetos inovadores”, sucinta o CEO e design manager da empresa.
Embora a Almadesign não tenha atualmente projetos específicos para concretizar no Reino Unido, considera que a verdadeira importância de Farnborough reside no seu caráter internacional, reunindo fabricantes, integradores, instituições de investigação e clientes de todo o mundo num único espaço.
Há poucos anos, a presença portuguesa em Farnborough servia sobretudo para apresentar capacidades. Atualmente, as empresas nacionais chegam ao Reino Unido com outra ambição: integrar programas internacionais, desenvolver tecnologia em parceria e conquistar espaço numa indústria europeia que voltou a crescer ao ritmo das necessidades de defesa.
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