Só 5% do investimento em startups chega à economia azul

  • Local Online
  • 16 Julho 2026

A economia azul representa cerca de 5% do investimento em startups, um valor que ficou em destaque na Conferência da Economia do Mar, onde vários especialistas defenderam uma maior aposta no setor.

Apesar de Portugal estar a reforçar o investimento em inovação e empreendedorismo, a economia azul continua a representar apenas uma pequena fatia desse esforço financeiro. Dos cerca de 537 milhões de euros canalizados para startups através de programas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), geridos pelo Banco Português de Fomento, apenas cerca de 5% tiveram como destino projetos ligados ao mar, revelou Isabel Carneiro Kahlen, co-head da Team Genesis da Morais Leitão, durante a conferência “Matosinhos e a Nova Economia do Mar”, dedicada à economia azul.

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“Tentei chegar a umas contas simples sobre qual seria a expressão da economia do mar nestes investimentos e a conclusão é que não é tão expressiva quanto deveria ser em Portugal”, acrescentou.

Estes dados, de acordo com a responsável da Morais Leitão, evidenciam que o setor está ainda numa fase de crescimento, mas, considera, os sinais são, mesmo assim, positivos. “Parece ainda uma economia incipiente, mas está a dar primeiros passos importantes”, garantiu, ao mesmo tempo que sublinhou o desenvolvimento de startups nas áreas da aquicultura, robótica, software, energias limpas e biotecnologia azul.

Isabel Carneiro Kahlen, co-head da Team Genesis da Morais Leitão

Segundo Isabel Carneiro Kahlen, o dinamismo do ecossistema empreendedor português também se reflete no aumento do interesse dos investidores privados: “Agora com a IA, o dinamismo de mercado de business angels – portugueses e não portugueses – a investir em Portugal tem tido uma expansão fenomenal no último ano. Estão a ser desenvolvidos projetos de mar em tecnologia que pode ser usada para fins civis e militares. Esta está a ser a grande nova onda de financiamento da UE, através de um fundo da NATO para investimento em defesa, que prevê o duplo uso [civil e militar]”.

Ainda assim, a jurista considera que o principal desafio continua a ser transformar inovação em valor económico. “Temos muitas ideias, inovação e investimento em empresas que desenvolvem tecnologias. Mas, depois, a nossa dificuldade é no valor acrescentado. Às vezes vendemos a nossa tecnologia barato e depois alguém lá fora pega nisso e cria o produto”, alertou.

Luísa Salgueiro, Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos

O potencial de crescimento da economia azul foi também enquadrado pela presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, Luísa Salgueiro, que destacou o papel do concelho na criação de um ecossistema ligado ao mar. A autarca referiu que a UPTEC Mar acolhe atualmente “70 startups na área da economia azul”, empresas que, segundo explicou, têm contribuído para a transformação da economia regional e nacional.

Entre os projetos considerados estruturantes para o setor, Luísa Salgueiro voltou a defender a criação de um centro europeu de biotecnologia azul nos terrenos da antiga refinaria de Leça da Palmeira, um processo que, frisou, continua sem evolução: “A Câmara Municipal de Matosinhos entrou a disponibilizar gratuitamente 20 hectares para fazer arrancar aquele hub de biotecnologia azul. Este é um tema demasiado importante e já demasiado trabalhado para estar há tanto tempo sem evolução”.

Manuel Tarré, CEO da Gelpeixe

Do lado da indústria, os responsáveis presentes na conferência defenderam que a inovação deve caminhar lado a lado com a competitividade das empresas. Manuel Tarré, CEO da Gelpeixe, destacou os investimentos realizados pela empresa em eficiência energética, desde painéis solares à eletrificação dos sistemas de frio dos camiões. “Uma das coisas onde temos tido êxito é nos motores de frio passarem a ser elétricos, ou seja, trabalham a bateria em vez de gasóleo. O investimento tem um retorno em quatro a cinco anos, o que é aceitável”, disse.

Contudo, o CEO alertou para o facto de a descarbonização dever respeitar a realidade de cada país: “A parte da descarbonização nunca está em causa porque isso vai acontecer, quer queiramos, ou não. O que está em causa é como podemos fazer isso de forma a que todos fiquemos melhor. Isto porque, se a vamos fazer de uma forma muito bruta, e começamos com legislação que as empresas têm dificuldade em implementar, e com custos adicionais, podemos pôr em crise a sobrevivência de algumas dessas empresas“.

Paulo Machado, administrador da Ramirez

Ainda do lado da indústria, Paulo Machado, administrador da Ramirez, centrou a intervenção na necessidade de investir no conhecimento científico e na monitorização dos recursos marinhos, de modo a conseguirem ter um maior controlo do que é pescado e do que ainda existe no mar. “Temos de usar as tecnologias todas que temos em mãos para monitorizar. Hoje temos informação sobre a sardinha, mas estivemos sete anos praticamente sem conseguir pescar sardinha porque não tomámos nenhuma medida preventiva. Agora, deixamos todos os investimentos para a sardinha, e disseram que não temos limite de captura na cavala. Mas nós temos que ter um limite“, alertou.

Esta falta de monitorização de mais peixe, segundo Paulo Machado, condiciona, inclusive, a capacidade de Portugal ser uma reserva alimentar para a Europa: “Nós devíamos ser uma reserva territorial da Europa, em termos de alimento. Mas não estamos a pescar o suficiente nem a tirar do mar aquilo que deveríamos. Ou seja, quando não estamos a monitorizar convenientemente o mar, estamos a desconfiar daquilo que estamos a tirar, e tiramos insuficiente. E outra desgraça é que as nossas docas de pesca não têm condições para receber o peixe. O porto de Leixões não tem condição nenhuma para receber o nosso peixe. É preciso investimento, que está prometido há 22 anos, pelo menos. Isso são coisas fundamentais que temos de tratar urgentemente”.

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