A componente de Defesa no Espaço já representa 53% do investimento mundial no setor no ano passado, adianta o relatório da Agência Espacial Europeia (ESA).
O investimento público no Espaço atingiu a nível mundial 119 mil milhões de euros no ano passado, uma ligeira descida de 3% face ao ano anterior. A Europa contraria essa tendência, com os orçamentos para a última fronteira a subir 12% para 13,5 mil milhões de euros, empurrada pelos investimentos de Defesa, aponta o “Report on Space Economy 2026”, da Agência Espacial Europeia (ESA). A defesa já representa mais de metade dos orçamentos do Espaço.
O segmento de Defesa já representa 53% dos orçamentos do Espaço no ano passado, e espera-se que o investimento continue a aumentar este ano a nível global. É um dos fatores que faz mexer a agulha no setor. No ano passado, a nível global, o investimento público no espaço (civil e defesa) atingiu os 119 mil milhões de euros, um recuo de 3%, quebrando a tendência de crescimento a dois dígitos registada na última década.
“A descida deveu-se sobretudo a uma ligeira redução do orçamento da Defesa nos Estados Unidos e à manutenção de um nível globalmente estável do financiamento da NASA. Ainda assim, prevê-se que a tendência observada em 2025 represente um mínimo temporário”, pode ler-se no relatório da ESA.
“A partir de 2026, espera-se um forte aumento da despesa com a Defesa, impulsionado principalmente pelo programa ‘Golden Dome’ dos Estados Unidos, para o qual já foram aprovados cerca de 24 mil milhões de dólares, embora o custo total permaneça incerto, podendo variar entre centenas de milhares de milhões e mais de um bilião de dólares”, refere.

Estados Unidos, China e Europa são os grandes operadores no setor do Espaço. A terra do Tio Sam representa mais de metade (58%) do investimento, seguido da China (15%) e a Europa na terceira posição, com 11%. Contudo, esta posição de ranking é difícil de avaliar, na medida em que a falta de informação pública sobre o orçamento que a China aloca ao setor torna delicado fazer esse exercício comparativo, admite a ESA.

Defesa empurra investimento no Espaço também na Europa
Globalmente, o peso da Defesa no Espaço atingiu 53% no ano passado — com os orçamentos do segmento civil a serem dominados pela exploração espacial e missões tripuladas, com a observação da Terra e meteorologia a serem a segunda área mais financiada —, e este ano estima-se que continue a ganhar expressão.
O papel da Defesa no crescimento do investimento no Espaço também se faz sentir na Europa. No ano passado, a região investiu globalmente 13,5 mil milhões de euros, uma subida de 12% face a 2024, “um crescimento impulsionado, sobretudo, pelo aumento do orçamento de defesa, em grande parte liderada pela Alemanha”, embora o peso do segmento civil ainda seja dominante: 84%.

As prioridades de Defesa das nações, do qual não é alheio o atual momento geopolítico de tensão entre blocos geográficos, indica que o segmento de Defesa irá continuar a empurrar os orçamentos do setor espacial a curto prazo, com projeções de que, “a partir de 2026, registe um aumento acentuado de mais de 20% num único ano, impulsionado sobretudo pelos programas de defesa”, aponta o relatório da ESA, citando dados da Novaspace.
O papel da defesa no Espaço é transversal nos dois lados do Atlântico. “Nos Estados Unidos, o orçamento espacial destinado à defesa registou uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 12% nos últimos cinco anos, atingindo quase 46 mil milhões de euros, face aos 27 mil milhões de euros registados em 2021”, pode ler-se no relatório da ESA.
Na Europa, até 2030, a Alemanha anunciou um plano de investimento de 35 mil milhões de euros para a segurança e a defesa no domínio espacial, abrangendo um sistema de satélites reforçados, mais vigilância orbital e a criação de um novo centro de operações de satélites militares, elenca o relatório. A França anunciou igualmente, em novembro do ano passado, a nova Estratégia Espacial Nacional 2025-2040 do país, houve pretende alocar um investimento adicional de 4,2 mil milhões de euros em atividades espaciais militares.
A Europa está igualmente a desenvolver capacidades de alerta precoce, através de projetos como Odin’s Eye — um sistema de alerta precoce para mísseis balísticos a partir do espaço — ou o Jewel (Joint Early Warning for a European Lookout), projeto franco-alemão para a deteção precoce do lançamento de mísseis e monitorização da sua trajetóriae interceção e que vai contribuir para o projeto IAMD (Integrated Air and Missile Defence) da NATO.
A própria ESA está a reforçar o seu papel nos programas de defesa e segurança. “Com o programa European Resilience from Space (ERS), a Agência está a estabelecer uma ligação mais direta entre a observação da Terra, as telecomunicações e a navegação e as crescentes necessidades da Europa em matéria de defesa e segurança, posicionando os sistemas espaciais para aplicações de duplo uso e de defesa”, indica o relatório.
Investimento privado no Espaço
O investimento privado no setor espacial a nível mundial atingiu 11,7 mil milhões no ano passado, um valor recorde, superando o pico de 2021, e uma subida de 60% face a 2024. Foram registados 324 negócios, um ano antes eram 279.
“Este aumento acentuado foi inteiramente impulsionado por um forte crescimento da atividade nos Estados Unidos, que aumentou 177% face a 2024, tendo as empresas espaciais norte-americanas captado quase 8 mil milhões de euros em capital em 2025, em comparação com pouco menos de 3 mil milhões de euros em 2024″, destaca o relatório.
Já na Europa, na China e no Japão o capital privado captado pelas empresas espaciais foi em sentido contrário, tendo registado uma descida de 8%, 15% e 35%, respetivamente. E no resto do mundo, o capital privado investido em empresas espaciais caiu 65%.

O venture capital representa 62% do total de volume investido, com um crescimento de 43% face a 2024. Grandes aquisições nos Estados Unidos, como é o caso da Relativity Space (adquirida em março pelo ex CEO da Google, Eric Schmidt, que trouxe consigo cerca de 800 milhões de dólares de financiamento), da Capella Space (adquirida em maio pela IonQ, uma empresa de quantum computing, por um valor não divulgado) e Geost (comprada pela Rocket Lab por 275 milhões de dólares) a gerar um volume de mais de 1,4 mil milhões no ano passado, e representando 12% do total do volume de investimento nesse ano.
Não foram as únicas operações a marcar o setor no ano passado. A Blue Origin terá beneficiado de investimento, na ordem de mil milhões de dólares, de Jeff Bezos. A Stoke Space Technologis levantou 510 milhões de dólares em setembro do ano passado, numa série D liderada pela US Innovative Technology Fund.
Já os IPO atingiram os 1,1 mil milhões, aponta o relatório que destaca as operações levadas a cabo pela Firefly Aerospace — que levantou 800 milhões com a entrada no Nasdaq Global Market chutando a avaliação da companhia para cerca de 8,5 mil milhões — ou a da Voyager Technologies que em junho do ano passado levantou 400 milhões de dólares na bolsa de Nova Iorque.

E onde concentram os investidores a sua atenção? “Considerando as operações de investimento divulgadas ao longo dos últimos cinco anos, o segmento dos lançamentos foi o que atraiu mais financiamento privado a nível mundial, nos Estados Unidos e na China, representando, respetivamente, 41%, 48% e 44% do total”, aponta o relatório da ESA.
E na Europa?
Na Europa, o investimento privado esteve mais distribuído, “com os segmentos de fabrico, plataformas, lançamentos e produtos a captarem, respetivamente, 20%, 19%, 16% e 15% do investimento privado total recebido pelas empresas espaciais nos últimos cinco anos”, pode ler-se.
No ano passado, o investimento privado na região caiu 8%, para 1,4 mil milhões de euros, com 88 operações, uma descida de 10% face aos 98 negócios assinalados em 2024. “A Europa registou, ainda assim, a maior taxa média de crescimento dos últimos cinco anos, com uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 37%, em comparação com 17% na China e -2% nos Estados Unidos”, destaca o relatório.
O volume de investimento privado na Europa em 2024 tinha sido impulsionado pela aquisição da empresa de inteligência artificial Preligens pela Safran. “Excluindo as operações de aquisição, o investimento privado aumentou 10% em termos homólogos”, ressalva o relatório.

Também na Europa o investimento de venture capital representa a maior fatia de investimento privado, tendo aumentado de uma média de 80% em 2024 para 87% no ano seguinte.
A finlandesa ICEYE — que acaba de anunciar abertura de operação no mercado nacional — foi das operações mais relevantes no ano passado, tendo captado 150 milhões de euros numa série E, liderada pela americana General Catalyst; a Isar Aerospace (150 milhões), Aerospacelab (94 milhões); Endurosat (90 milhões) e a Cailabs (57 milhões) são listadas como o Top 5 de investimento de capital privado na região.
Acesso ao espaço
As limitações de acesso ao espaço da Europa são evidentes nos números compilados pela ESA. No ano passado, ocorreram 324 lançamentos orbitais, dos quais 315 bem-sucedidos, uma subida de 25%. A quarta subida consecutiva de dois dígitos.
Mas aqui os EUA dominam e, em particular, a SpaceX. Os EUA fizeram 193 lançamentos, dos quais 122 pela empresa de Elon Musk, para lançar os satélites Starlink. 
A China realizou 93 lançamentos, uma subida de 37%, representando 25% do volume. A Europa realizou oito lançamentos, uma subida face aos três do ano anterior.
No ano passado, 4.556 objetos (satélites, cápsulas orbitais…) foram lançados no Espaço (+58%), com os EUA a serem responsáveis por 81% desse volume, sobretudo devido ao lançamento de 3.169 satélites Starlink, um disparo anual de 60%.
“O segmento da defesa manteve a sua trajetória de forte crescimento, com um aumento de 25% no número de satélites lançados para clientes do setor da defesa em 2025, face a 2024. Como referência, em 2025 foram lançados 219 satélites para clientes da defesa, quase cinco vezes mais do que os 44 satélites de defesa lançados em 2020″, aponta o relatório.
No ano passado, havia mais de 15 mil satélites ativos em órbita.
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Defesa empurra investimento europeu no Espaço para subida de 12%
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