Altice acusada de incumprimento após Drahi ter ‘tirado’ Meo do alcance dos credores
Credores avançam com acusação formal de incumprimento contra a Altice International, que controla a Meo, depois de o dono da empresa ter retirado o negócio português dos ativos dados como garantia.
- Um grupo de credores da Altice International formalizou uma acusação de incumprimento, contestando a retirada da Altice Portugal do alcance dos obrigacionistas.
- A situação poderá levar a exigências de pagamento imediato da dívida, aumentando a tensão entre a Altice e os seus credores.
- A decisão de Patrick Drahi em dezembro passado, que retirou ativos significativos do alcance dos credores, incluindo a Meo em Portugal, provocou uma queda acentuada no valor das obrigações da Altice International na altura.
Um conjunto de credores da Altice International, detentores de cerca de oito mil milhões de euros de dívida sénior, acusou formalmente o grupo de incumprimento, avança o Financial Times. Estes investidores contestam, entre outros aspetos, a decisão de Patrick Drahi de retirar a Altice Portugal do alcance dos credores no passado mês de dezembro, considerando que a mesma violou os termos das obrigações.
O jornal britânico noticia que esses credores enviaram uma comunicação formal de default à Altice International na terça-feira, referente a cerca de dois mil milhões de euros em dívida com vencimento em 2028. Todavia, os mesmos credores deverão enviar mais notificações formais ao grupo relativas à restante dívida da empresa, naquilo que poderá abrir mais um conflito entre o dono da Altice e os respetivos obrigacionistas.
Entre as saídas possíveis deste braço de ferro estará a exigência de a Altice pagar de imediato a estes credores o restante capital que ainda é devido, sublinha o FT.
No cerne da questão está o facto de, em dezembro passado, Patrick Drahi ter avançado com uma série de transações que, na prática, retiraram os seus principais negócios — incluindo a Altice Portugal, dona da operadora Meo, e a Altice Caribbean — do alcance dos credores. Estas passaram a ser designadas como subsidiárias “sem restrições”, o que significa que deixaram de estar sujeitas aos termos dos contratos de crédito existentes.
Até então, estes dois negócios, responsáveis por cerca de 80% das receitas da Altice International, eram dados como garantia a credores que detinham, precisamente, oito mil milhões do passivo da empresa. Na altura, a decisão espoletou uma queda acentuada do valor das obrigações da Altice International no mercado secundário.
O Financial Times avança também que alguns credores de dívida garantida da Altice International, incluindo os fundos britânicos Sona Asset Management e Arini Capital Management, acabam de formalizar um acordo de cooperação até janeiro de 2028, mas com a possibilidade de ser estendido até agosto de 2029. Estes prazos coincidem, precisamente, com a maturidade da dívida que detêm da Altice International.
Ao longo de décadas, Patrick Drahi construiu um conglomerado internacional de telecomunicações, media e tecnologia, mas a montanha de dívida e o contexto de aumento das taxas de juro alterou as circunstâncias. A Altice tem estado a vender ativos, incluindo, em junho, a francesa SFR — controlada por outra empresa, a Altice France —, a um consórcio de operadoras concorrentes, numa transação que a avalia em 20,35 mil milhões de euros.
Já em Portugal, onde os rumores sobre a venda da Meo têm sido frequentes — incluindo um negócio que esteve em em vias de ser concretizado em 2024 com a Saudi Telecom —, a empresa decidiu em maio deste ano converter 2,5 mil milhões de euros de dívida intragrupo em capital, noticiou o ECO em primeira mão.
Em entrevista ao ECO em junho, a CEO da Meo, Ana Figueiredo, aludiu aos frequentes rumores sobre a venda da Meo, comentando: “Vou abrir uma garrafa de champanhe no dia em que ninguém me perguntar sobre a venda da Meo.”
Em França, Drahi também se viu a braços com um conflito com os credores que culminou num acordo amigável no ano passado. No final, os credores ficaram com 45% da Altice France a troco de um perdão de dívida de 15,5 mil milhões de euros. Drahi pôde, no entanto, manter o controlo da empresa.
Contactadas pelo FT acerca da acusação de incumprimento, nenhuma das partes quis comentar.
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