Era uma vez um clique, e uma empresa parou

  • José Ninhos
  • 15 Julho 2026

A transformação digital e a IA tornaram a cibersegurança um pilar estratégico das organizações. Investir na formação contínua das equipas é hoje essencial para reforçar a resiliência das empresas.

Nos últimos anos, a cibersegurança foi encarada sobretudo como uma preocupação técnica, limitada às equipas de tecnologias de informação (TI) e às infraestruturas das organizações. Hoje, essa realidade mudou de forma significativa. O contexto atual é marcado pela digitalização acelerada, pela adoção crescente de inteligência artificial (IA) e pela expansão do trabalho remoto e das soluções em cloud. Desta forma, a cibersegurança passou a assumir um papel central na estratégia e sustentabilidade das empresas.

Quando analisamos a procura de profissionais qualificados na área, percebemos que esta continua a crescer a um ritmo superior à capacidade de resposta do mercado. Esta realidade não se verifica apenas em Portugal, mas também a nível internacional, o que torna mais difícil para as organizações encontrarem talento especializado capaz de acompanhar a rápida evolução das ameaças digitais. No nosso caso, esta tendência tem-se refletido num reforço crescente da procura tanto por soluções de formação especializada como por perfis técnicos capazes de responder aos desafios atuais das organizações nesta área.

No entanto, o desafio atual vai além da escassez de especialistas. A crescente exposição das empresas aos riscos digitais demonstra que a segurança deixou de ser uma responsabilidade exclusiva das equipas técnicas. Hoje, qualquer colaborador pode representar uma potencial porta de entrada para um ataque, seja através de um e-mail de pishing, da utilização inadequada de ferramentas digitais ou da adoção de novas tecnologias sem a devida preparação.

É precisamente neste ponto que acredito que a formação ganha um papel estratégico. Mais do que formar especialistas altamente técnicos, torna-se essencial criar uma cultura de segurança digital transversal a toda a organização. Lideranças, equipas operacionais e áreas de negócio devem estar alinhadas e sensibilizadas para os riscos existentes. O objetivo será desenvolver competências que permitam responder de forma mais consciente e preparada aos desafios atuais. Esta evolução poderá também obrigar muitas empresas a repensarem os seus modelos organizacionais, integrando competências tecnológicas e de cibersegurança de forma mais próxima das diferentes áreas de negócio, em vez de estarem concentradas exclusivamente em equipas isoladas de IT.

Mais do que formar especialistas altamente técnicos, torna-se essencial criar uma cultura de segurança digital transversal a toda a organização. Lideranças, equipas operacionais e áreas de negócio devem estar alinhadas e sensibilizadas para os riscos existentes.

Esta necessidade torna-se ainda mais evidente num momento em que muitas empresas procuram acelerar processos de transformação digital e adoção de IA. Apesar do enorme potencial destas tecnologias, existe frequentemente a tentação de avançar rapidamente para novas ferramentas sem consolidar, numa fase inicial, bases sólidas de segurança. Em muitos casos, o foco está centrado na inovação imediata, enquanto aspetos fundamentais relacionados com proteção de dados, gestão de risco e preparação das equipas acabam por ficar em segundo plano.

A verdade é que temos de garantir que as organizações estão preparadas para crescer de forma sustentada e segura ao implementar tecnologia. Consolidar uma cultura de segurança, investir na sensibilização contínua e preparar as equipas para reconhecer ameaças deve ser visto como parte integrante da própria transformação digital. Caso contrário, as empresas correm o risco de se tornarem vulneráveis precisamente quando procuram evoluir tecnologicamente.

Também os modelos tradicionais de formação enfrentam novos desafios. Numa área em constante evolução, o conhecimento técnico envelhece rapidamente e exige atualização contínua. Formações pontuais e isoladas deixam de ser suficientes para responder a ameaças que se transformam diariamente. Por isso, a aprendizagem contínua, integrada no quotidiano organizacional, tende a ganhar cada vez mais relevância.

Ao mesmo tempo, capacidades mais transversais, como pensamento crítico, comunicação e colaboração, continuam a ser fundamentais. À medida que os processos se tornam mais automatizados, cresce também a importância do olhar humano e da capacidade de decisão perante cenários complexos. A cibersegurança exige profissionais cada vez mais completos, capazes de combinar conhecimento técnico com competências humanas e visão estratégica.

Perante esta escassez de talento especializado, faz cada vez mais sentido olhar para estratégias de resposta. Em muitos casos, as organizações continuarão a necessitar de integrar perfis especializados capazes de responder aos desafios mais imediatos. Mas, ao mesmo tempo, cresce também a importância do reskilling e upskilling como forma de desenvolver talento internamente, potenciar competências já existentes e preparar as equipas para uma realidade digital em constante transformação. O equilíbrio entre estas duas abordagens tenderá a assumir um papel relevante na estratégia das empresas.

A formação em cibersegurança deixou, por isso, de ser apenas uma componente técnica ou complementar. Tornou-se um fator essencial não apenas para competitividade e resiliência, mas também para garantir sustentabilidade organizacional. E num contexto digital cada vez mais exigente, as empresas que conseguirem preparar melhor as suas pessoas estarão também mais preparadas para proteger o seu futuro.

  • José Ninhos
  • Head of Learning da Olisipo

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