BCE ‘sacode fantasmas’ e espera pelo verão para nova subida dos juros
Lagarde não quer repetir erros do passado, mas recusa "subida de precaução". Analistas antecipam mais um aumento dos juros e afastam um ciclo de aperto prolongado. Países do sul já protestam.
Em julho de 2022, o Banco Central Europeu (BCE) deu início ao maior aperto financeiro da história da Zona Euro quando os preços já estavam a disparar mais de 8%, na sequência da guerra na Ucrânia e pareciam não ter travão.
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Quatro anos depois, a inflação volta a fugir do alcance, mas o BCE não quis repetir o erro ‘de ter atuado demasiado tarde’ e foi o primeiro banco central das maiores economias do mundo a aumentar as taxas de juro em resposta ao impacto do conflito no Médio Oriente.
Ainda que a presidente Christine Lagarde tenha rejeitado a ideia de uma “subida de precaução” e defendido que era necessário dar um sinal perante a dispersão da inflação na economia, os analistas consideram que a decisão reflete sobretudo um “BCE a lutar contra fantasmas do passado”.
“É mais um movimento simbólico para sinalizar a vontade e a determinação do BCE em não ser tardio na implementação da sua resposta política”, observou Carsten Brzeski, global head of macro no banco de investimento neerlandês ING.
“Não se trata de um aumento da taxa que irá prejudicar a economia da Zona Euro, mas sim de uma decisão tomada com uma comunicação clara e visando a preservação da reputação”, reforçou o responsável, lembrando o que aconteceu há quatro anos: “Na altura, o banco central agarrou-se demasiado à ideia de que o aumento da inflação impulsionado por choques de oferta era ‘transitório’ e poderia ser ignorado. Não fosse a experiência de 2022, ‘transitório’ poderia muito bem ser o rótulo utilizado hoje”.
Para as famílias a pagarem o crédito da casa ao banco, esta decisão pouco alterará as condições dos seus empréstimos, na medida em que há muito que os mercados (mais concretamente das Euribor, que servem de base para o cálculo da prestação mensal) estavam a antecipar este aumento.
Da mesma forma que também estão a ‘precificar’ outra subida dos juros, mas essa só deverá acontecer depois do verão, possivelmente na reunião de setembro, segundo adiantaram duas fontes do BCE à agência Reuters.
Ou seja, prevê-se uma pausa em julho, mas só “se os preços da energia se mantiverem perto dos atuais níveis”, sublinhou uma das fontes.

“Será o que tiver de ser”
Lagarde não quis comentar se esta subida era o início de um ciclo mais prolongado de aperto das condições financeiras porque a incerteza mantém-se elevada. Mencionou que a inflação se está a alastrar a mais setores da economia, mas que ainda não se verificaram implicações a nível dos salários, de acordo com os analistas do Lloyds Banking.
“Será o que tiver de ser”, resumiu a francesa aos jornalistas.
Henry Cook, economista senior do banco do MUFG, vê uma subida de 50 pontos base no acumulado deste ano “mais como uma medida de ajustamento do que um pleno ciclo de aperto”. “Os riscos de segunda ordem deverão manter-se contidos num cenário de crescimento moderado, uma visão que tem como base a reabertura do Estreito de Ormuz durante o verão”, frisou o responsável.
Também a PIMCO não acredita num BCE “agressivo”, enquanto a Morningstar considera que a ligeira deterioração das perspetivas para a economia e inflação “não assustaram os investidores”, ainda que o BCE continue a enfrentar um risco de estagflação.
“Enquanto o mercado obrigacionista estiver a assumir o papel do BCE no aperto da política monetária, os governos não alimentarem uma espiral inflacionista com estímulos orçamentais e os indicadores de sentimento se mantiverem fracos, é difícil imaginar que o BCE queira realmente combater um choque de oferta exógeno com subidas agressivas das taxas de juro a custo de potencialmente agravar uma recessão económica”, assume Carsten Brzeski.
Países do Sul já dão sinais de resistência
Parece um déjà-vu. Há quatros anos, vários ministros das Finanças do euro – incluindo o ministro português em funções na altura, Fernando Medina — insurgiram-se contra a política de subida de juros do BCE. A história repete-se, com outros intervenientes.
“O BCE, que teve uma ação muito importante em 2022 [na anterior crise energética], entendeu dar este primeiro sinal ao mercado, mas veremos nos próximos meses. Eu mantenho a minha opinião de que podia não ter dado este sinal e não era absolutamente necessário, mas respeito naturalmente o mandato e a independência do BCE”, declarou Joaquim Miranda Sarmento à entrada para mais uma reunião do Eurogrupo, em Bruxelas.
O ministro português não foi o único a manifestar discordância. “Nunca sou um defensor de subir as taxas de juro. Acredito que, mesmo em tempos difíceis, o acesso ao crédito deve ser facilitado”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani.
“Especialmente quando a inflação sobe por causa de fatores exógenos, é melhor deixar as taxas inalteradas”, insistiu o italiano.
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