Serão os salários apenas a ponta de um icebergue?

  • Carla Farinha
  • 14:00

Na prática, muitas empresas irão confrontar-se com perguntas que nunca tiveram de responder de forma tão objetiva. Porque é que um colaborador recebe mais do que outro com funções semelhantes?

Ao longo da minha experiência na área dos recursos humanos, tenho assistido a várias mudanças legislativas que obrigaram as organizações a rever práticas, processos e formas de trabalhar. Em muitos casos, essas mudanças acabaram por expor fragilidades que estavam há muito identificadas, mas que nunca tinham sido verdadeiramente corrigidas. Ao mesmo tempo, criaram oportunidades para repensar modelos de gestão, melhorar a qualidade da informação disponível e tornar as organizações mais consistentes nas decisões que tomam. A Diretiva (UE) 2023/970 sobre transparência salarial parece reunir um pouco de tudo isto.

Quando se fala de transparência salarial, a discussão centra-se quase sempre nos salários, nas diferenças remuneratórias, nos impactos que a divulgação dessa informação poderá ter dentro das equipas ou nas novas obrigações das empresas. É natural que assim seja. No entanto, acredito que os salários são apenas a parte mais visível desta mudança.

O verdadeiro desafio estará na capacidade das organizações para explicar as decisões que tomam. Justificar porque determinadas funções são remuneradas de forma diferente, sustentar critérios de progressão e demonstrar aquilo que distingue percursos profissionais aparentemente semelhantes, exige mais do que boas intenções. Exige informação fiável, processos consistentes e critérios claros.

É precisamente neste exercício que muitas empresas irão perceber que a transparência salarial não é apenas um tema de recursos humanos ou de conformidade legal. É também um tema de organização.

Ao longo dos anos, muitas empresas cresceram, criaram novas funções, ajustaram equipas e responderam às exigências do mercado. Nem sempre houve tempo para rever estruturas, formalizar processos ou documentar critérios que eram do conhecimento de todos, mas que raramente estavam verdadeiramente sistematizados. A diretiva vem agora exigir esse exercício de reflexão e organização interna.

Descrições de funções desatualizadas, critérios de avaliação pouco claros, informação dispersa por diferentes sistemas ou estruturas salariais construídas de forma gradual ao longo dos anos são realidades que continuam presentes em muitas organizações. A nova legislação não cria estes desafios, apenas lhes dá uma relevância que já não pode ser ignorada.

Na prática, muitas empresas irão confrontar-se com perguntas que nunca tiveram de responder de forma tão objetiva. Porque é que um colaborador recebe mais do que outro que desempenha funções semelhantes? O que justifica uma promoção? Que competências, responsabilidades ou resultados explicam uma diferença salarial? Quando as respostas não estão documentadas ou assentam apenas em conhecimento informal, o risco não é apenas regulatório, é também organizacional.

É precisamente por isso que vejo esta mudança como uma oportunidade para olhar para dentro, rever processos e estruturar informação essencial para gerir pessoas e apoiar o crescimento do negócio.

Tenho acompanhado organizações que estão a utilizar este momento para formalizar percursos de carreira, clarificar critérios de avaliação e criar maior consistência nas suas práticas internas. Não porque a lei as obriga, mas porque reconhecem que uma organização mais estruturada está também mais preparada para crescer, adaptar-se e responder a novos desafios.

Ao mesmo tempo, importa reconhecer que este processo não estará isento de dificuldades. Em muitas organizações, a transparência poderá revelar incoerências acumuladas ao longo de anos de crescimento, decisões tomadas em contextos diferentes ou práticas que, embora compreensíveis à luz da sua história, se tornam mais difíceis de justificar quando analisadas de forma sistemática. Enfrentar essas realidades exigirá maturidade, capacidade de adaptação e, sobretudo, vontade de corrigir aquilo que já não serve a organização nem as suas pessoas.

Esta reflexão não se aplica apenas às grandes empresas. As PME, que muitas vezes operam com processos mais informais, têm igualmente uma oportunidade para consolidar práticas, reduzir dependências de conhecimento não documentado e criar bases mais sólidas para a tomada de decisão.

Existe ainda uma dimensão que considero particularmente importante: a comunicação. As pessoas querem compreender como são tomadas as decisões que afetam a sua carreira, perceber quais são os critérios utilizados e sentir que existem regras claras e aplicadas de forma consistente. A transparência não elimina todas as dúvidas nem resolve todos os desafios, mas contribui para relações mais maduras e para organizações mais credíveis.

Neste contexto, a qualidade da informação assume um papel central. Preparar uma empresa para responder às exigências da transparência salarial implica conhecer melhor os seus dados, garantir a sua consistência e assegurar que a informação necessária para apoiar decisões está disponível quando é necessária. Mais do que uma exigência regulatória, trata-se de criar condições para decisões mais informadas e sustentadas.

No fundo, acredito que a Diretiva (UE) 2023/970 coloca às organizações uma questão tão simples quanto exigente: conhecem verdadeiramente a sua própria realidade?

Porque os salários podem estar no centro da discussão. Mas aquilo que a transparência salarial vem realmente revelar é algo mais profundo: até que ponto cada organização conhece, compreende e consegue justificar as decisões que toma.

  • Carla Farinha
  • Human Resources and Project Director da Opensoft

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Serão os salários apenas a ponta de um icebergue?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião