“Temos de manter a cabeça fria” em relação às taxa de juro, diz governador do Banco de Portugal
Governador do Banco de Portugal diz que a situação atual é "muito diferente" de 2022 e garante que o BCE "estará preparado" para agir em função dos dados.
A guerra no Irão voltou a pôr os mercados em alerta. Os preços da energia dispararam e os investidores interrogam-se sobre o que fará o Banco Central Europeu (BCE) às taxas de juro: se as sobe para conter uma eventual ressurgência da inflação, ou se as mantém para não asfixiar uma economia já fragilizada.
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Esta quarta-feira, em Lisboa, na apresentação do Boletim Económico de março do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira não deu pistas sobre o rumo dos juros e fê-lo de forma deliberada.
“Não vou especular minimamente. Tudo vai depender da evolução dos preços. Não faz sentido especular sobre as taxas de juro”, afirmou o governador do Banco de Portugal, deixando claro que é a inflação, e não a pressão dos mercados, a ditar as decisões de Frankfurt.
A contenção de Álvaro Santos Pereira espelha o estado de espírito que domina atualmente a liderança do BCE. Também esta quarta-feira, Christine Lagarde discursou na conferência “ECB and Its Watchers”, em Frankfurt, e traçou um quadro de “profunda incerteza” sobre a economia da Zona Euro.
Ainda assim, Álvaro Santos Pereira foi ao essencial para tranquilizar, notando que a situação atual não é comparável à crise energética de 2022, quando a invasão russa da Ucrânia fez disparar a inflação na Europa.
Estamos claramente numa situação melhor do que estávamos em 2022 [quando] a inflação na União Europeia já rondava cerca de 5%.
“Estamos claramente numa situação melhor do que estávamos em 2022. Em 2022, a inflação na União Europeia já rondava cerca de 5%. (…) E, neste momento, estamos com a inflação a rondar 2%. Portanto, partimos de uma situação muito diferente”, sublinhou o governador.
Christine Lagarde corroborou esta leitura, ao notar que os preços do gás natural situam-se hoje em torno de 60 euros por megawatt-hora (MWh), valores ainda elevados, mas muito abaixo dos 340 euros registados em agosto de 2022.
O governador do Banco de Portugal enumerou outras diferenças relevantes face a 2022. Nesse ano, “havia bastantes constrangimentos a nível da oferta em várias partes do país e nas cadeias de valor” e “uma procura bastante significativa, porque tinha havido um aumento do rendimento com os apoios dos Estados”.
Nós [Banco de Portugal], e como a Presidente Lagarde disse, estaremos preparados [para mexer as taxas de juro]. Estamos a olhar para os dados, estamos a ver a evolução dos preços não só dos produtos energéticos.
Atualmente, a Zona Euro apresenta uma recuperação moderada, sem os desequilíbrios entre oferta e procura que caracterizaram aquele período. A política monetária, então muito acomodatícia com taxas negativas, encontra-se agora num nível considerado neutro, o que dá ao BCE mais margem para observar antes de agir.
Ainda assim, a cautela é a palavra de ordem. “Temos de manter a cabeça fria”, insistiu Álvaro Santos Pereira, sem deixar de reconhecer que o desfecho depende muito da evolução do conflito.
“Nós [Banco de Portugal], e como a Presidente Lagarde disse, estaremos preparados. Estamos a olhar para os dados, estamos a ver a evolução dos preços não só dos produtos energéticos, como também dos alimentares e produtos críticos para algumas produções, como o hélio e outros materiais”, explicou o governador.
Christine Lagarde foi na mesma direção, notando que o BCE não agirá antes de ter “informação suficiente sobre a dimensão e persistência do choque”, mas o compromisso com a meta de inflação de 2% é “incondicional”.
O BCE adota há vários meses uma abordagem reunião a reunião, sem se comprometer com um caminho pré-definido para os juros, uma flexibilidade que contrasta com a rigidez que limitou a resposta em 2022 e que é hoje vista como um trunfo. “Certamente no BCE haverá uma discussão, para ver o que é que se faz”, antecipou o governador do Banco de Portugal.
A próxima reunião de política monetária do BCE está marcada para abril, e os olhos dos mercados estarão fixos nos dados de inflação que entretanto chegarem e, inevitavelmente, na evolução da guerra no Irão.
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