Tarifas não travam comércio global, levam-no a reorganizar-se
Estudo do McKinsey Global Institute conclui que o comércio não recuou no ano passado, apesar da pressão das tarifas. Assistiu-se, porém, a um reajustamento comercial.
As tarifas norte-americanas implementadas por Donald Trump levaram a um choque no comércio mundial, mas este continuou a crescer, reorganizando-se. A conclusão é de um novo relatório do McKinsey Global Institute, divulgado esta sexta-feira, que mostra que, para além deste choque, “forças mais profundas” estão a remodelar o panorama mundial.
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No relatório sobre a geopolítica e a geometria do comércio mundial em 2026, o McKinsey Global Institute conclui que, no ano passado, “as mercadorias continuaram a percorrer distâncias geográficas maiores e a fluir cada vez mais entre parceiros geopoliticamente alinhados“.
As tensões entre os Estados Unidos e a China marcaram mais uma vez “a distância geopolítica percorrida pelo comércio”, com ambas as economias a continuarem a reorientar-se e a afastarem-se “uma da outra e aproximando-se de parceiros geopoliticamente mais próximos, acelerando uma tendência em curso desde 2017″. Neste sentido, foram desviados mais de 165 mil milhões de dólares em trocas comerciais do corredor Estados Unidos – China.
Neste panorama, os EUA tornaram-se “o maior impulsionador individual do crescimento das importações globais”, representando mais de um quarto do crescimento do comércio mundial.
Ao mesmo tempo, o comércio da União Europeia também se deslocou para parceiros mais alinhados geopoliticamente, em grande parte porque as exportações para a China caíram, enquanto o comércio com os Estados Unidos aumentou no primeiro semestre do ano, impulsionado por grandes fluxos de produtos farmacêuticos e alguns metais antes da implementação das tarifas.
Porém, “apesar de produzir muitos dos mesmos bens, a UE captou menos de 3% da procura dos EUA anteriormente satisfeita pela China (excluindo os produtos farmacêuticos antecipados)”.
Ademais, o comércio com a Rússia continuou a diminuir, embora a partir de uma base muito menor do que nos anos imediatamente após a invasão da Ucrânia. “Estas mudanças podem ser interpretadas como uma forma de ‘redução de riscos’ nos Estados Unidos, na China e na Europa, à medida que as empresas lidavam com as pressões geopolíticas”, pode ler-se na análise.
“As tarifas aduaneiras desencadearam um reajustamento comercial, com o comércio entre os EUA e a China a cair cerca de 30%. Os Estados Unidos substituíram cerca de dois terços dessa lacuna com importações de outros fornecedores, enquanto os exportadores chineses de bens de consumo — desde carros elétricos a brinquedos — reduziram os preços em média 8% para encontrar compradores em novos mercados”, assinala.
No entanto, o McKinsey Global Institute assinala que não são apenas as tarifas americanas, que atingiram seu nível mais alto desde a Segunda Guerra Mundial, que estão a moldar novas dinâmicas no comércio mundial. As disrupções continuam em 2026, incluindo o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa mais de um quinto do petróleo e gás transportados por via marítima, assinala o relatório.
E num “cenário global cada vez mais disputado”, forças “mais profundas estão silenciosamente a remodelar o panorama do comércio”, entre as quais assinala o boom da Inteligência Artificial e a corrida mundial para construir data centers. “As remessas de chips, servidores e equipamentos de rede necessários para sua construção representaram cerca de um terço do crescimento do comércio, grande parte do qual ocorreu entre economias geopoliticamente alinhadas”, assinala o relatório.
Paralelamente, a China posicionou-se mais a montante na produção global ao “exportar para uma gama mais alargada de mercados, enviando mais inputs industriais e bens de capital e menos produtos finais”, com consequências não apenas para o volume do comércio transfronteiriço, mas também a tipologia dos bens transacionados.
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