IA. Soluções à medida já estão a ajudar a indústria têxtil a ganhar eficiência

Ameba está a ajudar têxteis como a Anglotex e Becri Group a automatizar os processos administrativos, ajudando a reduzir em 80% o tempo destas tarefas e aumentar tempo de entrega das encomendas em 10%

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A Inteligência Artificial (IA) já é uma realidade na indústria têxtil nacional. Apesar de o setor estar ainda a dar os primeiros passos na implementação destas ferramentas, começam a chegar soluções à medida do setor. Para já, as empresas estão a usar a IA para reduzir tarefas administrativas, permitindo às empresas libertar a equipa comercial para reforçar a relação com os clientes, e controlar de forma mais eficiente as entregas dos fornecedores, reduzindo atrasos nas entregas e potenciais custos para as indústrias. Mas o potencial de transformação é bem maior.

João Gomes, head of operations da Anglotex, fala de um projeto que começou há cerca de um ano e que “surgiu de forma muito natural”. “Na empresa estávamos a começar a ter algumas ideias e a pensar muito como é que íamos reduzir certas perdas de tempo e ineficiências que, à medida que fomos crescendo, já não nos caracterizavam e estávamos a perder um bocado a identidade”.

Foi nesta fase que a têxtil fundada em 1991 por António e Conceição Gomes chegou à Ameba, uma plataforma de Inteligência Artificial especializada em desenvolver soluções para fabricantes de têxteis e vestuário, que automatiza tarefas administrativas. “Aquilo encaixa mesmo no que estávamos à procura”, explica o responsável, que juntamente com o irmão Marco Gomes gere a empresa da família, que fatura mais de 30 milhões e emprega mais de duas centenas de pessoas em Braga.

A trabalhar há cerca de um ano com esta startup britânica, João Gomes explica que aquela foi “verdadeiramente a primeira introdução da IA” na fábrica. Uma tecnologia que, diz, permite “diminuir muito as funções manuais de inserir dados, que são coisas que têm de se fazer e são essenciais, mas que na verdade acabam por não acrescentar muito valor à empresa e ao cliente“. Apesar de a IA ainda estar a chegar à Anglotex, o empresário não poderia estar mais otimista. “O potencial que vemos é mesmo muito grande e o horizonte de melhoria é muito ambicioso. Já sentimos ganhos, sobretudo agora nesta segunda metade do ano“, nota.

Aponta as principais vantagens ao nível da velocidade a que está a receber as matérias-primas, pois o follow-up é feito “de maneira mais agressiva e mais eficiente, ao contrário do que acontecia anteriomente. Descreve que está a reverter-se num “ganho de cerca de 10% na entrada da matéria-prima”, o que permite “reduzir os atrasos, os erros e o stress das pessoas“.

Já se nota um ganho de cerca de 10% na entrada da matéria-prima, que permite mais à frente reduzirmos os atrasos, os erros e o stress das pessoas.

João Gomes

Head of Operations da Anglotex

Já a testar outras funcionalidades desde o início deste ano, como inserir inserir dados diretamente no software da empresa (ERP), mediante informações do cliente, antecipa que estas soluções permitam reduzir o tempo de inserir dados em quase 70%. Um número “muito grande” e que acredita que seja possível atingir até ao final do ano. Sem querer contabilizar os ganhos financeiros desta redução, João Gomes realça que “esta diminuição das tarefas manuais vai ajudar as pessoas a serem mais criativas”. “E vamos conseguir fazer mais ainda”, prevê.

Além das tarefas administrativas, a Anglotex já está a levar também a IA para o chão de fábrica. Nesse caso com a Controltêxtil, uma empresa que tem modelos que já permitem a monitorização em tempo real em ambiente industrial. “Neste momento já temos dados ao segundo sobre o que está a ser feito, quando é que está previsto acabar, ou seja, podemos reorganizar-nos muito mais rapidamente e ter respostas muito mais rápidas também”, sintetiza João Gomes.

Rui Costa, da Gubec, Armando Mota, da Protextil, e João Gomes da Anglotex, debateram a IA no têxtil

A Gubec, detida pelo Becri Group, é outra das têxteis que está a levar a IA para a fábrica. A trabalhar com a Ameba, o objetivo é aproveitar as ferramentas da inteligência artificial para ajudar na parte comercial, explica o CEO Rui Costa. Isto é, “ajudar nas tarefas que não acrescentam valor, mas que demoram o seu tempo”.

“Introduzir encomendas tanto pode demorar uma hora como demorar um dia inteiro, dependendo das quantidades e das várias referências que os clientes possam ter”, exemplifica. Com estas novas ferramentas que utilizam IA, Rui Costa prevê ganhar eficiência e dar tempo à equipa comercial para se focar no essencial:bom acompanhamento do cliente e garantir que a sua experiência é positiva para fazê-los ficar e continuarem a trabalhar” com a empresa.

Rui Costa está confiante de que a empresa vai conseguir acelerar o crescimento com esta tecnologia. Depois de ter fechado 2025 com uma faturação à volta de 65 milhões de euros, o grupo Becri, que emprega cerca de 800 pessoas nas cinco unidades (a Gubec é uma delas), espera que 2026 seja melhor que o ano passado.

Questionado sobre novos investimentos, o responsável do grupo de Barcelos lembra o “muito” que já investiu na última década: “começámos só com uma empresa e agora já vamos com cinco”. Ainda assim, nota que a nível produtivo estão “sempre atentos ao que há no mercado e a investir quando faz falta”, como é o caso da IA.

Mira à “Silicon Valley” do têxtil

À frente do negócio da Ameba em Portugal, Luís Fonseca realça que “o grande intuito é tentar perceber de que forma a IA consegue ajudar as empresas têxteis em Portugal a escalar o seu negócio e a criar automatismos que permitam escalar e perceber de que forma é que conseguem dinamizar as suas tarefas”.

Apesar de este ser o “ano zero” da startup em Portugal, a Ameba já anda por cá há vários meses. “Começámos [a trabalhar] com a Anglotex e com o grupo Becri, com uma pequena introdução para perceber de que forma a Ameba consegue integrar [os seus modelos] com os sistemas já existentes na empresa.

Concretamente, explica que a plataforma integra com os sistemas existentes na empresa, seja um e-mail, uma folha de Excel ou um ERP principal, a fim de recolher todos os dados existentes pela cadeia de abastecimento e “torná-los disponíveis num ponto único”. Ou seja, a IA consegue reconhecer toda a informação dispersa pela cadeia e agrupá-la num ponto.

“Criámos também alguns automatismos na área comercial, a fim de minimizar as tarefas administrativas das equipas, isto é, a criação das encomendas e a tradução e processamento das fichas técnicas”, acrescenta o mesmo responsável. A startup tem ainda uma ferramenta para a área de planeamento, que faz “o follow-up automático com os fornecedores, criando alertas caso algo fuja ao planeado”.

Soluções que, antecipa a Ameba, podem reduzir em 80% as tarefas atualmente desempenhadas por um humano e em 10% os prazos de entrega dos fornecedores. Com uma visão bastante otimista para Portugal, a startup espera este ano conseguir angariar mais 16 empresas para a lista de clientes.

Cedrik Hoffman, fundador e CEO da Ameba

Numa sessão com sala cheia — as inscrições duplicaram a capacidade da sala do INNSiDE by Meliá Braga Centro — e que marcou esta semana o lançamento oficial da Ameba em Portugal, Cedrik Hoffman, CEO e fundador, partilhou o seu entusiasmo perante os representantes de várias empresas do setor, chamando a Portugal a “Silicon Valley” da indústria têxtil.

Em declarações ao ECO, Cedric Hoffman realçou que foi “muito natural” trazer para Portugal as soluções da empresa sediada em Londres, pois apesar de este ser um setor muito tradicional, “as pessoas realmente querem inovar”. Numa indústria que tem vindo a modernizar-se e a automatizar as linhas de produção, a Ameba promete ajudar a “automatizar o trabalho que ninguém quer fazer”, focando-se na parte administrativa que, no caso do têxtil, pode ser bastante pesada.

Assim, a startup recorreu à IA para “automatizar o trabalho que os humanos não deveriam fazer: ler um e-mail, recolher os dados, escrever no Excel, recolher os dados do Excel, metê-los num sistema… não é trabalho divertido e não é trabalho útil“, detalha. “Se pode automatizar-se esse processo, pode libertar-se o gerente comercial para fazer mais vendas“.

“Se há um país no mundo que realmente precisa disto, é Portugal. Porque eu vou para a Turquia e os salários são muito baixos. Vai para a China e já é automatizado porque usam a inteligência artificial. Em Portugal, ainda não temos isso, então é um bom lugar para entrar e para se revolucionar com a IA”, sublinha.

Apesar de, para já, apenas contar com um representante em Portugal, Luís Fonseca, o CEO da Ameba não descarta criar uma equipa em Portugal. Tudo vai depender da procura.

Dar credibilidade a um utilizador “idiota”

Armando Mota, CEO da Inforcávado (Protextil), avisa, no entanto, para os desafios de desenvolver softwares ajustados a estas novas soluções. “Todas estas ideias maravilhosas… para nós é uma trabalheira desgraçada“, admite num tom leve, notando que é preciso “preparar tudo muito bem, dar-lhes a informação correta, garantir que toda a informação que vai para o sistema é validada”. “No fundo, a IA é mais um utilizador… idiota. Faz coisas que nós nem podemos imaginar, portanto, temos de dar garantias aos nossos clientes” que não há erros.

A integrar as ferramentas da Ameba, a Protextil também está a desenvolver as suas próprias soluções, nomeadamente na área de planeamento. “Estamos a preparar o nosso software para que amanhã venham outros players e outras IA, outros agentes”, acrescentou Armando Mota. Apesar de reconhecer o potencial da tecnologia, o CEO da Inforcávado advertiu que a “função do software é não confiar totalmente na IA”.

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