Rui Lopes: “Nem tudo é sobre o resultado final. Tens de ter 50% de resultados e 50% de atitude”

  • ECO
  • 2 Fevereiro 2026

Tinha o sonho de ser jogador de futebol, mas acabou por estudar economia e dedicar-se à intermediação de créditos. Hoje, Rui Lopes é CEO da Simplefy e partilha o caminho até construir a sua empresa.

Rui Lopes, CEO da Simplefy, é o 63º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Neste episódio, conta como o sonho do futebol deu lugar aos números e às contas, partilha as dificuldades que encontrou pelo caminho e a forma como as superou até conseguir criar a sua empresa, a Simplefy.

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Eu sempre tive o sonho de ser jogador de futebol, mas desde os meus sete anos que me foi diagnosticado asma e a minha mãe não me deixava treinar. Cheguei a jogar futsal federado em Santarém e tinha o sonho que a minha área profissional tivesse alguma coisa a ver com o futebol. Quando entrei no secundário fui seguindo as minhas intuições e depois acabei por escolher economia porque sempre fui interessado pela atualidade e tinha uma cadeira de geografia. Como eu gosto de saber um pouco de tudo e adorava geografia, fui”, começou por dizer.

Depois de terminar o curso, Rui Lopes começou a trabalhar na União de Créditos Imobiliários (UCI), onde acabou por construir todo o seu percurso e experiência profissional até à Simplefy. Entrou na UCI como gestor comercial e conta que, apesar de gostar muito do mercado de capitais e da análise de risco, duvidou da sua capacidade comercial: “Os primeiros meses não foram nada fáceis. Entrei com um contrato de seis meses e no quinto mês eu estava sempre a 50/60% dos meus objetivos. As coisas não corriam bem, talvez pela minha personalidade. Era a primeira vez que eu estava a trabalhar e não tinha capacidade de desbloquear algumas situações iniciais com parceiros”.

Contudo, apesar da situação não lhe parecer nada favorável e de estar prestes a enviar uma carta de demissão, foi surpreendido pelo seu diretor. “Eu tive a sorte de ter um diretor que me deu a mão porque eu estava prestes a atirar a toalha ao chão. Lembro-me que, ao final do sexto mês, estava quase a preparar um e-mail e uma carta para agradecer o apoio e ir à minha vida. Mas foi quando o meu diretor me chamou a dizer que me iam renovar o contrato e me iam aumentar o salário. E eu aí percebi que nem tudo é sobre o resultado final. Tens de ter 50% de resultados e 50% de atitude. Eu sentia que tinha a atitude positiva porque eu desenvolvia planos de ação, diagnosticava o que tinha para fazer e estava a semear, mas ainda não estava a colher os frutos desse trabalho porque há um tempo…“, explicou.

O voto do confiança do seu diretor foi, por isso, uma verdadeira alavanca e permitiu ao agora CEO ganhar outra perspetiva e confiança sobre o seu potencial enquanto profissional: “Foi um clique. No primeiro semestre terminei com 50% dos resultados, se calhar nem isso, mas acabei o segundo semestre com 120%. Senti confiança e senti que confiaram em mim, então naquele momento sentia que tinha uma dívida de gratidão”.

No ano seguinte, em 2005, renovou o contrato e passou a efetivo, o que lhe deu melhores condições de trabalho, entre as quais ter, pela primeira vez, carro da empresa. Nessa altura foi ainda convidado para um assessment, em Atenas, para subir à posição de diretor. “Eu era o outsider, era o miúdo que tinha acabado de entrar há um ano, mas encarei essa experiência de uma forma muito positiva e entendi que era ali que tinha de me provar. Por isso, aos 26 anos passei a liderar uma equipa e tive o maior desafio pessoal até à altura, que foi deslocar-me de Lisboa para Coimbra”, partilhou.

Mudar-se para outra cidade já era um desafio, mas fazê-lo em família colocou sobre si uma pressão ainda maior. Ainda assim, foi nesse momento que percebeu que era justamente aí que estava a sua maior força: “Estava a dois meses de me casar quando recebi a proposta e não dava para ir e vir todos os dias de Coimbra. A minha mulher estava a começar a trabalhar na carreira dela e já estava há dois anos numa multinacional, mas aí começou a prova de que o meu sucesso não é construído sozinho, é construído em família. A Patrícia [esposa] só me pediu dois dias para resolver isto dentro da empresa e disse que íamos para Coimbra”.

Chegado a Coimbra, confessa que sentiu um “misto de olhares” sobre si. “Sentia um misto de desconfiança por ser um miúdo que tinha acabado de chegar à empresa há pouco mais de dois anos, mas também o olhar de quem achava que eu realmente podia ter ali algo para lhes apoiar e ajudar a desenvolver. Houve este misto, mas rapidamente conquistei as pessoas. O nosso trabalho como líderes é conquistar as pessoas para que as façamos olhar para um objetivo comum“, disse.

Esteve na cidade dos estudantes durante quatro anos, mas em 2009 regressou a Lisboa e recebeu a promoção para diretor de desenvolvimento comercial. Ainda nesse cargo, em 2017, foi convidado para assumir a direção comercial e ser administrador da companhia no Brasil, proposta que aceitou, mesmo achando que não estava preparado: “Foi um salto quântico. Tinha 37 anos, mas acho que nunca estamos preparados. Felizmente há pessoas que acham que nós estamos preparados e isso é o mais importante. Eu sabia do negócio, tinha um modelo de gestão que tinha sucesso, sabia liderar pessoas, portanto, do ponto de vista profissional, tinha zero dúvidas”.

Quando chegou ao Brasil percebeu que, afinal, ia aprender mais do que ensinar, já que sentiu que teve de se adaptar à cultura, às formas de trabalho, e só depois aplicar o seu método. “Se eu chego a um local novo, eu tenho de me adaptar àquilo que vou encontrar. Depois é que vais impondo o teu estilo. E foi isso que aconteceu. Eu achava que ia lá ensinar, mas em ´três tempos´ vi que eles é que me iam ensinar. Vim diferente e com uma sensibilidade muito maior. Eu era uma pessoa bastante ansiosa, sofria bastante com a tomada de decisões e com prazos, mas vim com aquilo em que os brasileiros são melhores, que é em viver o presente”, admitiu.

Regressou a Portugal cinco anos depois, com 42 anos, e aí deparou-se com uma dúvida: “Ou continuava e ia reformar-me na UCI, ou dava uma reviravolta e tentava fazer coisas diferentes”. Nesse momento acabou por ser desafiado por um grupo de investidores a criar uma empresa de raiz na área de intermediação de crédito – a Simplefy -, e aceitou. “Eles tinham uma ideia clara do que queriam fazer, mas não tinham o conhecimento e andavam à procura da pessoa certa para o projeto. Sei que sondaram o mercado, chegaram até mim e entenderam que eu poderia ser a pessoa certa. Desafiaram-me a traçar um draft de um plano de negócios, gostaram, e foi assim que aconteceu. Cheguei em Setembro à UCI Portugal e em Dezembro estava a apresentar a minha carta de demissão”.

“Eu consegui convencer os meus investidores de que se fosse para fazer algo que já existia, iríamos ter um crescimento lento e que não era muito sustentável ao longo do tempo. Portanto, eu queria fazer algo diferente e isso vê-se pelo nosso modelo de negócio, que não é um modelo de franchising. Ele apoia as marcas próprias através de um conceito original brand by Simplefy, e, no limite, somos um fornecedor de serviço e temos outros intermediários que compram a marca. Ao todo, temos cerca de 320 intermediários e vamos fazer 1200 milhões de euros este ano“, revelou.

Apesar dos excelentes resultados, Rui Lopes partilhou, no entanto, que o início “não foi nada fácil”: “Lembro-me de que no meu primeiro dia de trabalho tinha uma folha em branco, um computador e um telemóvel em cima da mesa e tinha de fazer tudo do zero. Não havia marca, não havia nada. Envolvemos empresas externas na parte da tecnologia e no desenvolvimento das ferramentas, quer na parte do branding, quer na criação da marca, que foi um dos momentos maiores que atingimos no primeiro ano”.

Eu, para tomar esta decisão, tive de pensar dez vezes. Na vida, temos de ir conferindo verticais para tomar as decisões. Quanto à parte profissional, eu dominava porque tinha o projeto, tinha o know-how, e sabia o que queria implementar. Quanto às pessoas com quem iria trabalhar, os investidores, eu não os conhecia em profundidade, mas eles deram-me confiança, portanto eu tinha as duas primeiras verticais conferidas. Depois vem a componente financeira, que é o plus na questão, mas a verdade é que se não tivermos as duas primeiras conferidas, não vale a pena sequer falar numa componente financeira. Portanto, eu não acho que sou mais corajoso do que os outros, mas acho que, sim, é preciso fazer um bom plano para a decisão“, concluiu.

Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e dos Vinhos de Setúbal.

Pode assistir ao episódio completo aqui:

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