Eurobic multiplica lucros em 2022, mas Banco de Portugal trava dividendos
Banco que tem Isabel dos Santos como acionista teve lucros de mais de 40 milhões de euros e ainda aguarda pela venda ao espanhol Abanca, operação que poderá ajudar a desbloquear os dividendos.
A subida dos juros ajudou o Eurobic, o banco português onde Isabel dos Santos ainda é acionista de referência, a multiplicar os lucros para 40,3 milhões de euros no ano passado, face aos 7,5 milhões de 2021, mas a instituição está impedida pelo Banco de Portugal de distribuir dividendos aos acionistas – que no caso da empresária angolana já se encontram arrestados por conta de vários processos judiciais no âmbito do Luanda Leaks.
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De acordo com as contas de 2022, por não cumprir todos os rácios regulamentares, nomeadamente o requisito combinado de reserva de fundos próprios quando considerado adicionalmente ao requisito MREL – almofada financeira que os bancos têm de ter para responder a eventuais perdas –, o Eurobic viu o supervisor aplicar-lhe um projeto de decisão “no qual se determina que não pode proceder a qualquer distribuição de dividendos”.
Um problema que espera resolver assim que for concretizada a venda aos espanhóis do Abanca. O banco conta emitir dívida para voltar a cumprir aquele requisito regulatório, mas acredita que a mudança de dono vai “melhorar significativamente as condições de acesso ao mercado”. Pelo que só planeia fazer estas operações “num momento posterior à concretização do processo de venda de participações sociais atualmente em curso”. Em todo o caso, assegura que não está em causa a continuidade das operações.
Segundo o Eurobic, o atual processo de alienação envolve apenas os galegos do Abanca, para ficarem com 100% do capital do banco português – Isabel dos Santos (47,5%) e Fernandos Teles (42,5%) são os principais acionistas.
“As entidades intervenientes encontrar-se-ão numa fase final de negociações, procurando assegurar a existência das condições formais necessárias à concretização da transação”, esclarece.
Margem financeira dispara 15% à boleia do BCE
Apesar do impasse acionista, que persiste desde que rebentou o caso Luanda Leaks no início de 2020, o Eurobic teve um ano de 2022 positivo em termos de negócio, muito suportado pela subida das taxas de juro do Banco Central Europeu (BCE) e também pelo facto de ter sido um ano sem grandes restrições da Covid-19, que fez aumentar as transações.
Em resultado disso, viu a margem financeira – diferença entre juros cobrados nos empréstimos e juros pagos nos depósitos – disparar 14,5% para 121,1 milhões de euros, enquanto as comissões registaram um salto de 18,5% para 38 milhões. O produto bancário somou 12,4% para 155,5 milhões.
O banco fala em “recuperação dos resultados face aos dois anos anteriores” – em 2021 foram positivos em 7,5 milhões e 2020 tinham sido negativos.
O volume de negócios cresceu quase 2% para 12,2 mil milhões de euros, com a carteira de crédito a aumentar 2% para 5,6 mil milhões e os depósitos a subirem 2,2% para 6,2 mil milhões.
A melhoria dos resultados permitiu que a situação líquida do banco, com mais de 1.400 trabalhadores e 180 agências, superasse os 600 milhões de euros no final do ano passado.
Processo de 52,6 milhões na Holanda
O banco continua a ser muito condicionado pelos efeitos do Luanda Leaks, como reconhecem o CEO e o chairman, José Azevedo Pereira e Pedro Maia, na mensagem que deixam no relatório e contas publicado agora. “Este fenómeno, que se encontra centrado numa acionista de referência, trouxe consequências reputacionais e comerciais significativas”, admitem.
Um dos processos que o Eurobic enfrenta e que está ligado a Isabel dos Santos passa pelo Tribunal de Amesterdão. O banco arrisca a ser um dos 13 responsáveis solidários por reembolsar 52,6 milhões de euros relativos a dividendos que a Esperaza, sociedade da empresária angolana, distribuiu e foram transferidos de uma conta desta empresa sediada no Banco BIC Cabo Verde, S.A. para uma conta da Exem Energy B.V. domiciliada no EuroBic.
Este processo está numa fase inicial, e ainda não tinha sido concluída a fase de audição preliminar dos réus, conta o banco sobre uma contingência para a qual ainda não tinha registado provisões.
Já em março deste ano, e sem adiantar pormenores, o Eurobic foi notificado do teor da decisão do Banco de Portugal como resultado de uma ação de inspeção realizada em final de 2019 e início de 2020 sobre os procedimentos implementados em matéria de prevenção do branqueamento de capitais e do financiamento do terrorismo. Esta ação teve origem em 2015, mas ganhou outros contornos com o Luanda Leaks.
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