Crédito na ponta dos dedos. A nova aposta da banca

Depois do acesso a contas e a poupanças, alguns bancos começaram a disponibilizar crédito através de apps. O consumidor tem a ganhar ou perder com esta nova tendência?

O surgimento dos smartphones colocou todo o mundo à distância de apenas um toque num ecrã. Para além de facilitar o acesso a toda a informação disponível na “rede”, agiliza o contacto entre as pessoas, mas também com as instituições. Um fenómeno a que os bancos estão atentos. A mais recente aposta neste âmbito, depois do acesso às contas, mas também das poupanças, é o crédito, que em algumas instituições financeiras já está disponível. Uma solução que tem vantagens, mas também merece reflexão.

O Banco CTT e o Santander Totta são os primeiros protagonistas desta nova tendência. No final de janeiro, o banco liderado por Luís Pereira Coutinho estreou-se no negócio de concessão de crédito à habitação, tendo para tal criado uma app específica para tratar de todas as fases do processo que conduzem à contratação do empréstimo: a Casa Banco CTT. Poucos dias depois, foi a vez de também o Santander Totta anunciar a possibilidade de contratar um crédito pessoal através da sua app: o CrediSIMPLES.

A adaptação a uma nova realidade

A disponibilização de crédito através de apps é um passo à frente face a um grande conjunto de operações relacionadas com a gestão das finanças pessoais que os portugueses já podiam fazer pelo smartphone onde quer que estivessem. É possível seguir a conta bancária e realizar um conjunto de operações como se se dirigisse a um Multibanco ou ao balcão do banco, tal como pagamentos de bens ou serviços, transferências, requisição de cheques, subscrição de depósitos ou a realização de investimentos. O homebanking foi o primeiro passo nesse sentido. Mais recentemente, os bancos investiram na criação de apps próprias que permitem fazer todo este tipo de operações e que muito têm sido publicitadas nos respetivos sites. Agora chegou a vez de os bancos começarem a apostar na criação de apps específicas para oferecerem crédito.

"Os bancos fazem esta aposta com três objetivos: ganhar notoriedade por ainda ser uma novidade, aumentar o número de créditos concedidos ao facilitar o processo e aproveitar alguma eventual impulsividade, desmaterializar mais as operações retirando alguma componente documental e de envolvimento de pessoas/quadros no processo.”

Filipe Garcia

IMF

“Os bancos fazem esta aposta com três objetivos: ganhar notoriedade por ainda ser uma novidade, desmaterializar mais as operações retirando alguma componente documental e de envolvimento de pessoas/quadros no processo, mas também para aumentar o número de créditos concedidos ao facilitar o processo e aproveitar alguma eventual impulsividade”, diz Filipe Garcia, economista da IMF, para justificar a recente aposta dos bancos na disponibilização de crédito por esta via.

Os números comprovam a crescente adesão dos portugueses à banca online. Dados divulgados recentemente pela Marktest indicam que, no final de 2016, mais de 2.500 milhões de portugueses utilizavam o homebanking. Ou seja, 35% dos residentes no Continente. Este valor compara com uma taxa de penetração de 11,8% que se registava em 2003, quando ainda eram dados os primeiros passos dessa nova tendência.

Esta maior apetência pelo banca digital acontece numa altura em que a necessidade de reduzir a estrutura de custos é um dos fatores que tem levado os bancos a apostarem no online como forma de disponibilizar serviços aos seus clientes. A reestruturação do setor financeiro tem sido marcada tanto pelo fecho de balcões como pela dispensa de funcionários, sendo que só nos cinco anos que terminaram em 2015, a banca nacional fechou 1.400 agências e perdeu nove mil trabalhadores. Já do ponto de vista dos consumidores, a adesão a este tipo de serviços constitui também uma forma de “facilitar” o próprio dia-a-dia.

E tudo isto num contexto em que a política monetária expansionista levada a cabo pelo Banco Central europeu (BCE), assente em juros historicamente reduzidos, incentiva os bancos a injetarem liquidez no mercado. Ou seja disponibilizar mais crédito. Uma necessidade que é fácil de constatar, bastando para tal visitar os sites dos banco onde estes dão grande destaque a campanhas de concessão de crédito à habitação, crédito pessoal e de cartões de crédito. Uma aposta que tem surtido efeito, tendo em conta que, só no ano passado, a nova concessão de crédito à habitação aumentou em 44,3% face ao ano anterior, enquanto o crédito ao consumo cresceu 20,6% no mesmo período.

Evolução da adesão dos portugueses ao internet banking

Fonte: Marktest, Basef Banca| Taxa de penetração face à população portuguesa bancarizada

No que respeita ao caso específico da disponibilização de crédito à distância, através de uma app, a expectativa aponta também no sentido do crescimento. “Parece-me evidente que se trata de uma tendência emergente, mas que vem para ficar. Quando se fala em fintech estamos a falar de exemplos destes. O processo de concessão de crédito, tal como muitos outros na banca, tem tendência para ser desmaterializado e, simultaneamente, automatizado”, defende Filipe Garcia.

Não ignorar os riscos

Apesar das vantagens associadas à utilização de ferramentas online na gestão da relação entre bancos e clientes, também há riscos que não podem ser ignorados. Nomeadamente o facto de poder banalizar de alguma forma uma decisão que pode ter implicações negativas para a situação financeira das famílias. Uma realidade que não está assim tão distante. O crédito fácil que marcou o período anterior à crise financeira, em Portugal, acabou por levar muitas famílias a entrar em situações de incumprimento, com o malparado a atingir valores recorde. Uma realidade da qual ainda se sentem os efeitos.

Não podemos diabolizar os meios, quando o relevante é mesmo a decisão de contrair ou não um crédito e isso deve ser sempre alvo de uma reflexão cuidada. Estamos perante uma forma de contratação e abordagem ao mercado que veio para ficar.

Filipe Garcia

IMF

Uma situação que de acordo com o economista da IMF não suscita motivos de preocupação. “Cada vez mais a aprovação de crédito no retalho é efetuada quase exclusivamente através de modelos. Se a intervenção humana tem um peso diminuto nestas operações, então porque não automatiza-las ao máximo? Isso permitirá aos bancos serem mais competitivos em termos de preços e, inclusivamente, tornar o processo mais confortável”, salienta Filipe Garcia. E acrescenta: “Não podemos diabolizar os meios, quando o relevante é mesmo a decisão de contrair ou não um crédito e isso deve ser sempre alvo de uma reflexão cuidada. Estamos perante uma forma de contratação e abordagem ao mercado que veio para ficar”.

No entanto, o retrato da realidade nacional não joga muito a favor dos portugueses, sobretudo tendo em conta o facto de estes ainda revelarem grandes lacunas no que respeita aos temas das finanças pessoais. O último inquérito à literacia financeira da população portuguesa divulgado em outubro do ano passado comprova isso mesmo. Para além da maioria dos inquiridos (59,1%) ter afirmado que elege o balcão do banco como a principal fonte de conselhos para a escolha de produtos financeiros, esta avaliação, foi possível constatar também, por exemplo, que apenas um em cada dez portugueses sabia explicar com exatidão o conceito da Euribor. Apenas dois, também em dez, respondeu de forma correta quando questionados sobre o significado da palavra spread.

Em quem confiam mais para escolher produtos financeiros?

Fonte: Relatório do Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa
Fonte: Relatório do Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa

Ou seja, a grande maioria dos portugueses desconhece conceitos básicos associados à contratação de um crédito à habitação. Será assim uma app a melhor forma de realizar um crédito? “É verdade que esta abordagem pode levar a alguma impulsividade, mas isso com certeza não se aplica aos créditos de maior montante como o crédito à habitação. Eventualmente poderá acontecer esse fenómeno no crédito pessoal, mas não é muito diferente do que já acontece nas lojas e nos stands de automóveis em que um indivíduo pode entrar apenas por curiosidade e sai com um contrato assinado“, defende Filipe Garcia.

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