Inflação na Venezuela vai em 800%, mas ainda não parou

O FMI prevê um agravamento das condições económicas do país. A contração económica será acompanhada de um cenário de hiperinflação. O fundo admite valores superiores a 1600%.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) atualizou as previsões económicas para a América Latina e as Caraíbas, prevendo que o Produto Interno Bruto (PIB) da Venezuela registe uma nova contração e que o país entre em hiperinflação.

A Venezuela continua emersa numa profunda crise económica que avança para uma hiperinflação”, afirma o FMI. A inflação, estimada em 800% em 2016, de acordo com os dados preliminares do Banco Central da Venezuela divulgados pela Reuters na última sexta-feira, deve piorar ainda mais. O Fundo, na sua previsão de outubro de 2016, colocava a fasquia da inflação para 2017 nos 1660,05%, mas nesta revisão de cenários divulgadas esta segunda-feira, o FMI frisa que os indicadores do país continuam a deteriorar-se.

Uma deterioração que se justifica pelo elevado défice orçamental, as enormes distorções económicas e uma forte restrição da disponibilidade de importações de bens intermédios. Os dados divulgados pelo FMI projetam “uma marcada contração da atividade económica” em 2017, ou seja, uma contração do PIB de 6%, inferior à de 2016 (-12%) e de 2015 (-6,3%).

A gravidade da situação económica levou já o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, a anunciar uma mudança na cúpula do banco central. O economista, deputado e aliado político de Maduro, Ricardo Sanguino é o novo governador que substitui assim Nelson Merentes, “um matemático que controlava a instituição desde 2009”, escreve a revista brasileira Veja. “Conheço-o muito bem [a Ricardo Sanguino]. É um dos homens mais estudiosos e conhecedores da vida financeira e monetária do país”, afirmou Maduro no seu programa televisivo, justificando assim a sua escolha.

Já no dia 15, o Presidente Maduro anunciou a assinatura do primeiro Decreto de Emergência Económica de 2017, para superar a crise e dar continuidade ao estado de “exceção” que vigora no país desde janeiro de 2016. A queda dos preços do petróleo não ajudaram em nada esta economia fortemente dependente desta fonte de receitas, levando a uma forte escassez de produtos numa economia fortemente centralizada. Maduro atribui as culpas da situação a uma guerra económica levada a cabo pelos seus adversários políticos com a ajuda dos Estados Unidos.

A incerteza quanto à política comercial do novo Presidente do Estados Unidos é outro dos riscos que o FMI aponta para a América Latina.

A oposição já voltou à rua para exigir eleições e estas previsões económicas dão gás às exigências de mudanças económicas.

Pro-government supporters dance during a march to accompany the coffin of Fabricio Ojeda, former president of the Patriotic Junta and leader of the Armed Forces of National Liberation (FALN), to the National Pantheon in Caracas, Venezuela, on Monday, Jan. 23, 2017. Venezuelan president Nicolas Maduro issued a statement that Venezuela's National Assembly "is in contempt" and "doesn't exist" in response to Congress declaring him an "abandoned president." Photographer: Carlos Becerra/Bloomberg
Manifestante pró-governamentais dançam durante uma manifestação para acompanhar o caixão de Fabricio Ojeda, antigo presidente da Junta Patriótica e líder das Forças Armadas da Libertação Nacional (FALN), até ao Panteão Nacional em Caracas, a 23 de janeiro. Caracas tem sido palco de diversas manifestações, nomeadamente da oposição que exige eleições. Fotógrafo: Carlos Becerra/Bloomberg

Para Carlos Vecchio, coordenador político da Voluntad Popular, e opositor de Maduro, a única forma de mudar as projeções económicas através de uma mudança no Governo. “Ainda não tocámos no fundo. A crise vai agudizar-se. O impacto social será devastador se Maduro continuar no poder”, disse o responsável através da sua conta no Twitter.

 

Mesmo neste contexto de crise, Portugal aumentou as suas exportações para a Venezuela. De acordo com os dados do instituto Nacional de Estatísticas (INE), Portugal exportou 36,43 milhões de euros para a Venezuela, um salto de mais de 2000% face aos 1,49 milhões de euros exportados em 2015. Recorde-se que Portugal tem uma extensa comunidade emigrante na Venezuela, sendo que alguns portugueses, perante a crise, até já optaram por regressar.

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