O que importa antecipar: do planeamento à resiliência climática
Helena Chaves Anjos convoca as seguradoras a prevenir catástrofes, como incêndios, assegurando vantagens aos segurados que tomem iniciativa de mitigar os riscos que representam.
Os incêndios florestais em França e Espanha evidenciam que o risco climático produz impactos humanos, económicos e seguradores significativos, deixando de constituir apenas um cenário de longo prazo. Perante esta realidade, o setor segurador é chamado a reforçar a integração do risco climático na governação, na avaliação prospetiva dos riscos, na subscrição, na tarifação e na gestão do capital, consolidando uma abordagem prudencial assente na prevenção e na resiliência.
Da reação à adaptação
Neste contexto, a autoridade francesa de supervisão prudencial, Autorité de contrôle prudentiel et de résolution (ACPR)1, divulgou recentemente um estudo dedicado às medidas de adaptação desenvolvidas pelas principais seguradoras do ramo Não Vida perante o aumento da sinistralidade climática. O trabalho surge na sequência do exercício de stress-test climático realizado em 2024, que estimou um agravamento próximo de 3 mil milhões de euros até 2050, correspondente a um aumento de cerca de 60% das perdas médias associadas à seca, inundações e submersão costeira.
Mais do que retratar a realidade do mercado francês, o estudo evidencia a evolução da supervisão prudencial europeia para uma abordagem mais prospetiva dos riscos climáticos, centrada não apenas na capacidade financeira para absorver perdas, mas também na sua antecipação, gestão e mitigação. Esta orientação, refletida na revisão da Solvência II, nas orientações da EIOPA e na integração crescente dos riscos climáticos no ORSA, assume igualmente particular relevância para o mercado segurador português.
Da análise à avaliação
Um dos aspetos mais relevantes do estudo é evidenciar que a adaptação ao risco climático já se traduz em práticas concretas implementadas por várias seguradoras, revelando uma crescente maturidade na sua gestão. Entre as principais evoluções destacam-se quatro áreas fundamentais:
- Planeamento prospetivo: adoção de um “orçamento climático”, permitindo estimar o impacto financeiro esperado das alterações climáticas, antecipar necessidades de capital e apoiar decisões de subscrição e tarifação;
- Provisionamento técnico: utilização de modelos atuariais mais granulares, distinguindo diferentes perigos climáticos — seca, inundações, tempestades ou submersão marinha —, reforçando a qualidade das provisões técnicas;
- Cartografia do risco: desenvolvimento de modelos geoespaciais mais precisos para identificar áreas vulneráveis, apoiar a subscrição e ajustar os prémios ao perfil efetivo de risco;
- Modelo de governação: integração do risco climático na estratégia empresarial, envolvendo diretamente os órgãos de administração, a gestão do capital e o acompanhamento permanente da exposição climática;
- Supervisão prudencial: evolução para uma abordagem prospetiva baseada no perfil de risco, reforçando a integração dos riscos climáticos no ORSA, na governação e no diálogo entre supervisores e seguradoras.
Contudo, o estudo identifica igualmente um desafio que merece reflexão. Apesar de algumas seguradoras recomendarem medidas preventivas aos segurados, estas iniciativas raramente influenciam a subscrição ou o preço do seguro, sobretudo no segmento particular. Em consequência, perde-se parte do potencial económico da prevenção, já que o investimento realizado pelo segurado na redução da vulnerabilidade continua, em muitos casos, sem tradução contratual.
Da solvência à resiliência
A principal conclusão deste estudo ultrapassa largamente a realidade francesa. O desafio consiste em adaptar o próprio modelo de negócio do seguro às características de um risco cuja frequência e intensidade não podem ser explicadas apenas pelo comportamento histórico.
Durante décadas, a atividade seguradora desenvolveu metodologias robustas para estimar perdas futuras com base na experiência passada. As alterações climáticas introduzem, porém, um fator adicional de incerteza: a aceleração das tendências e a crescente volatilidade dos fenómenos extremos reduzem a capacidade preditiva das séries históricas. Esta realidade exige uma gestão mais prospetiva, combinando ciência climática, modelação atuarial, informação geoespacial e cenários de curto e de médio e longo prazo.
Neste contexto, ganha particular relevância o processo de autoavaliação do risco e da solvência (Own Risk and Solvency Assessment – ORSA), que permite integrar diferentes horizontes temporais e avaliar de forma dinâmica o impacto das alterações climáticas na solvência futura das empresas. A própria autoridade francesa sublinha que este processo constitui um dos instrumentos mais eficazes para incorporar estes riscos na governação e na definição do apetite pelo risco.
A mudança mais significativa é ainda a cultural. O seguro tende tradicionalmente a ser percecionado como um mecanismo de reparação financeira após a ocorrência do sinistro. O estudo aponta para uma evolução diferente, em que o segurador passa igualmente a desempenhar um papel ativo na redução da exposição, promovendo medidas preventivas, incentivando comportamentos resilientes e contribuindo para diminuir a vulnerabilidade dos ativos segurados. O objetivo passa por reforçar a capacidade futura de assegurar riscos, através da prevenção, da adaptação e de uma gestão prudencial cada vez mais prospetiva.
Da supervisão à prevenção
Este estudo constitui um exemplo concreto da evolução da supervisão europeia para uma abordagem mais integrada dos riscos climáticos. O desafio das seguradoras não consiste exclusivamente em garantir disponibilidade de capital suficiente para enfrentar eventos extremos. Importa igualmente assegurar que as mesmas possuem mecanismos de governação, ferramentas analíticas e processos de decisão capazes de antecipar a evolução destes riscos.
Para o mercado português, esta reflexão assume particular atualidade. A implementação do regime de proporcionalidade, a crescente utilização de dados climáticos e referências geoespaciais, bem como o desenvolvimento de metodologias prospetivas de avaliação do risco, representam uma oportunidade para reforçar a resiliência do setor segurador nacional aos riscos de incêndios, entre outros riscos climáticos.
Importa, assim, aprofundar a articulação entre prevenção, subscrição e tarifação, permitindo que os investimentos realizados pelos segurados na mitigação do risco possam ser reconhecidos de forma objetiva na relação contratual. Este alinhamento de incentivos poderá contribuir simultaneamente para reduzir perdas futuras, melhorar a sustentabilidade técnica das carteiras e reforçar a confiança no seguro enquanto instrumento de adaptação às alterações climáticas.
Num contexto em que os riscos climáticos se tornam cada vez mais estruturais, a supervisão prudencial é chamada a desempenhar um papel decisivo. A inovação reside na capacidade de antecipar, reduzir e gerir os impactos dos riscos climáticos, reforçando a prevenção e a resiliência antes da ocorrência dos eventos extremos. É precisamente nesta transição — —da reação para a prevenção, da compensação para a resiliência que poderá residir uma das evoluções mais relevantes do setor segurador na próxima década.
1 Autorité de contrôle prudentiel et de résolution (ACPR), Revue de la sinistralité climatique sur un panel représentatif d’assureurs non-vie, 23 de julho de 2026; ACPR, Les principaux résultats de l’exercice climatique sur le secteur de l’assurance.
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