As competências digitais já não são uma vantagem competitiva?
Se as competências digitais estão a tornar-se num requisito básico, quais serão então os fatores que distinguem os profissionais mais preparados para o futuro?
Existe uma ideia amplamente aceite de que as competências digitais são a chave para a empregabilidade. E continuam a sê-lo, sem dúvida. No entanto, a rápida evolução da inteligência artificial (IA) tem vindo a expor uma nova realidade: saber utilizar a tecnologia já não basta para distinguir os profissionais mais preparados para o futuro.
A verdade é que o conhecimento tecnológico deixou de ser o único fator diferenciador, até porque, inegavelmente, tende a ficar obsoleto rapidamente. Assim, à medida que o acesso à tecnologia se generaliza, o verdadeiro diferencial passa a residir na capacidade de trabalhar, de forma crítica e criativa, com tecnologias cada vez mais sofisticadas.
Com efeito, num mercado de trabalho em ininterrupta transformação, a empregabilidade dependerá cada vez mais da combinação entre competências digitais e competências humanas.
Quando as competências digitais deixam de ser suficientes
A democratização do acesso a ferramentas tecnológicas mais avançadas reforçou, decerto, a importância das competências digitais. Consequentemente, à medida que estas ferramentas se tornam mais acessíveis, também se amplia a necessidade de saber utilizá-las de forma competente e orientada para resultados.
Aquilo que antes constituía um fator diferenciador está, portanto, a transformar-se num requisito básico de empregabilidade. Ou seja, se todos têm acesso às mesmas ferramentas, o valor não reside apenas na sua utilização.
"De acordo com o Fórum Económico Mundial, cerca de 40% das competências nucleares, ou core skills, da generalidade das profissões vão sofrer alterações nos próximos cinco anos.”
Nesse sentido, os profissionais terão de complementar as suas competências digitais com capacidades transversais a qualquer tipo de função. A diferença estará, por exemplo, na capacidade de:
- Analisar criticamente os resultados gerados por ferramentas de IA;
- Resolver problemas complexos em contextos de incerteza;
- Identificar oportunidades de inovação;
- Adaptar-se continuamente à evolução tecnológica.
Por outras palavras, a tecnologia está a nivelar o ponto de partida para qualquer trabalhador, independentemente do setor em que se insere.
O verdadeiro diferencial continua a ser humano
Se as competências digitais estão a tornar-se num requisito básico, quais serão então os fatores que distinguem os profissionais mais preparados para o futuro? A resposta reside nas competências que, apesar de serem frequentemente classificadas como soft skills, assumem uma importância cada vez mais estratégica.
Competências como o pensamento crítico, a criatividade, a curiosidade, a resiliência e a capacidade de adaptação estarão, pois, entre as mais valorizadas nos próximos anos.
Aliás, as competências associadas à interação e à experiência humanas apresentam um potencial de transformação pela IA de apenas 13%, segundo o Fórum Económico Mundial. Isto significa que características como empatia, colaboração, liderança ou raciocínio ético permanecem entre as mais difíceis de automatizar.
Por conseguinte, o desafio passa sobretudo por desenvolver as competências humanas que permitem trabalhar em complementaridade com a tecnologia: transformar informação em conhecimento e conhecimento em ação. Esta será a hard currency da era da IA.
A empregabilidade do futuro constrói-se na complementaridade
Para os profissionais, esta mudança exige uma atualização permanente, mas também capacidade de adaptação e pensamento crítico. Para as empresas, por sua vez, implica uma revisão da forma como recrutam e desenvolvem talento, valorizando as competências digitais mas não só. Importa colocar a tónica, igualmente, na capacidade de transformar conhecimento em inovação e resultados.
"Quase 80% dos empregadores preveem que a requalificação (reskilling) e a atualização de competências (upskilling) serão críticas para a sua estratégia de negócio nos próximos anos, de acordo com o Fórum Económico Mundial.”
Conceitos como o reskilling e o upskilling mantêm, por isso, plena relevância. Em particular, o reskilling ganha força com esta aposta nas competências humanas, transversais a todos os setores.
Afinal, a empregabilidade do futuro dependerá da capacidade de combinar tecnologia e competências humanas de forma inteligente e estruturada.
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