Consumo “imprevisível” retira água a Almada. Das restrições aos furos, conheça a resposta

Almada está em "situação de alerta" desde quarta, mas munícipes queixam-se de cortes "gravosos" há cerca de uma semana. Conheça o que se vive no concelho e as respostas que estão (e podem) ser dadas.

“Todos os anos, no verão, temos problemas de falta de água” mas “nunca tinha sido tão cedo, tão seguido e por tantos dias”, relata Ana Gaspar, médica que mora em São João da Caparica, desde 2016. Vive num apartamento com o companheiro, o filho de sete anos e um cão. E os últimos dias não têm sido de fácil gestão, devido à falta de água. Já há semanas que se notava episódios de pouca pressão da água, mas é desde a quinta-feira passada que tem sido “mais gravoso”, no caso desta família. O pior dia que regista foi sábado, no qual não teve água na torneira de casa durante 15 horas.

Os transtornos têm sido vários: muitas vezes deita-se sem tomar banho e só consegue tomar de manhã. Quando consegue tomar, por vezes o esquentador não dispara, dada a baixa pressão. A comida, compra-a agora pelo menos pré-feita, de forma a não sujar louça que não possa depois lavar. A roupa também demora mais tempo até ir à máquina, porque nem sempre há água para tal. Desistiu de ir à praia: “Estava farta de me deitar cheia de sal”. O filho, que tem atividades de tempos livres na escola durante o verão, já teve de vir duas vezes mais cedo para casa porque, sem água na escola, não era possível manter a higiene das casas de banho.

A gestão é mais difícil, também, pela imprevisibilidade. Ana Gaspar indica que não recebeu, ao longo dos últimos dias, qualquer tipo de notificação a anunciar interrupções de abastecimento, nem com previsão de duração. Teve apenas conhecimento do corte total que foi imposto esta quarta-feira, e que retirou o acesso a água a todos os cidadãos de Almada entre as 10 horas da noite e as 6 horas da manhã do dia seguinte. Foi apenas neste dia que a autarquia decretou “situação de alerta”.

Esta quinta-feira, a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, reuniu com a presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, e com outras entidades do setor, como a Agência Portuguesa do Ambiente. No final do encontro, indicou que o abastecimento de água no concelho só deverá voltar ao normal dentro de “duas a três semanas”, mas que a “cada dia vai melhorar”.

Para remediar a falta de água, até ao final desta semana, deverá estar operacional um novo furo, que vai aumentar em 20% a disponibilidade de água. Ao mesmo tempo, um outro furo “muito grande”, capaz de fornecer a quantidade necessária de água para suprir o consumo, vai ser licenciado “de imediato”.

Consumo aumenta com pico turístico mais cedo, mais licenciamento e ‘puxadas’ ilegais

A situação que o concelho enfrenta é excecional e resulta de um aumento muito significativo do consumo de água, que exerceu uma pressão sem precedentes sobre o sistema de abastecimento”, lê-se no comunicado publicado pelo Executivo municipal, no respetivo site, esta quarta-feira. O consumo de água em Almada aumentou, em média, mais de 4% no primeiro semestre de 2026, sendo que ao dia de hoje ultrapassa os 300 litros diários por habitante, quase o dobro da média nacional, de 180 litros diários por habitante.

As freguesias de Charneca da Caparica, Sobreda/Lazarim e Costa da Caparica são aquelas que mais têm visto crescer o respetivo consumo: registam subidas na ordem dos 15%, exceto a última, que se fica pelos 14,2%.

Estes dados foram invocados, no final da tarde desta quinta-feira, pela presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, num momento de esclarecimento aos jornalistas. Ao lado da ministra do Ambiente, a autarca defendeu que a subida no consumo foi “imprevisível”.

O salto no consumo, continuou, não se deveu a roturas, as quais foram “significativamente” reduzidas. Culpa antes o aumento da população, não só residente, como também aquela que aflui à Costa da Caparica no período do verão e que, este ano, parece ter chegado mais cedo. “O maior pico em Almada é na segunda quinzena de julho, mas começou este ano em maio”, disse, assegurando que desde esse mês que a autarquia tem vindo a trabalhar no problema do abastecimento de água “com toda a consciência”.

A ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, ao lado da presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros, após uma reunião sobre as falhas de abastecimento de água na autarquia.Lusa

Os maiores consumos estão nas zonas mais usadas durante o verão, assim como a zona onde tem havido mais construção, indicou a autarca. “Não excluímos, mas tem de ser apurado, se [a pressão sobre a água] não se deve à flexibilização que foi imposta aos municípios relativamente às regras do licenciamento”, refletiu, para depois rematar: “Haverá certamente puxadas ilegais”. Medeiros recorda que, no ano passado, houve “muito roubo de água”.

Em paralelo, a autarca admitiu que a percentagem de água desperdiçada no concelho é de 35%. “Um nível de perdas superior a 30% é muito elevado”, avalia Rita Maurício, professora associada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, em declarações ao ECO/Capital Verde. Também o nível que é atribuído aos reservatórios, que terão ficado com apenas 10% da respetiva capacidade, é muito baixo. Maurício indica que o recomendável é estarem cheios, pelo menos, a 50% da sua capacidade.

No curto prazo, esta especialista em abastecimento de água afirma que uma opção é, caso exista folga nos territórios à volta para cederam alguma da água que captam, construírem-se estruturas de emergência que façam o transvase para Almada. Contudo, confrontada com a questão de se, caso houvesse essa vontade e não se olhasse a custos, Almada poderia ter amanhã o abastecimento reposto, a professora é perentória: “Não”. Porque é preciso construir infraestrutura, e isso leva tempo.

Jardins sem rega, carros por lavar, fontes paradas e mais por reduzir

No já referido comunicado, a autarquia indicava que agora “é fundamental reduzir rapidamente os consumos para permitir a recuperação dos níveis de segurança dos reservatórios e garantir a continuidade do abastecimento”. No final da reunião em Almada, a ministra do Ambiente reforçou a mensagem, apelando a que “todos” os habitantes tivessem a “consciência” de reduzir o respetivo consumo ao essencial.

A medida mais restritiva a ser avançada até ao momento foi o corte total do abastecimento em algumas zonas de Almada, entre as 22 horas de quarta-feira, dia 8 de julho, e as 6 da manhã do dia seguinte. A professora da FCT diz que é uma medida necessária, mas que não está livre de risco: “Traz muitos desafios em termos de operação da própria rede. Pode provocar rotura, mais perdas, mais cortes. É uma situação muito delicada”.

Não é permitida a rega de jardins públicos, privados, e de campos de golfe, a lavagem de viaturas, pavimentos exteriores, logradouros, paredes e telhados, o enchimento de piscinas, a utilização de chuveiros e lava-pés nas zonas balneares, o funcionamento de fontes ornamentais ou lagos artificiais e, finalmente, “outras utilizações recreativas ou não indispensáveis”.

Em paralelo, o concelho indica que procurou garantir a disponibilidade de meios alternativos de abastecimento, como camiões-cisterna, para as “zonas onde tal venha a revelar-se necessário”, e garantir o abastecimento aos equipamentos e serviços essenciais, nomeadamente hospitais, centros de saúde, lares, bombeiros e restantes infraestruturas críticas. Houve também um reforço na mobilização de equipas de fiscalização, para prevenir consumos abusivos, utilizações ilegais de água e desperdícios, assim como para a deteção e reparação urgente de fugas e roturas e para monitorizar os níveis dos reservatórios.

No que diz respeito aos consumidores, foram proibidas “todas as utilizações de água da rede pública que não correspondam a usos domésticos ou essenciais”. Não é permitida a rega de jardins públicos, privados, e de campos de golfe, a lavagem de viaturas, pavimentos exteriores, logradouros, paredes e telhados, o enchimento de piscinas, a utilização de chuveiros e lava-pés nas zonas balneares, o funcionamento de fontes ornamentais ou lagos artificiais e, finalmente, “outras utilizações recreativas ou não indispensáveis”.

"Está igualmente a ser avaliada a necessidade de adotar medidas adicionais de redução de consumos, incluindo a suspensão temporária de atividades ou equipamentos municipais particularmente consumidores de água.”

Câmara Municipal de Almada

Comunicado

As restrições são várias, mas possivelmente não ficarão por aqui: “Está igualmente a ser avaliada a necessidade de adotar medidas adicionais de redução de consumos, incluindo a suspensão temporária de atividades ou equipamentos municipais particularmente consumidores de água”, indicou a Câmara, para depois concluir: “Cada litro de água poupado contribui para proteger o abastecimento de todos. É com o contributo de cada cidadão, de cada empresa e de cada instituição que conseguiremos ultrapassar este momento e regressar à normalidade o mais rapidamente possível”.

Trabalhar as perdas, limites e origens da água

A ministra do Ambiente indicou ainda que, depois de resolvida a situação, haverá “tempo para estudar” soluções a médio prazo, que permitam uma “maior resiliência” do sistema.

A primeira recomendação da professora da Nova FCT é atuar sobre as perdas de água. Lisboa, exemplifica, também tinha perdas “muito significativas”, mas foi feito “um trabalho imenso”.

Tem de haver esta proatividade em detrimento de ser reativo”, defende a especialista em abastecimento e tratamento de água. As poupanças vão além do recurso água: poupa-se também energia (e o custo associado) na captação, tratamento e distribuição de água que, depois, acaba desperdiçada.

Para responder ao problema de abastecimento, mais concretamente, Rita Maurício prevê que será necessário aumentar o número de captações, para fazer face ao crescimento da população. Nos concelhos à volta, que são abastecidos pelo mesmo aquífero, não há registo da mesma falta de água, pelo que deverá ser uma questão de infraestrutura.

“Felizmente, não é assim tão comum em território português” verificarem-se situações semelhantes às de Almada e, para já, o regulador da água indica que não tem registo de mais nenhuma. Contudo, “com as alterações climáticas, se tivermos novamente períodos de seca extrema muito prolongados”, há um risco.

Mas também há formas de aumentar a resiliência. Rita Maurício sugere repensar as “divisões administrativas” que condicionam o acesso à água. “Lá por serem concelhos diferentes, não significa que a água seja de A ou B”, pois os cidadãos têm os mesmos direitos – e deveres – no acesso à água, afirma.

Outra possibilidade é criar origens de água alternativas, adaptando a qualidade aos diferentes usos. É que “a água no autoclismo é igual à que bebemos. Se calhar não faz sentido”, defende, apelando a que os sistemas de abastecimento sejam repensados neste sentido.

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