FIFA retira plano de Infantino. E agora, Gianni?
O presidente da FIFA cedeu à forte oposição ao seu plano para criar uma empresa com privados para explorar os torneios mundiais. O que se segue?
Desde que ficou conhecida a proposta de Gianni Infantino para criar uma empresa, com acionistas privados, para explorar os direitos das principais provas mundiais de futebol, têm sido escassas as notícias positivas para o presidente da FIFA. Só nos últimos dias, o suíço perdeu um dos seus principais assessores, que bateu com a porta com estrondo público, foi criticado publicamente por um dos quatros de topo da FIFA e viu três das maiores confederações mundiais assumirem publicamente oposição ao plano, com uma maioria de votos que deveria ditar o seu fim. No entanto, Infantino é um sobrevivente e, depois de tanta pressão, acabou por deixar cair a ideia, para já. É o aparente fim de um episódio que estava a colocar em causa o próprio poder de Infantino à frente da FIFA, que se vai decidir em breve.
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O plano, em linhas gerais, passava pela criação de uma nova empresa, a FIFA Forward Enterprise (FFE), detentora de todos os direitos de exploração de receitas, patrocínios e inventário publicitário e direitos de transmissão, entre outros. O capital desta entidade, avaliada em 20 mil milhões de dólares, contaria com acionistas privados, ainda que Infantino tenha vindo agora reforçar que seriam sempre minoritários.
Segundo o Financial Times, que revelou inicialmente a proposta, este dossiê tem vindo a ser preparado em segredo ao longo dos últimos meses entre a FIFA, o banco norte-americano JP Morgan, e o até aqui desconhecido Joshua Kushner, que é irmão do genro de Donald Trump, Jared Kushner. Casado com Ivanka Trump e figura influente na Casa Branca, Jared Kushner tem inclusivamente ganho protagonismo enquanto negociador no conflito entre os Estados Unidos e o Irão, entre outros dossiês sensíveis. Ainda de acordo com o FT, o fundo Thrive Eternal, de Kushner, é um dos investidores que ficaria com uma fatia dessa nova empresa. O jornal inglês Guardian divulgou posteriormente as informações que o banco JP Morgan tem apresentado a potenciais investidores, com informações novas, não divulgadas pela FIFA, nomeadamente em matérias financeiras e abrindo a porta a um mundial de futebol com mais edições.
Depois de tanta oposição, foi já na madrugada de sábado que Infantino finalmente cedeu, depois de uma das semanas mais tensas na história do futebol mundial.
“Depois de ter escutado atentamente todos os pontos de vista, tornou-se claro que o projeto criou divisões de uma natureza tal que, independentemente do nível de apoio, não permitem cumprir os objetivos definidos inicialmente”, pode ler-se no comunicado do presidente da FIFA.
Depois de ter escutado atentamente todos os pontos de vista, tornou-se claro que o projeto criou divisões de uma natureza tal que, independentemente do nível de apoio, não permitem cumprir os objetivos definidos inicialmente. O nosso objetivo sempre foi – e sempre será – de unir e melhorar.
“O nosso objetivo sempre foi – e sempre será – de unir e melhorar. Como resultado, esta proposta não irá avançar. Para o futuro, o meu propósito é voltar a reunir todas as partes interessadas, nos próximos dias, no espírito do interesse comum no nosso jogo, com o objetivo de continuar a fazer crescer o futebol em todo o lado, particularmente naqueles países que mais precisam do nosso apoio”, acrescentou.
Mas por que razão a FIFA, e sobretudo Infantino, defendiam tanto este plano?
O argumento principal é que o futebol está “subcomercializado” face a outros grandes desportos mundiais. Ou seja, tendo em atenção o facto de ser o desporto mais popular em todo o mundo, as suas principais provas têm receitas comerciais abaixo de outras atividades, nomeadamente os modelos de competição desportiva dos Estados Unidos. Infantino argumenta que o aumento das receitas permitiria acelerar o programa de desenvolvimento do futebol em todo o mundo, nomeadamente nos países mais pobres. Este tem sido, aliás, um dos grandes argumentos para a progressiva comercialização dos torneios, até porque a missão da FIFA, enquanto entidade sem fins lucrativos, é promover o desenvolvimento do desporto a nível mundial. A ideia da FIFA era vender 20% dessa nova entidade, angariando pouco mais de 4 mil milhões de dólares.
Por outro lado, para o próprio Infantino (que Donald Trump até recomendou como um bom líder para as Nações Unidas), poderia haver uma outra intenção, de perpetuação do seu poder. O suíço-italiano deverá ser reeleito no primeiro trimestre de 2027 para o seu último mandato à frente da FIFA, até porque até agora não são conhecidos formalmente quaisquer opositores. Neste ponto, também há controvérsia, uma vez que os estatutos indicam que o cargo não pode ser ocupado pela mesma pessoa por mais de três mandatos de quatro anos. Ora, Infantino está à frente da FIFA desde 2016, pelo que em 2028 se cumpririam os 12 anos tradicionais. Acontece que, durante os primeiros três anos, Infantino liderou a FIFA depois da queda do seu antecessor Sepp Blatter, pelo que só foi duas vezes a eleições. Caso vença, como se espera, deverá ser presidente da FIFA até 2031. Nos termos conhecidos da FFE, o presidente da FIFA seria automaticamente o presidente da FFE, mas têm surgido relatos de que Infantino poderia estar interessado, depois do fim do seu mandato na FIFA, em assumir a liderança executiva da FFE. Assim, cumpriria os estatutos da FIFA mas continuaria num lugar de enorme poder dentro da organização.

Mas como se explica tamanha oposição a uma iniciativa que, em certos aspetos, é semelhante ao que foi feito pelas ligas espanhola e francesa ou pelo Comité Olímpico Internacional?
Há várias críticas que têm sido feitas, mas é impossível desligar a reação do cansaço que tem vindo a existir face a Gianni Infantino, nomeadamente as suas relações com Donald Trump e a crescente comercialização do futebol, em detrimento de aspetos considerados fundamentais do jogo. O último mundial de futebol foi um grande sucesso financeiro, mas ficou marcado por bilhetes muito caros, a participação da própria FIFA num mercado secundário que incentivava a especulação de preços (e lhe rendeu milhões) ou a introdução de “pausas para hidratação” como forma de partir o jogo em quatro partes e criar novos espaços publicitários premium. Já para não falar dos problemas ligados à entrada de atletas, árbitros e membros das comitivas nos Estados Unidos e, sobretudo, a despenalização de um jogador norte-americano depois de um telefonema de Trump ao seu amigo Infantino, que lhe tinha atribuído meses antes o Prémio FIFA da Paz, que não existia antes nem tem qualquer regulamento conhecido para a sua atribuição.
Os documentos relativos à FFE, que foram noticiados primeiro pelo FT antes de serem conhecidos pelas federações nacionais, indiciavam que outras mudanças poderiam estar a caminho, de forma a rentabilizar o investimento, entre eles uma maior frequência dos mundiais, que são historicamente de quatro em quatro anos. Num momento em que os jogadores se queixam do excesso de jogos e de falta de tempo de férias e de descanso, havia o receio de que este poder dado a uma entidade com investidores privados abriria espaço a novas decisões que privilegiariam a vertente financeira sobre a desportiva.
Há ainda outras questões, para além do slogan retórico de que estão a “vender o futebol”. É admitido no projeto que esta nova entidade possa recorrer aos mercados de dívida para alavancar o seu crescimento, mas está a ser questionada esta necessidade, tendo em atenção que a FIFA, juridicamente uma organização sem fins lucrativos e que deve reinvestir boa parte das receitas no futebol, tem em caixa vários milhares de milhões de dólares.
Outro ponto que causou estranheza foi o timing e o prazo para uma decisão. O mundial de futebol vai fazer 100 anos em 2030 – uma edição que decorrerá parcialmente em Portugal – mas Infantino pretendia que a criação da FFE – que só agora foi conhecida – fosse aprovada até meio de setembro. Para muitas vozes, não é em dois meses que se abre a porta ao que podem ser mudanças estruturais numa instituição que, durante 100 anos, funcionou e se afirmou internacionalmente.
O efeito JP Morgan
Esta não é a primeira vez que o JP Morgan tenta envolver-se na modernização comercial do futebol, e não é a primeira vez que corre mal. Há perto de cinco anos, a bomba foi a criação da Superliga Europeia, uma prova da qual fariam parte os maiores clubes do continente, num formato maioritariamente fechado e em detrimento das competições nacionais. Perante uma reação massiva por parte dos adeptos, a ideia — que nos maiores clubes espanhóis continua a ter muito apoio — foi abandonada. Para os adeptos, a rivalidade interna e até geográfica continua a ser muito importante, enquanto que para um agente financeiro de fora o raciocínio é outro, tentar ter sempre jogos entre as melhores e mais seguidas equipas.
“Tudo o que envolve o ‘soccer’ gera a mesma reação – talvez a única coisa mais polarizadora seja a política”, afirmou ao FT uma pessoa ligada ao projeto da FFE, admitindo, ainda assim, que não houve surpresas. Quem estava a preparar o plano já sabia que a reação do público em geral seria “histérica”. Segundo a mesma fonte, “muita da emoção está a tapar a simples premissa que está na base disto, que é como se pode monetizar melhor o produto, como qualquer empresa deveria querer fazer. Mas claro, é futebol, e isso traz problemas”.
Revolta no poder do futebol
As reações chegaram rápidas e furiosas. Já nesta sexta-feira, Carlos Cordeiro, um dos mais altos assessores de Infantino, demitiu-se e emitiu um duro comunicado contra o projeto da FFE. “Não posso ficar a ver enquanto a FIFA pondera vender uma participação no mundial de futebol. Não tive qualquer envolvimento nesta proposta e oponho-me a ela inequivocamente. É um mau negócio para as associações-membro da FIFA, para o futebol e é um mau negócio para o futuro do jogo a longo prazo”, escreveu na sua declaração de demissão.
Cordeiro, que foi líder da federação norte-americana de futebol e cujo pai é um luso-indiano, lembrou que a FIFA “já tem a capacidade financeira” para apoiar mais o desenvolvimento do desporto e que esta medida iria “hipotecar o futuro do futebol sem qualquer justificação significativa”.
E os tiros a Infantino não pararam. Já na tarde de sexta-feira, o Chief Operating Officer da FIFA, o francês Kevin Lamour enviou uma declaração à Associated Press na qual alegou que “o staff da FIFA foi enganado” ao não ter sido informado do que estava a ser preparado e que esse mesmo staff “merece mais do que “desprezo e intimidação”. Sem nunca mencionar o nome do presidente, Lamour afirmava que este “é um projeto de uma só pessoa” e que, na sua opinião, deveria ser rejeitado.
Se isto significa que eu perco o meu emprego, que assim seja. Irei entender e respeitar essa decisão. Mas ao menos dormirei bem esta noite
O COO da FIFA não se demitiu, mas admite que a sua saída é uma possibilidade: “se isto significa que eu perco o meu emprego, que assim seja. Irei entender e respeitar essa decisão. Mas ao menos dormirei bem esta noite”.
Mas, mais importante que a saída pública de um responsável, é a posição de várias confederações internacionais. Depois de a UEFA ter manifestado total oposição das federações europeias à ideia, seguiram-se a CONCACAF (América do Norte, Central e Caribe) e, na sexta-feira, a confederação asiática. Isto é importante porque estas entidades representam, em conjunto, 143 federações num total de 211. Ou seja, em teoria, estava aqui o poder para rejeitar o plano.
Ainda assim, Infantino tudo fez para segurar o seu plano, até este se tornar insustentável.
Perante as reações negativas, mas ainda antes da posição pública tomada pela confederação asiática, a FIFA emitiu um comunicado em que defendia que as suas intenções foram mal interpretadas, nomeadamente por parte da comunicação social (que deu a conhecer a situação). Admitindo que tudo estava em aberto em termos de definição final, incluindo que nada mude, a FIFA pedia que as federações ignorassem o ruído e que tomem uma decisão “com base em factos”.
Com uma aparente maioria de membros da FIFA contra a ideia, tudo parecia apontar para que a criação da FFE fosse, no mínimo, adiada, e eventualmente chumbada por completo. Porém, as confederações continentais não votam em bloco, e sim país a país. O modelo da FIFA estabelece que cada federação tem um voto, independentemente da sua dimensão física ou futebolística. No passado, este mecanismo foi usado por dirigentes da FIFA para ir procurando apoios específicos e oferecer contrapartidas para influenciar sentidos de voto, e isso poderia sempre acontecer novamente. Do comunicado da FIFA parecia ser esse o caminho escolhido para tentar levar a ideia avante.
Todos têm o direito de expressar a sua oposição e a pedir mais clarificações mas nenhuma entidade única pode reclamar o direito de representar 211 associações-membro de todo o mundo
O comunicado da FIFA deixava, aliás, uma “bicada” claramente dirigida à UEFA, a primeira e mais vocal opositora: “Todos têm o direito de expressar a sua oposição e a pedir mais clarificações mas nenhuma entidade única pode reclamar o direito de representar 211 associações-membro de todo o mundo”. Depois de a UEFA ter chegado a admitir que os seus países podem recusar participar num mundial (e cinco dos últimos seis vencedores de um mundial são europeus), cresceram as dúvidas se investidores privados teriam interesse em colocar o seu dinheiro num produto que ficaria claramente menos apetecível.
Essa reação de Gianni Infantino foi dentro do seu registo habitual: culpar os media por alegadamente interpretarem erradamente as suas ações; manifestar abertura para reavaliar os processos; e, em última análise, passar ao ataque, procurando levar a sua avante. Se, aparentemente, os números apontavam para o fracasso da criação da FIFA Forward Enterprise, na tarde de sexta-feira Infantino ainda mantinha a intenção de não desistir, acabando por reconhecer a derrota já durante a madrugada seguinte.
O que diz este episódio sobre a continuação de Infantino à frente da FIFA?
Noutras circunstâncias e noutro tipo de organização, seria impensável a manutenção e até a reeleição de alguém que, publicamente, não conta com a confiança de membros de peso do seu próprio staff e dos responsáveis de várias das maiores confederações mundiais do futebol. Porém, se, nos últimos dias, se têm multiplicado as vozes a pedir que surja um candidato concorrente à presidência da FIFA, nem que seja para promover o debate, a verdade é que esse nome ainda não apareceu.
Gianni Infantino já provou que é um sobrevivente e praticamente imune às críticas, como se viu no último campeonato do mundo. Agora, abre-se o caminho para uma possível luta de poder, estando por confirmar se a FFE e o fracasso de todo este processo são suficientes para acabar com o seu reinado.
O próximo congresso eletivo da FIFA será em março de 2027, em Rabat, Marrocos, com Infantino a ser o único a anunciar a candidatura, contando aliás com vários apoios públicos já expressos há vários meses. Historicamente, o lugar de presidente da FIFA é o resultado de um processo longo, de promessas e negociações com federações de todo o mundo, e menos acerca da pureza do jogo e sim daquilo que cada mercado sente que pode ganhar com este ou aquele candidato. Normalmente, o incumbente tem larga vantagem, porque controla a máquina por dentro.
Quem poderá desafiar Infantino?
Que o atual presidente da FIFA está fragilizado é uma evidência, mas para Infantino ser criticado publicamente nunca foi um problema, desde que consiga os seus objetivos. O prazo para a apresentação de candidaturas termina a 18 de novembro deste ano, bastando para tal que o candidato seja proposto por pelo menos cinco federações nacionais.
Nos últimos meses, e sobretudo nos últimos dias, têm sido apontados vários nomes para disputar a liderança.
Os mais falados são Alexander Ceferin, o esloveno que está à frente da UEFA e que não esconde a sua forte discordância face a Infantino; Nasser Al-Khelaifi, presidente do Paris Saint Germain; Victor Montagliani, o canadiano que preside à CONCACAF; Salman bin Ibrahim Al Khalifa, presidente da confederação asiática e com alto quadro na FIFA.
No entanto, Ceferin parece determinado em tentar cumprir mais um mandato à frente da UEFA; o líder do PSG precisaria de ser convencido, tendo um representante seu dito recentemente ao Politico que “o Nasser não tem qualquer ambição, qualquer intenção ou qualquer interesse no lugar da FIFA, e continuará a apoiar discretamente todas as instituições do futebol europeu e mundial”; Montagliani estará em fase exploratória de recolha de apoios; e Salman Al Khalifa, do Bahrain, não deu ainda sinais do que poderá querer fazer.
E, nos últimos dias, surgiu na imprensa inglesa um nome mais conhecido dos fãs de futebol mas ao mesmo tempo mais inesperado: o de Arsene Wenger. O antigo treinador do Arsenal é uma das vozes mais respeitadas no desporto, estando nos últimos anos à frente da unidade da FIFA dedicada ao desenvolvimento mundial do futebol. Porém, é visto como uma figura pouco política e flexível em termos da negociação que, historicamente, decide os presidentes do organismo.
Duas coisas parecem certas: Infantino nunca esteve tão pressionado e existem mais condições para uma ou mais candidaturas rivais; mas este é um mestre na diplomacia de bastidores e deverá passar os próximos meses a assegurar-se que o fracasso desta semana não belisca as suas hipóteses de mais um mandato de quatro anos.
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