Depósitos e certificados representam 44% do património financeiro das famílias. Fundos e ações ajudaram a ‘enriquecer’

Património financeiro das famílias mais que duplicou nos últimos 20 anos, suportado pelo aumento do peso dos ativos financeiros, com maior exposição a fundos e participações em empresas.

A situação financeira das famílias portuguesas registou uma evolução positiva nos últimos 20 anos. Segundo um retrato feito pelo Banco de Portugal, o património financeiro líquido dos portugueses mais do que duplicou entre 2005 e 2025, impulsionado pelo maior peso de participações no capital de empresas e fundos de investimento, ainda que a exposição a depósitos e certificados tenha aumentado. Cerca de 44% do património está aplicado nestes instrumentos de curto prazo.

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O património financeiro líquido das famílias, que resulta da diferença entre os ativos líquidos e as dívidas, aumentou de 172 mil milhões de euros em 2005 para 402 mil milhões de euros em 2025. Em percentagem do PIB (produto interno bruto), passou de 108% para 131%, revela uma análise apresentada, esta quinta-feira, pelo Banco de Portugal.

Apesar de continuar concentrado em ativos de baixo risco, com os depósitos e certificados de aforro e tesouro a representarem 44% do total, o património financeiro das famílias beneficiou de uma maior diversificação a ativos mais expostos à evolução dos mercados financeiros e com maior potencial de gerar retornos.

“O valor dos ativos financeiros aumentou em relação ao dos passivos e a dívida perdeu peso na economia. Embora os depósitos continuem a ser a principal aplicação financeira, as participações no capital de empresas e as unidades de participação em fundos de investimento assumem hoje uma maior importância“, explica o Banco de Portugal.

Segundo o Banco de Portugal, “esta mudança verificou-se não apenas no valor acumulado das aplicações financeiras das famílias, mas também na forma como estas se distribuem”, estando atualmente uma maior parcela “aplicada em instrumentos cujo valor depende da evolução dos mercados financeiros. Ao contrário dos depósitos, estes ativos podem valorizar-se ou desvalorizar-se ao longo do tempo“, explica o Banco de Portugal.

Contas feitas, os ativos financeiros mantiveram-se em níveis elevados, atingindo 194% do PIB em 2025. Por outro lado, os passivos diminuíram de 84% para 63% do PIB. “Esta alteração tornou mais favorável a relação entre ativos e passivos. Em 2005, os ativos financeiros das famílias correspondiam a cerca de 2,2 vezes o valor dos passivos. Em 2025, passaram a representar cerca de três vezes esse valor“, detalha o mesmo comunicado.

A descida do peso da dívida não corresponde a um travão no acesso a financiamento. Bem pelo contrário, o montante total de empréstimos atingiu cerca de 164 mil milhões de euros em 2025, o que corresponde a um novo máximo histórico. Contudo, o PIB nominal cresceu mais rapidamente do que o crédito concedido às famílias, reduzindo assim o peso da dívida na economia.

Depósitos crescem, mas fundos e ações também

Embora as famílias mostrem maior predisposição para aplicar parte das suas poupanças noutros ativos, é nos depósitos que continuam a colocar a maior parte do seu capital. Em 2025, o numerário e os depósitos (inclui certificados nesta categoria) representavam 44% do total dos ativos financeiros das famílias, acima dos 39% observados em 2005. Em percentagem do PIB, correspondiam a 86%, comparativamente com 73% em 2005.

Os bancos continuavam a concentrar a maior parte dos depósitos das famílias, com 77% do total em 2025, em comparação com cerca de 81% em 2005. Já as aplicações junto das administrações públicas, que incluem os certificados de aforro e os certificados do Tesouro, representavam cerca de 18%, enquanto os depósitos no exterior correspondiam aos restantes 4% (em 2005, estas percentagens eram de 14% e 5%, respetivamente).

As participações no capital de empresas e as unidades de participação em fundos de investimento passaram de cerca de 30% do total dos ativos financeiros em 2005 para quase 40% em 2025. Em percentagem do PIB, aumentaram de 60% para 77%.

Segundo o Banco de Portugal, esta evolução reflete, por um lado, o crescimento das participações detidas pelas famílias em empresas não cotadas em bolsa, incluindo empresas familiares e, por outro, a afirmação dos fundos de investimento como uma das principais formas de participação das famílias nos mercados de capitais.

Os fundos de investimento têm vindo a captar maior interesse das famílias nos últimos anos, captando uma parte significativa das novas aplicações das famílias em instrumentos financeiros de mercado. “Como consequência, uma parcela crescente do património financeiro das famílias passou a estar exposta às oscilações dos preços nos mercados financeiros”.

Em sentido oposto, os seguros e os fundos de pensões, que representavam, em 2005, 20% dos ativos financeiros das famílias, passaram a pesar apenas cerca de 11%, no final do ano passado. Em percentagem do PIB, o seu peso diminuiu de 38% para 21%.

Apesar da maior diversificação da exposição do património financeiro das famílias, Portugal continua a comparar mal com a Europa no que diz respeito à concentração em ativos de baixo risco.

Enquanto, em 2025, estes instrumentos, incluindo os Certificados de Aforro e os Certificados do Tesouro, representavam 44% dos ativos financeiros das famílias em Portugal, na Zona Euro essa percentagem ficava-se pelos 31%.

“Em contrapartida, os seguros e os fundos de pensões tinham menor peso em Portugal: 11%, relativamente a 26% na área do euro. Também os instrumentos mais diretamente ligados aos mercados financeiros tinham uma expressão mais reduzida”, acrescenta o Banco de Portugal.

Os títulos de dívida, as unidades de participação em fundos de investimento e as participações no capital de empresas cotadas representavam, no total, 10% dos ativos financeiros das famílias portuguesas, enquanto na área do euro esse valor era de 19%.

“As aplicações financeiras das famílias tornaram-se mais diversificadas ao longo dos últimos 20 anos, mas continuam mais concentradas em instrumentos líquidos e menos expostos às oscilações dos mercados financeiros do que na área do euro”, conclui.

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