Portugal produz apenas 17% dos cereais que consome
Défice agroalimentar português agrava-se e já ultrapassa os 6,2 mil milhões. Setor criou mais valor em 2025, mas o rendimento dos agricultores caiu 4,5%.
Portugal continua fortemente dependente das importações para satisfazer as necessidades de cereais. Em 2025, a produção nacional assegurou apenas 16,8% do consumo interno de cereais (excluindo arroz), mantendo um dos mais baixos níveis de auto aprovisionamento da agricultura portuguesa, segundo as Estatísticas Agrícolas divulgadas esta quinta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
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Os dados mostram um forte contraste entre os diferentes produtos agrícolas. Enquanto os cereais continuam a revelar uma elevada dependência do exterior, o arroz registou um grau de auto aprovisionamento de 119,3%, o vinho de 107,2% e o azeite atingiu 247,9%, correspondendo à segunda campanha oleícola mais produtiva de sempre, sublinha o INE.
Já nos frutos, o grau de auto aprovisionamento fixou-se em 72,6%, enquanto a produção nacional assegurou 75,1% do consumo de carne e 88,4% do consumo de leite e produtos lácteos.
O desempenho dos cereais surge num ano agrícola particularmente exigente. O INE refere que o ciclo agrícola de 2024/2025 ficou marcado pelo verão mais quente e mais seco dos últimos 94 anos, depois de um período de precipitação irregular. Apesar das disponibilidades hídricas terem permanecido globalmente favoráveis, a produção de cereais foi penalizada pelas dificuldades na instalação das culturas, pelo excesso de precipitação em fases iniciais e pela forte pressão de doenças fúngicas, enquanto o milho também foi afetado por problemas fitossanitários.

As condições meteorológicas também condicionaram outras culturas. A produção de vinho caiu cerca de 14%, a batata registou perdas de produtividade devido às condições adversas da primavera e os citrinos tiveram a pior campanha da última década.
Em sentido contrário, a produção de azeite manteve-se próxima dos níveis do ano anterior, sustentada pelo contributo crescente dos olivais intensivos e superintensivos.
A persistente dependência do exterior refletiu-se igualmente na balança comercial. Segundo o INE, o défice da balança comercial dos produtos agrícolas e agroalimentares agravou-se em 1.150 milhões de euros face a 2024, atingindo 6.256,6 milhões de euros em 2025. As carnes e miudezas continuaram a representar o maior contributo para o défice, seguidas dos cereais, cujo saldo negativo voltou a aumentar.
Do ponto de vista económico, o setor apresentou sinais contraditórios. O Valor Acrescentado Bruto (VAB) da agricultura aumentou 2,9% em termos nominais, beneficiando de uma ligeira subida do valor da produção e da redução dos consumos intermédios. Contudo, o rendimento da atividade agrícola, medido em termos reais por unidade de trabalho anual, caiu 4,5%, sobretudo devido à redução de 16,5% dos “outros subsídios à produção”. Em termos reais, o VAB recuou 3,7%, refletindo a diminuição do volume da produção agrícola.
Apesar das dificuldades registadas na produção vegetal, a produção animal apresentou uma evolução positiva. A produção total de carne aumentou 3,1%, impulsionada sobretudo pelo crescimento da carne de suíno (+6,5%) e de frango (+5,2%), enquanto a produção de ovos atingiu um novo máximo, com um aumento de 7,6%. Já a produção de leite manteve-se praticamente estável face ao ano anterior.
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